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Uma carta por ela mesma

        Se as cartas tivessem a capacidade de expressar as intimidades escritas nas linhas de suas páginas, quais seriam os sentimentos e segredos memoriais revelados por uma delas? Em dada ocasião, Milton Nascimento deu seu parecer sobre o indagado: "Mande notícias do mundo de lá / Diz quem fica / Me dê um abraço, venha me apertar / Tô chegando / Coisa que gosto é poder partir / Sem ter planos / Melhor ainda é poder voltar / Quando quero". - obviamente, que a revelação cantada pelo músico e compositor de MPB, é de uma carta que tem a poesia em sua alma; porém, uma carta é muito mais que poesia.
               Minha escrita pode dispersar o ódio. Declarar a paz. Incitar os revoltosos; cravejar de verdades os acomodados. Despir as vestes de um corpo modificado geneticamente. Aplaudir quem troca os pés pelas mãos. Mandar a humanidade banhar-se na ponta da praia distante. Virar o Planeta de perna para o ar. Em tempo, mas para que a escrita atinja o status de ditadora e realize o proposto, basta o humor e a revolta da Pena no momento em que ela debruça sobre a mesa para vomitar no papel suas ambiciosas desilusões. A escrita revoltosa tanto constrói, quanto destrói. E o envelope sabe muito bem o sentimento que carrega dentro si.
                  Nunca sentei numa cadeira de escola; nunca estudei uma vírgula; nunca toquei na ponta de um lápis; nunca soube soletrar uma sílaba, sequer; como também não me considero uma escriba assinante de bons ou maus pensamentos, ao contrário, exercia várias atividades profissionais, comunicava  constantemente com minhas amigas no outro lado do globo, viajei boa parte do mundo e através da mímica, falo e interpreto mais de 501 idiomas. Uma polímata? Não, garantidamente, não! Minha humilde modéstia não me permite tal associação; quando muito, cumpria meu dever, de ser prestativa e socialmente, usual. E por assim ser, nunca pedia nada em troca; afinal, compromisso assumido é dever realizado. Nada mais! Se os valores estão às avessas por aí e pagam até pela honestidade, não foi o meu caso; como também não é por minha causa.
  "Escrever sobre amores profanos em mudas cidades, são ecos poéticos surdos e ternas emoções, em tenra idade".
            Aos longos dos anos, em plena travessia dos sete continentes e muitos mares vermelhos pelo incêndio e oceanos nada pacíficos, quantos amores uni! Quantos amplexos apertados e ósculos selados pelas línguas transportei! Quantas lágrimas de adeus molharam as páginas e o envelope! Quantos sorrisos francos entreguei em mãos! Em plena atividade, era como se eu fosse a metade construtiva do belo casario retilíneo e uniforme. Arquiteta de sonhos e realizações; tudo, tudo, saía de dentro de mim, como um sopro aliviador do coração. Um sopro puritano, prazeroso e terno de felicidade.
  "A noite caduca é a amiga inseparável, única companheira das estrelas que rondam a lua sem lar e raiz; e juntas, enlaçam a imensidão do infinito num abraço caloroso". Escrevi numa madrugada em que não havia nada do descrito inspirando os insones. Naquela noite, depressão e desilusão foi a tônica.
                       Quantos sonhos sonhados; planos planejados; ilusões desfeitas dentro de um minúsculo envelope. Sem jamais bisbilhotar os assuntos alheios, quantas idas e vindas, levando e trazendo os fragmentos de vidas perdidas; pedaços de vidas ainda vívidas; nesgas de vidas esquecidas. Ao chegar ao endereçado, ficava sabendo que havia levado para o destinatário retalhos de compromissos escritos que nunca foram costurados nas colchas da paixão. Quanta desilusão
                    Lamentavelmente, os retalhos nunca tornaram-se reais. Palpáveis. Palatáveis. Taparam, aliviaram, aqueceram corpos em noites invernais. Dando a César o que era de César por direito, transportei a efusividade da evolução e alegria, mas não deixei de carregar o desgosto, a agrura, o desprazer, a tristeza, a cobrança judicial. Deveras, nessas andanças promovidas pelo nosso Deus mund`afora, aprendi que o destino é a medida exata, em milímetros; e o peso certo, em gramas, da cruz que cada vivente carrega.
"Quando não tinha o que pensar, escrevia. E quando não escrevia, lia as confidências escritas. Violadora de sigilo, eu?
                        Às vezes me bate um sentimento de tristeza e pesar, em saber que eu transportava a cruz do destinatário, ou mesmo do remetente. Não esqueço-me da ocasião em que fui posta na mão de um destinatário e imediatamente, em menos de um minuto, as lágrimas de seus olhos prostraram sobre os meus pés: "Fim, é o fim amiga linda! É o fim de todos os planos elaborados, meu único amor; o fim"!
                   Senti-me tão fragilizada, tão sensibilizada com a reação no semblante da  pessoa, que não deixei de pensar, se eu era cúmplice no também "fim dos planos elaborados". Também puderas, no mundo há 1001 maneiras de amar e querer; e se os brutos amam, da mesma maneira, os mal educados, arredios e rebeldes se querem.
Amar, querer, trair e coçar, é só começar; e andam lado a lado, caminham de mãos dadas. E embora velados aos sentimentos, ocultos às vistas das emoções, às vezes, amar, querer e presenciar com olhos nus, é o início ou o fim dos planos elaborados em papel, ou edificado pela solidez do tempo. Durante o ciclo vital, as dúvidas sempre sobrepõem às certezas. Certo mesmo, é que o futuro é incerto.
                    Uma ardência, um aquecimento, uma labareda fervente subiu pelo meu corpo. Flecha disparada contra o meu coração, não sabia se chorava ou se sumia em disparada. Confesso que foi uma das piores, se não a pior, experiência que vivenciei. Sentimento não se mede, senti; mas foi pior que a dor da morte. Estacada e ereta encostada no batente da porta, sem dizer uma palavra vocalizada, sequer; suspirando fundo e mirando assediosamente o horizonte, falei com o coração: "o que faz o encontro e a despedida de amores que se perdem nos caminhos da desilusão!?

                     Tudo acontece porque uma carta atira pedras no lago e observa o deslocamento da onda. Em contrapartida, uma carta se culpa; e a culpa é um leão rugindo ferozmente por dentro, uma tigresa, visceralmente, esfomeada. Um sentimento, tanto nostálgico e saudosista, quanto devorador; e a culpa senhor Destinatário e Remetente, é dualista. É amor recolhido; aquele que jamais poderá ser declarado e resolvido por mim, ou por nós!

                                  Decrépita, envelhecida, perdi meu valor material, como é determinado pelo tempo, mas mantenho-me espirituosa de valores íntimos. Sou peça de museu amarelada nessa gaveta que é aberta uma vez hoje, e a outra, sabe-se lá quando; entretanto, em tempo, ainda nutro amor próprio por mim.

                    Amor é a palavra que mais transportei. Mas o que é amar? Amor, compaixão e gratidão: falam-se deles em todos idiomas, em todos shoppings, em todos estádios de futebol, em todos natais, sóis e arrebóis, mas ninguém dá o que não tem.

                          Todavia, ainda acredito na tríade: amor, compaixão e gratidão; sei que não se encontra em qualquer esquina, mas ainda acredito que ainda haja um pouco de profícuas e benévolas virtudes no âmago de quem escreve uma carta. E se isto não for o universo salpicado de estrelas, é quase a galáxia enluarada, e fará com que meus pulmões respirem por muitas e muitas décadas. Quem escrever à mão, além de experimentar sentimentos transbordantes, um dia irá dar-me razão.

Cartas são como barquinhos de papel; e enquanto o barquinho é tocado pela água em movimento, eu sou movida pelas emoções e sentimentos.

              O restante, deixe por minha, ou nossa conta. Sem preguiça, sem uma gota de indolência e sem demora, retornaremos aonde as emoções e os sentimentos verbalizados em palavras, nunca estiveram. Unir corações e almas, ainda é, literalmente, o meu, o nosso, papel...; social, familiar e humano! Por isto, treine sua caligrafia e escreva uma carta de próprio punho e saberás quais são os valores cobrados para manter as tonalidades de uma amizade honesta e sincera. Afinal, o valor dado a uma carta por quem a envia, é o mesmo apreço dado por quem a recebe; ou seja, boas lembranças e sólidas recordações de um filme passado que o cinema cotidiano não reprisa mais.
         
              Tudo, em tudo mesmo, criam-se teias de aranha nas bordas e picumãs nos interiores, exceto no que carrego dentro de mim e divido com todos os remetentes e destinatários de cartas: "Ventos e escritas biográficas, por que se aliam, fazem pacto com a brevidade da vida!?"
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 20/12/2018
Reeditado em 20/12/2018
Código do texto: T6531533
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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