Erraticidade.

E todas as velas que eu iço, aos ventos que eu não desperdiço,
Na certa irão me levar,
Aos potes do além do arco-íris, ou além do tendão de Aquiles,
Ou, até mesmo, pro fundo do mar.

Já outras velas eu acendo, por tanto, louvores eu rendo,
À doce Rainha do mar.
Sou navegante e entendo, os mares se sucedendo,
E eu não querendo voltar.

As velas içadas serão asas, as chamas já foram brasas
E tudo avivou-se num sopro,
Os seguros telhados das casas, o corpo inerte que jaza,
O pendão que se agita no topo.

As velas alinhavadas de desejos,
A esperar por bafejos e beijos,
Dos inquietantes ventos das possibilidades:
Sereias, de longe, silvam arpejos,
Já é alto mar, não é mais o Tejo!
E a loucura mergulha na irrealidade...

Para os marujos tudo é ensejo, depois do rum vêm os lampejos,
Os relampejos... a tempestade...
Mergulham em busca da sereia, que a luz da lua prateia
E molda tão linda deidade! 
E o marujo na praia vagueia, vê seu corpo estirado na areia, 
 É a alma na erraticidade.