Cobrador - O Regente do Coletivo
Charlles Nunes

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“Aquilo que persistimos em fazer se torna cada vez mais fácil para nós; não que a natureza da coisa em si mude, mas é nossa capacidade de realizá-la que aumenta.” ~ Ralph Waldo Emerson

Você também gosta de travar o despertador e aproveitar aqueles minutinhos a mais embaixo da coberta?

Pois saiba que a essa hora já tem mais cobrador de ônibus circulando pela cidade do que bolinhas de pêlo grudadas na sua blusa de crochê!

Confesso que essa foi uma das profissões que tentei, mas não emplaquei. Com uma carta de referência fresquinha nas mãos, fui diversas vezes ao escritório da empresa de ônibus, mas nunca tive êxito.

Meu tio teve mais sorte. Sem carta de apresentação, entrou logo de primeira. E saiu do mesmo jeito que entrou! Marinheiro de primeira viagem, não agüentou o tranco – ou os solavancos – e vomitou antes do ponto final. ☺

Se existe um profissional que tudo sofre, tudo vê, tudo ouve, tudo espera e tudo suporta... É o nosso amigo cobrador. Nas catracas da vida, de ponto em ponto, com alguns quebra-molas no meio, ele – ou ela – reza pela cartilha que tem ao menos três lições: paciência, simpatia e educação.

Você pode até dizer que tem alguns que não fazem muito bem o dever de casa, concordo. Mas já pensou como deve ser receber em média dois cumprimentos por hora, e passar o resto do dia quase invisível? Como deve ser ter de trocar uma nota de cinqüenta logo na primeira corrida da manhã?

Embora seja uma profissão cheia de altos e baixos – “Tem gente que acorda de mau humor e vai descontar no cobrador...” – boa parte declara que gosta do contato com as pessoas. Dizem também que a profissão é bastante assediada. “Tem gente que entrega o dinheiro bem enroladinho… com um número de telefone anotado...”

Se por um lado sobram cantadas, por outro faltam banheiros. Pelo menos, em número suficiente. Na ‘hora H’, a solução é parar o ônibus fora do ponto mesmo e o boteco mais próximo já serve pra aliviar o aperto!

Além da certeza de levar o leite das crianças no fim do mês, são as experiências divertidas que ajudam a segurar a barra. Eu mesmo já presenciei duas delas:

Na primeira, um magrelinho estava beijando a namorada no banco de trás. Estavam distraídos da vida, quando o ônibus passou correndo num quebra-molas. Foi boca pra um lado, língua pro outro, e o cobrador caiu na risada! Os dois ficaram vermelhos, e eu fiquei tentando disfarçar, já que a situação era daquelas que é melhor nem tentar remediar...

Na segunda, o cobrador pediu a um baixinho que passasse por uma roleta já meio girada, alegando que o passageiro anterior havia ‘errado a roletada’.

O homem virou pra trás, e teve a infeliz idéia de perguntar ao próximo passageiro se ele passaria junto. (Até hoje não entendi o porquê...) O grandalhão topou.

Enquanto os dois se espremiam na roleta, o cobrador observava a cena com um sorrisinho no canto da boca...

Quando terminou aquela ‘travessia do Mar Vermelho’, o baixinho agradeceu aliviado. Em tom de deboche, o outro respondeu: “Obrigado a você!”

O ônibus todo começou a rir. Aí, não teve jeito: o baixinho ficou enfezado, e passou a discutir com o cobrador. O bate-boca foi aumentando, alguns passageiros se intrometeram, e estava armada a confusão!

Mas até hoje não sei o fim dessa história, porque logo chegou meu ponto, e eu tive que descer do ônibus...
 

1. Mar Vermelho: aquele mar que ficou famoso após ter sido aberto por Moisés durante a fuga do Egito. (E se Moisés fosse daltônico?) ☺
 

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