ANJO-POETA

Raimundo era um homem simples,

– daqueles homens de fazimento –

com nome de santo,

que andarilhava pelo mundo

catando desperdícios em sacos de lixo.

Raimundo – que era filho do mundo –

tinha um trabalho invisivelmente nobre:

pobre, recolhia das lixeiras da sociedade

o entulho que a humanidade desprezava.

Catava, entre latas, velhas caixas de papelão

– e das sacolas jogadas ao chão –

o lirismo do romantismo de outrora,

os cantos não percebidos dos passarinhos,

a beleza do nascer do dia (a aurora),

a imagem santificada no crucifixo,

as virtudes de amizades perdidas

que se amontoavam [no amor ferido do agora]

entre as sarjetas – das tantas ruas imundas –

que percorria durante os afazeres do dia.

E, das valas abertas que encontrava pelo caminho,

recolhia sempre, com muito carinho,

o silêncio das palavras carinhosas não ditas,

o perfume das flores reboladas ao solo,

o respeito vilipendiado, a coragem menosprezada,

a humildade e a perseverança desdenhadas,

a tolerância e a fé preteridas,

as rosas que cintilavam ao pôr do sol,

as palavras proferidas aos girassóis amigos:

palavras que nunca foram ditas ou notadas

nas veredas que percorre a vida.

Ao final do clarão de um dia de trabalho,

Raimundo levava tudo para um terreno baldio,

e lá depositava em leiras tudo que recolhia.

Anos depois, Raimundo se foi...

Ele que não tinha nem beira, nem eira,

nem estudo, nem família,

morreu sem deixar um legado...

Ledo engano, velho desacerto!

Raimundo deixou um jardim plantado,

– um alentado canteiro [florido de amor].

Foi ele um semeador

neste mundo louco em que se joga no lixo

a essência e a beleza da rosa-vida!

Eylan Lins
Enviado por Eylan Lins em 27/12/2023
Reeditado em 19/02/2024
Código do texto: T7963065
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