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Amar é uma Partida de Futebol

          Em verdade, esse pequeno texto deveria estar na categoria Contos; mais precisamente Minimalista, mas por conveniência, está em Discursos. Em tempo, em uma ou em outra, o que importa é a insípida mensagem, a inócua reflexão, o inútil pensamento intrínseco nas dissecadas entrelinhas.
          Pois bem, um dia desses tomando umas com uma amiga, depois de esvaziar várias garrafas, enrolarmos vários tremendões de erva puríssima (importada tão boa, que vale o superlativo)  e tornarmos filósofos cosmopolitas dos quatro cantos do Planeta,  entramos em um conflito existencial.
         Daqueles direto; que na gíria do futebol dizia: pá e bola. Meteu a redonda, deu o passe, recebeu-a de primeira. Redonda; redonda!
- você é um superamigo, gozo demais, tenho orgasmos múltiplos com você; mas não que valha alguma coisa para mim. - disse ela.
            Dei uma baforada no baseado, tapei as narinas, respirei fundo e fui a luta. Com um rio caudaloso em torvelinhos revoltosos na mente, respondi: "Incrível como nos indentificamos até nesse quesito. Já esperava isso de você, não me surpreendo. Como revelação, com relacão se paga, se para você eu não tenho nenhum valor, o mesmo digo eu; e você para mim é uma qualquer, vale menos que um doce maria mole, que não vale um centavo, querida! Em moeda venezuelana, que é a mais baixa, comercialmente; certo?"
            Morreu o assunto. Quebramos todas as garrafas. Recolhemos os cacos, limpamos e secamos o piso; por fim, com a tarefa feita, apagamos as velas, fomos para a cama e nos amamos, felizes como nunca. Depois dessa notável e transmutante experiência, fazemos esse fetiche, constantemente, antes do ato nupcial. Para lapidar os encontros, decidimos em conjunto que quando um de nós estivermos revirando os olhos em pleno êxtase, feito peixe morto fora d'água, sussurrar no ouvido do outro: "Pronto, empatamos. Somos tão inúteis, tão desprezíveis um para o outro, que ficamos no zero à zero."
    Terminada a festa, papeamos alguma coisa desconexa, trocamos um selinho de lábios tórridos pelo frio de 5 graus negativos e damos adeus às tolices mundanas, perguntando um para o outro: "os problemas entre os casais, as diferenças entre os humanos, a mesquinhez e a humilhação que assolam as vassouras e rodos nesse piso gélido estão na vista, ou à vista?"
         Seja como for, a reflexão que fica é: abrir o coração para novas energias, dizer e ouvir abertamente o que temos que ouvir e amar desenfreadamente, é como uma partida de futebol. Ou chegada, como for a preferência do leitor. E o mais admirável não é fazer o gol, mas bater bola humanamente, de igual para igual e realizar-se, mutuamente. Quem somos nós nesse espaço terreno para um ficar em cima, primeiro e o outro lá embaixo, o último na tabela do sexo futebolístico que gera vida.
                 Valendo-se da fisicoquímica, a frágil matéria perece, definha, morre; as resistentes moléculas ficam, perpetuam-se no tempo. O que nada resulta em nada; pois somos bolas furadas. Contudo, amar é uma partida de futebol que não dura mais que 90 min; quando dura.
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 19/06/2019
Reeditado em 19/06/2019
Código do texto: T6676418
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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