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UMA BRISA, UM SOPRO, UM VENTO...

UMA BRISA, UM SOPRO, UM VENTO...

                          Rangel Alves da Costa*


Uma brisa, um sopro, um vento, e eu correndo do meu pensamento, que viaja viagem lamento, junto a dor ele traz mais tormento.
Um correr, um ficar, um partir, o mundo chamando e eu não quero seguir, não sei se existo ou deixei de existir, por isso nem venha insistir que não saio daqui.
Uma mão, um grito, um chamado, voei quando estava ao lado, e na nuvem eu fico estirado, anjo jogado sem jamais ter retornado.
Um olhar, um gesto, um aceno, coisa triste nesse asco terreno, todo mundo me vê bem pequeno só porque saí no sereno e tranquilo tomei meu veneno.
Uma cor, uma flor, um jardim, tudo é muito e todos lembram de mim, amanhã quando tudo for fim, e a pobreza for certeza enfim, nem galho, espinho ou jasmim.
Um martírio, um prego, um martelo, uma cruz, pensando que sou Jesus, me condenam, me tiram a luz, depois ressuscitam os meus restos para a dor que se reproduz.
Um mar, uma onda, uma tarde, sol que ainda arde na saudade que vem e invade, trazendo lembrança e saudade de todo o passado, do viver de verdade.
Uma cuia, uma ponta de faca, uma água, não quero só derramar essa mágoa, quero abrir esse mar que deságua, inundar os meus olhos em frágua.
Uma casa, uma porta, um passo, não sei o que faço, quanto mede o compasso, se vou ou se me desfaço, se vou à luta e as mangas arregaço, ou me jogo por aí como qualquer pedaço.
Uma rede, um peixe, um anzol, pescador e seu arrebol, adiante enxergo um farol, um caminho no mar de atol, mas se me perco em águas profundas, nem mais vida nem sol, apenas um corpo preservado em formol.
Uma noite, um medo, uma lua, tanto bicho no meio da rua, que corro até se vejo ela nua, por causa do assombro que tanto pontua, por causa da vida que em mim desvirtua.
Uma garoa, um pingo, uma chuva, me encharco antes mesmo da curva, mas se sigo o destino que turva, a morte me cai feito luva.
Uma rima, uma estrofe, um verso, o que é a vida senão o reverso, do que faço, mando ou peço para ser feliz, mas não tem mais ingresso, só a fila dos que estão de regresso.
Um coice, um tapa, uma queda, meu corpo no buraco envereda, pagando caro na mesma moeda que esqueci de pagar à vida que hospeda.
Uma história, um passado, um presente, tanta coisa que passa e a gente nem sente, apenas aquilo que já é ausente, como eu qualquer dia, no coração que pressente.
Uma fome, um prato, um pão, cavo a terra, semeio esse chão, me espalho como pequeno grão na esperança que brote em qualquer estação, na promessa que não sofro mais não.
Um amor, um adeus, uma dor, da vida o que tem menos sabor, quase sempre o seu amargor, ainda que se deseje com ardor, se entregue com todo fervor, tornado pó o que sempre restou.
Um ciúme, um motivo, uma guerra, é o passo pra tudo que encerra, de repente a paixão que emperra e a desavença que a tudo aterra, restando o sofrimento que a esperança enterra.
Um nome, um apelido, um alguém, qualquer coisa que faz tanto bem, já não é porque não convém ser de um ou ser de ninguém, pois a estrada e o que está mais além qualquer coisa mantém que traz sofrimento também.
Um quarto, uma cama, uma noite, descansar desse tanto açoite, antes que a tristeza venha em pernoite, e o meu lado solitário chegue pra ela e acoite e os fantasmas sorriam à meia-noite.
Era eu, era ainda, era tudo, ainda sou o que resta, restou, mas depois dessa vida num laço, não sei o que fiz, o que faço, vou num passo que não sei onde estou.





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa
Enviado por Rangel Alves da Costa em 19/07/2011
Código do texto: T3104134
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Rangel Alves da Costa
Aracaju - Sergipe - Brasil, 57 anos
10747 textos (365741 leituras)
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Rangel Alves da Costa