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O Porquê do Haicai ???

 

Fazer, compor ou produzir haicais, não será meramente escrever qualquer coisa, com formato de terceto.

Todo haicai é terceto, porém, não basta ser terceto para ser haicai.

O haicai é terceto, com poesia e caracterizado formalmente como haicai.

Bem descrever uma cena, em terceto, mesmo com a métrica 5-7-5, não será haicai, se não contiver “sabor” de haicai.

Fala-se que o haicai é hoje o poema mais popular da atualidade. Há controvérsias. Muitos que dizem escrever haicais, somente pensam estar escrevendo haicais.

Bastará visitar qualquer destes sites que se dizem literários, onde qualquer um posta seus escritos, para se deparar com absurdos inacreditáveis intitulados como haicais.

Originário do Japão, o haicai é um poemeto com 3 versos, sem título e sem rima. O primeiro verso, tem 5 sílabas poéticas, o segundo 7 sílabas poéticas e o terceiro 5 sílabas poéticas, onde em cada verso, terá que haver sempre uma ideia completa. O haicai é um formato poético fixo, não admite, nem tolera variantes formais.

O haicai procura delinear referências à natureza, ou, estabelecer a influência da natureza na alma humana.

Esta modalidade poética originou-se do Tanka, poema japonês, formatado em 31 sílabas, no esquema 5-7-5-7-7. Forma de poesia usual no Japão, desde o século IX.

Na dinastia Tokugawa (1603-1867), o haicai a conheceu sua fase de maior evidência. Desta época podem ser nominados pelo menos 36 grandes mestres japoneses haicaístas, dentre os quais, Matsuo Bashô, Kobayashi Issa, Yosa Buson, entre outros.

Conciso, o haicai é a poesia da objetividade, da sensação, do detalhe, das vivências e da memória das vivências. O haicai é por natureza atemporal. Não é masculino, nem feminino. Não empunha bandeiras. Não tem filosofias nem religiões.



DIRETIVAS PARA INICIAÇõ DE UM HAICAISTA

1º - O haicai é impessoal. O autor não tem presença no haicai. No haicai não entra eu, nem você, nem eles e nem nós. Isto não significa que o haicai não deva conter a marca de estilo do autor.

Melhor ainda: nada de verbos na 1ª ou 2ª pessoa, nem do singular e nem do plural. Pronomes possessivos também não.

Veja o que não se deve fazer, nunca:

Eu e meu filho
andamos a cavalo
pela estrada afora


2º - NUNCA - Nunca verbos no gerúndio. Nunca nomes de pessoas.


3º - Diminutivos, aumentativos, interjeições e nomes próprios. 1(um) de cada, por haicaísta, de 50 em 50 anos, já estará de bom tamanho.


4º - Poucos verbos. Bom mesmo é que não contenha nenhum.

Escrevi:

rubro sol poente
por detrás do arvoredo —
final de outra tarde

Este haicai não possui verbo, mas consegue transmitir a ideia.

5º - Em hipótese alguma. No haicai não se admite, figuras de linguagem e/ou jogos de palavras, gírias, vulgaridades, modismos, trocadilhos. Palavrões, nem pensar. O haicai “prefere” a elegância, mas sem rebuscamento. Isto porque não se presta a elucubrações, subentendimentos e subliminaridades. O haicai é simples e leve.

Alguém escreveu e publicou:

Transmudo-me em ti
quem é quem? além? aquém?
trans ... mudo menti

Trata-se de um curioso e imaginativo terceto, nada além ...


6º - Atemporalidade. Haicais são para sempre. Escrevi:

vermelho-laranja
como nuvem colorida —
flamboyant em flor


7º - Despojamento. O que não significa desnudamento. Entenda-se que até um mínimo de pontuação ou sinais gráficos é louvável. Dispensar letras maiúsculas iniciais a cada verso.
Os haicais, sim, poderão ser interrogativos ou exclamativos. Escrevi:

por entre arbustos —
um pirilampo errante
ou luz reticente ?


8º - A métrica haicaísta é: redondilha menor – redondilha maior – redondilha menor. Ou seja, contagem silábica poética tipo 5-7-5. Não há flexibilização relativamente à métrica, exceto em versões ou traduções, onde o sentido tem prioridade sobre a forma (óbvio). O formato do haicai é 5-7-5, se assim não for, não será haicai. Será até um belo terceto (se bem escrito), senão, nem isso.

Repare na métrica 5-7-5 presente. A contagem silábica é poética, diferente da contagem silábica gramatical. Escrevi:

olha ... a lagoa   -   o-lha-a-la-go = 5 sílabas poéticas
com duas e brancas luas  -   com-du-as-e-bran-cas-lu = 7 sílabas poéticas
pensamento voa  -  pen-sa-men-to-vo = 5 sílabas poéticas
Veja que a contagem poética termina na última sílaba tônica (forte).

Considerar ainda, para a silabação poética, o som dos fonemas, e as elisões. A exemplo do poeminha infantil "batatinha quando nasce", o segundo verso é: SE ESPARRAMA PELO CHÃO. Com elisão em SES - pa-rra-ma- pe-lo-chão (7 sílabas poéticas).


9º - Em cada verso uma ideia completa. Não só no haicai, mas em qualquer poema. Pois, o haicai não é meramente, uma frase escrita em três linhas (três partes). Jamais truncar uma sentença, para encaixá-la na métrica ou na rima, tal como no terceto abaixo (que nem haicai é). Veja:

cedro milenar
arranha-céu, pousada
de passarinhos.


10º - Antropomorfismo. Não dê voz, nem pernas, nem braços, nem olhos, nem ouvidos, a quem não os tem. Não faça chorar quem não possui lágrimas. Não faça sorrir quem não possui boca (ou dentes).
Alguém escreveu e publicou:

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

Um belo terceto ...  Belíssimo. Porém é somente um terceto.


11º - Inteligibilidade. O haicai, além de simples, sutil, singelo, tem que ser claro (entendível). Alguém escreveu:

A tigela branca.
A taça das delícias.
As mil sementes.

O comentário é: … E EU COM ISSO ???


12º - Rimas ?   Somente as guilherminas.

Introduzidas no haicai brasileiro pelo poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), conforme a esquematização: a última sílaba do primeiro verso rimará com a última silaba do terceiro verso, e, a segunda sílaba do segundo verso, rima com a sétima sílaba deste mesmo segundo verso, conforme o esquema abaixo:

- - - - a
- b - - - - b
- - - - a

Escrevi, com rima guilhermina, referindo-me ao carnaval brasileiro:

vem a bateria
no tom ... é samba do bom
pura energia
E do próprio Guilherme de Almeida:

Desfolha-se a rosa
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa


13º - Pontuação. Em similaridade ao idioma japonês, que é ideográfico, sem pontuação, nem sinais gráficos auxiliares, alguns haicaístas, unicamente adotam: o travessão (a indicar uma pausa na leitura), os sinais de exclamação (!), de interrogação (?) e as (…) reticências, estas, quando for o caso.  Escrevi:

lá fora … na chuva
ao abandono ... deixado
um pé de botina


14º - Conversa fiada é coisa de comadres.

No haicai somente diálogos surrealistas. Conversar com a natureza, com o universo, com os Deuses.

Diálogos, um tanto quanto inverossímeis, inimagináveis, ou, surpreendentes, tanto mais fará original o haicai. Mas deveremos nos conter dentro da singeleza haicaísta.

 Escrevi:

estrelas longínquas
talvez música dormente
neste céu noturno


17º - Leituras. Ler os grandes e os pequenos mestres haicaístas. E leia também os pseudo-haicaístas (para comparar). Leia muitos haicais, se possível no original. Cuidado com as traduções. Poesia e também os haicais, quanto mais sublimes, tanto mais intraduzíveis.

inacreditável
uma flor que volta ao galho ─
não … é borboleta


16º - O termo da estação (kigo).

Eis aí uma questão polêmica.

O termo da estação é a referência, preferencialmente, implícita a uma das estações do ano, às quais o haicai deve sugerir em seu contexto.

Cabe lembrar que a realidade japonesa há 800 anos, era bastante diversa da realidade de hoje. A visão que os japoneses tinham do mundo, no século XIII, XIV, era bem mais reduzida que a de hoje.

É de se perguntar o que se sabia das Américas, da África, e de terras algo mais próximas do Japão antigo, como a Austrália. E o que se dizer das megalópoles como a Tókio de hoje …

Hoje os kigos são outros, além de unicamente as referências exatas às quatro estações do ano.

Hoje o kigo deve sugerir uma referência à natureza, mesmo que não esteja definida a estação do ano do evento objeto do haicai.
Sobre o kigo, escreveu Rodrigo Siqueira
"Embora o uso de termos naturais seja mais comum, isso não se tornou uma restrição ao conteúdo. Variações e adaptações à vida moderna da cidade, fez necessário usar novos temas (novos kigos), mostrando as transformações do homem, resultado do seu afastamento do meio natural.

Assim surgiram os haicais urbanos e suburbanos.

Considerados, em outras épocas, subprodutos dos haicais originais, são agora verdadeiros, contendo muita beleza ao retratar momentos da realidade e dos sonhos do cotidiano do poeta."

Escrevi, referindo-me a Amazônia:

vem daqui há pouco
uma breve chuvarada
equatorial

E ainda, em se tratando de sentimentos e sensações, tão díspares do ocidente, como o eram a alma e o emocional japonês (antigos) em relação ao Novo Mundo, alguns haicais, escritos originalmente no idioma nipônico e referentes ao viver, ser e pensar oriental, soarão insípidos, mesmo quando, eficientemente e diretamente traduzidos a outro idioma.
Osiris Duarte de Curityba
Enviado por Osiris Duarte de Curityba em 26/10/2008
Reeditado em 06/06/2012
Código do texto: T1249214
Classificação de conteúdo: seguro

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