Cotidiano

Um político passa em carro alegórico

a súcia aplaude. Uns poucos impetuosos

vaiam. Coisas da oposição!

O centroavante perde o gol e o grito

transformado em murmúrio, morre.

Alguns praguejam à vontade, de boca-suja.

São tempos de seca, vacas magras devoram

a ilusão gorda e rica.

Faraó decreta o racionamento, alegria fragmentada,

em torrões é servida em migalhas.

Um burro rola na relva espaventando fantasmas

de arreios e chibatas e esporas...

O automóvel para na esquina e a menina indecisa

tropeça no passeio. A malta gargalha

e ri com toda a boca e dentes...

Pairam os arranha-céus sobre calçadas e marquises

espionando pedestres minúsculos que olvidam o céu

nem para previsão do tempo.

A cidade se excita nervosa, geme em cada esquina

e praças. Estala, dilata, contrai. Será que arrebenta?

O besouro, embalde tenta desvirginar vidraças,

as flores se perdem no asfalto, e mortas se despetalam...

É a vida que flui!

https://polenepedras.blogspot.com/2019/10/poemas-publicados-0422019.html