FAROL DE GELO, A LENDA DA POESIA
Ao estimado Prof. Dr Benilton Cruz
No meio do rio Aguatimanus, mora Eutoniel,
no cento do rio mais estranho daquele país.
O rio tem um comprimento imensurável,
mas cabe na vida de Eutoniel...
As águas desse rio são serpentes negras ...
São fumaças alvíssimas ou nuvens
que Sued criou para esconder segredos.
Há navegantes que navegam o Aguatimanus,
mas há outros que logo desistem...
Todo nauta que se dispõe ao rio nunca mais volta.
Some nas penumbras densas de seu vau...
Dizem que no leito do Aguatimanus mora um som,
uma música ou barulho que encanta e seduz.
Talvez por isso ninguém mais volte...
Em tempo de lua vazia, quando não há luz no céu,
dizem que há uma figura que anda sobre o rio,
que geme e canta músicas antigas de ninar...
E no dia seguinte, surge imponente, no centro
do rio mágico, um farol de gelo que esfumaça,
que brilha na luz do sol sem derreter...
No dia seguinte, inesperado, some o farol,
as penumbras, as maresias e dá para ver
lá no meio do Aguatimanus um casebre branco
e um vulto se movendo confuso...
Dizem que é Eutoniel, o Senhor do Tempo,
criando encantos para nos servir
de armadilhas...
Falam que Eutoniel era um anjo de asas longas
que voava do centro do céu ao cosmo dos olhos,
afirmam que Eutoniel sabia fazer mundos, criar o pulso,
mas um dia um Dragão chamado Asis,
enciumado das asas de Eutoniel,
armou-lhe várias armadilhas, mas nenhuma
foi capaz de iludir Eutoniel...
Asis descobrindo da crescente majestade de Eutoniel,
resolveu criar um novo plano:
Foi então que deu vida às raízes de um velho carvalho
criando um anjo fêmea de aparência notável,
um demônio vestido de clemências feito Asis:
Seduzido por Uam, a fêmea anjo planejada por Asis,
Eutoniel foi preso nas masmorras de Quetel
e teve suas asas cortadas junto às costas,
e o rosto deformado por fogo...
Das asas de Eutoniel lançadas em um caminho
que levava à maior cidade daquele país ,
nasceu uma árvore estranha
que ninguém havia visto antes.
A árvore dava belos frutos vermelhos,
contudo logo apodreciam porque ninguém ousava
comê-los, diziam que eram venenosos...
Por isso os viajantes deixavam de passar próximo
à árvore e caminhavam pelo lado direito
da árvore (dentro do mato). Com o tempo
a árvore ficou entre os arbustos, já que a
estrada havia se alterado junto à árvore
— ficara com uma curva...
Uma noite um viajante estrangeiro passava nessa curva,
estava faminto. Parou. Viu dentro dos arbustos
uma árvore com frutos belíssimos. Entrou...
Se aproximou da árvore e tomou de vários
frutos. Comeu o primeiro, apenas um único
pedaço, e seus olhos abriram — Morreu...
De manhã acharam o desavisado viajante
que não morava naquela região. Descobriram
que ele morava na Região da Imaginação
e que o nome dele era poeta, filho da expressilinguagem...
Um menino que olhava o corpo do poeta
no chão disse: “Ele deve ter morrido de barriga cheia”.
Chamaram a árvore de Poesia,
homenageando ao viajante desavisado
que deixou o corpo naquele tempo
e prosseguiu a viagem, mas, agora, muito mais feliz...
(sem que os cegos percebessem!?).
O poeta como havia perdido sua casa,
vagou por horas e horas entre a lua vazia
e, no sétimo ciclo seguinte, achou entre a imprecisão das nuvens
uma torre alta de gelo — o farol de gelo de Eutoniel...
E é desde então que o poeta
canta tudo que há sob o tempo e no rio
Aguatimanus... Alguns dizem que o poeta
canta de pesar e que o canto é tão comovente
que ao ser ouvido pelos nautas estes se desapegam
da vida e morrem sufocados de prazer...
Gaivotas aladas que desmaiam no tremendo
vento da linguagem...