Dicionário

Estou aqui, lendo um exemplar de Graciliano Ramos. As pausas em busca de significados de palavras. Talvez eu seja mesmo estúpido. Todos somos, de alguma forma. É preciso ir atrás do sentido fora da obra, já que não possui referências de rodapé ou coisas do tipo. Nem mesmo um glossário. A palavra é parecida com essa, falta-me um dicionário. Recorro à prateleira de livros, encontrando o famigerado guia. Sim, um guia. Sou guiado por um índice alfabético, passando páginas até chegar no ponto que necessito. Lá está o que procurava, parado e pronto a me fornecer as informações. Essa passividade do dicionário me irrita, com suas afirmações acerca de tudo que esteja ali contido.

Volto à obra o Graciliano. Deixo de pensar na leitura, para me dedicar a esse fato ocorrido, ou seja, a necessidade do dicionário. Somos reféns dessa normatização da linguagem, que é formalmente estabelecida e gravada, para que todos a sigam, inquestionavelmente. Dão significados, fazendo com que tenhamos a certeza acerca do que cada coisa é. Quão triste é essa dependência. Não ousamos, já que está dito, ou melhor, escrito, como as coisas são. O máximo de inovação se refere a nossa ignorância, quando nos deparamos com alguma palavra que desconhecemos, fazendo com que sejamos surpreendidos, não pelo significado, que tende a tornar vulgar a coisa, mas pela própria forma.

Os eruditos, recorrem aos dicionários, como se fossem suas bíblias. Transitam para cima e para baixo, com uma edição dessa mística gramatical embaixo do braço. Pregam a todos, utilizando sua verdade dicionárica. Basta um dia, surgir uma gíria entre aqueles desprezados, desconhecedores dessa fonte de saber, e pronto, podemos ter um acréscimo na lista de palavras. A força dicionarial, encontra-se em sua permanência, fazendo-se lei. Eis a estratégia do que é escrito. Perde-se a fluidez da fala, ou antes, tentam fazê-la mais dura, engessada em uma linguagem que tenta se solidificar. Todos passam a seguir esse sentido, que os tornará mais próximos, é o que dizem. Só que o formalismo linguístico apenas distancia. A normatização, faz com que se exclua o que foge a sua lei, criando uma separação que não é apenas diferencial, mas injusta.

A injustiça surge, à medida que os mecanismo da sociedade, se baseiam nas normas que a linguagem forma decreta, fazendo com que os não participativos, sejam não apenas ignorantes, mas também, criminosos. Na constituição, está declarado, que não se pode desconhecer a lei, sendo a legislação é organizada conforme a formalização da linguagem. Um poeta vai fazer seus versos, preocupado com o vernáculo. Faça-me o favor. Nossa forma de comunicação não tem se sofisticado muito, apenas seus aparelhos de transmissão. As crianças passam pelo processo cruel de alfabetização, decorando cada mecanismo gramatical, até que tenha sido doutrinada, a ponto de conceber que isso o que profere é a norma, portanto, o certo.

Professores, dependentes desse falso saber, divulgam com ardor os códigos linguísticos. A própria internet, tenta destruir esse regimento, com sua transformação na articulação da linguagem, embora ainda se mantenha presa a outras formas de códigos. Assim, continuo com minha leitura, pensando até onde irei, sem o auxílio desse nefasto guia. Dizem que grandes eruditos, consultam pouco, já que conhecem uma grande variedade de palavras. Mas o que importa conhecer, basta para isso decorar. O que falta é criar, inventar uma arte das palavras, onde se possa quebrar com toda essa estrutura que torna nossa condição linguística deficiente. Admiro os grandes transgressores, que conseguem corromper, seja através de poemas insanos ou insights virulentos. O dicionário e a bíblia são comuns no falso sentido de liberdade, são duas prisões que dão falsa alforria. Amo os palavrões, chamados de linguagem vulgar, baixa, pois muitos são recusados nos dicionários e isso me faz exaltá-los. Quanto aos estudados, que se indignam com um texto desses, deixo apenas uma expressão, FODAM-SE!

Bruno Azevedo
Enviado por Bruno Azevedo em 18/12/2012
Código do texto: T4042541
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