Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Minha última Aparição

        Hoje, exatamente hoje, 2 de novembro de 2019, até meia-noite está fazendo 10 anos de minha última aparição. Escrever sobre essa data, soa estranho, não? Concordo, porém faz-se necessário; e se estamos no Planeta de linguagem estranha, embora em outra dimensão, recordar é viver.
     Estou contente, muito contente, pois quase todos se lembraram de mim. Uns vieram trazendo coroa de flores, outros acenderam velas. Outros mais, fizeram mutirão para varrer e lavar minha lápide; portanto, como não valorizar quem me valoriza?! Foi abrir os portões e uma enxurrada de gente e objetos desceram sobre mim, fazendo-me sentir entre o etéreo e o nirvana. Ademais, trocaram a inscrição antiga: "vai-se a matéria, ficam as boas obras", pelo epitáfio: "na poeira (acredito que tenham errado a grafia e em vez de poeira, a palavra é poesia) da vida, vale os sonhos vividos". E aqui para quem me lê: como os vivi!!
                     Esta manhã, a qual provavelmente se estenderá até o derradeiro tilintar dos sinos, o movimento de familiares, amigos, animais domésticos e inimigos, inclusive meus leitores de Recanto das Letras, tem sido grande em minha residência fixa.
   Lembra-me bastante nosso último encontro, o qual comemoramos meus 100 anos de matéria. Longe de saudosismos, naquela ocasião, fomos para um SPA, cujo nome é "Esparrela" e lembro até hoje; pois uma data especial, merece um ambiente especial para confraternizar a passagem; afinal, 100 anos, não são 100 meses, 100 dias ou 100 horas.
   Lá, reunidos em mais de mil pessoas, rimos, comemos, bebemos, petequeamos, mergulhamos os corpos na piscina, tilintamos os copos e cantamos uma tarantela. Italianos adoram bater, fazer barulho nos pratos e mesa antes de serem servidos.
               Terminada a festança, empanzinados de tanto comer e beber, uns roncavam debruçados sobre as mesas e outros caíram desmaiados no extenso gramado verde. O lugar mais parecia um paraíso.
              Eu, na qualidade de velho e respeitado patriarca, tomei à frente; e pendurando sobre o cajado que por muitas décadas foi meu companheiro, enquanto o silêncio representava a alegria passada, caminhei até a secretaria do SPA e efeteuei o pagamento da festa. Sempre fui um homem honrado, de iniciativa, respeitado por todos e não menos, cumpridor de meus deveres,  atributos que elevava minha autoestima.
                  Passados uns dias, o que foi alegria incontida, transformou-se em córrego de lágrimas. Contra minha vontade, óbvio, as gargalhadas cessaram, cedendo lugar para  as lágrimas nas faces e óculos escuros nas vistas para tapar o inchaço do olhos. Naquele dia, ou seja, 2 de novembro de 2009, a matéria morrera, para minha história ganhar vida eterna. E eis que o caro leitor acaba de tomar conhecimento de uma pequena, ínfima parte do todo. Porém, ratifico, o que lestes, não é nada dos 100 anos de glória deste nobre vagabundo, imortal escritor e imoral assumido, porque como bom italiano espanholado, mandava tudo à Puta que o Pariu, Mutável Gambiarreiro.
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 02/11/2019
Reeditado em 02/11/2019
Código do texto: T6785326
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
2322 textos (53901 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/11/19 11:43)
Mutável Gambiarreiro