O abraço

Prevejo, sem tanto sentido, aqueles beijos que nunca foram dados, esquecendo-se num futuro tão distante que sequer existe. Talvez diga o peito cansado, nas entrelinhas difíceis do seu próprio pulsar, que o corriqueiro acaso enevoado pelas palavras nunca ditas é a única manifestação sincera de um desejo quieto, porém intenso.

Nos sorrisos sinceros das amargas lembranças habita o sonhador que dorme acordado. Nas entranhas dos “e se” residem as dúvidas mais cruéis. Pouco ou nada importam as saudades silenciadas nos lábios fechados. Haverá, quem sabe um dia, um verão que seja um presente de verdade. Por ora, sussurram os corações perdidos nas esquinas movimentadas e cheias de poeira.

O sol castiga a cabeça, já cheia de besteiras. O calor frio confunde a mente de quem não se atenta às armadilhas do sentir. Escorrem lembranças pelas ruas alagadas, afogadas sem bueiro. A água não lava a sujeira que lhe mistura.

O céu do estrangeiro estava desbotado, com a amargura de um doce que já não se dissolve na língua. Todas as possibilidades lhe foram apresentadas, mas era o limbo que desejava.

O alicerce dos seus pensamentos era sua morada predileta, um sulfúrico paraíso onde nada de concreto foi mantido. Desgastado no etéreo poço de exageros, escaldou-se nas frias lamas do murmúrio e, consagrado nas escuridões de sua chama, o estranho em seu mundo declarou seu fim.

Era um homem calado, na montanha, longe de tudo que já desejou. O silêncio dilacerava os pensamentos tortuosos, e não havia mais nada em seu caminho.