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CHORANDO EM SILÊNCIO


UMA CRIANÇA, POR MAIS FERIDA QUE TENHA SIDO, GUARDA SENSAÇÕES ÚNICAS DE SUA INFÂNCIA. , POR EXEMPLO, NUNCA ESQUECEREI O CHEIRO DE PÃO FRESQUINHO, SAÍDO DO FORNO DE PEDRA DA CASA ONDE MORAVA NA LONGÍNQUA ALDEIA ONDE NASCI. É SÓ FECHAR OS OLHOS... VEJO MINHA MÃE, ROSTO AFOGUEADO, RETIRANDO AQUELA DELÍCIA... SINTO A CHUVA... O CHEIRO DAS FLORES NO JARDIM...
NO ENTANTO, HÁ VÁRIOS ANOS QUE, POR ALGUMA BORRACHA DIVINA, FORAM APAGADOS, DA MINHA MEMÓRIA. ESSE TEMPO – NÃO POSSO CHAMÁ-LO DE INFÂNCIA - EM QUE VIVIA COM MEUS TIOS RICOS E QUE CUIDAVA DE UMA PRINCESINHA, MINHA PRIMA, DE DOIS ANOS. EU AINDA NÃO TINHA SETE. POR EXEMPLO, NUNCA ESQUECEREI A SURRA QUE LEVEI POR, SEM QUERER, TÊ-LA DEIXADO CAIR. EU AINDA SINTO AS MARCAS DA CORREIA (CINTO) COM QUE ME BATERAM E QUE ME MARCARAM PARA SEMPRE.
ALGUMAS, PORÉM, RESGATEI E PERMANECEM, COMO BANDEIRAS QUE ME FIZERAM CONTINUAR. TODO DIA EU ESCUTAVA QUE NÃO VALIA NADA. VESTIA-ME PARA A ESCOLA. O UNIFORME, EU ESTICAVA, DIARIAMENTE, PORQUE NÃO SE DAVAM AO TRABALHO DE O PASSAR. DAVAM-ME O MESMO PÃO COM GOIBADA ( FOI O MESMO LANCHE DURANTE ANOS) E LÁ IA EU COMO UM BICHINHO QUE SE ENXOTA PARA LONGE PORQUE INCOMODA E SE APEQUENA POR SABER QUE NÃO TINHA LUGAR NAQUELE MUNDO. EU OS ENVERGONHAVA. ERA A SOBRINHA SEM PAI.
AO VOLTAR, ESPERAVA-ME, FRIA OU QUENTE, A MESMA “MONTANHA “ DE COMIDA, COM A CORREIA DO LADO. EU NÃO DIZIA NADA. NADA CONTAVA. NÃO TINHA COM QUEM FALAR. MEXIA NAQUELE PRATO IMENSO E TIRAVA ALGUMAS COLHERES: O MÍNIMO. POR ISSO, SEMPRE APANHAVA- TINHA QUE FICAR GORDINHA PARA FAZER JUS AO DINHEIRO QUE MINHA LHES DAVA, TRABALHANDO COMO DOMÉSTICA. ERA QUASE TUDO QUE GANHAVA.
NÃO PODIA BRINCAR. “ VAI OLHAR A MENINA”. “ NÃO QUERES QUE TE BATA MAIS? DEVER DE CASA? NEM PERGUNTAVAM. QUANDO DORMIAM, EU FAZIA. NAQUELE TEMPO AS CASAS DEIXAVAM AS LUZES DO QUINTAL ACESAS E EU APROVEITAVA A DOS FUNDOS DO QUINTAL VIZINHO, ESCREVENDO SOBRE O TELHADO, ONDE - COMO JÁ DISSE – SEMPRE CONTEI ESTRELAS.
NÃO SEI ONDE E POR QUÊ? UM DIA – EU DEVIA TER QUASE NOVE ANOS – EU SOUBE QUE A ESCOLA ESTAVA INSCRITA EM CONCURSO DE DESENHO. CERTAMENTE, EU NÃO TINHA CADERNO OU PAPEL ESPECIAL PARA DESENHAR. MAS, DISSE À PROFESSORA QUE FARIA UM DESENHO PARA O CONCURSO E MUITOS DOS MENINOS E MENINAS RIRAM. ESCOLA PÚBLICA , NAQUELE TEMPO, ERA O MELHOR. TODOS IAM ARRUMADOS E PREPARADOS. A EXCEÇÃO ERA EU.
MAS, DE FATO, EU AMAVA DESENHAR. PARA ISSO, EU TIRAVA OS RÓTULOS DAS GRANDES LATAS DE LEITE NINHO, COMPRADAS ÀS DEZENAS E COM OS COTOCOS DE LÁPIS QUE O ÚNICO “AMIGO” COM QUEM FALAVA ME DAVA ( ELE SE CHAMAVA JÚLIO. ERA NEGRO E FAZIA BELAS ARTES, TRABALHANDO, EMBORA DISCRIMINADO, POR SUA COR, COM MÓVEIS PARA MEUS TIOS) .
EU FAZIA DESENHOS DE FLORES E DE ROSTOS, DE CRIANÇAS. ELE DIZIA QUE EU TINHA UM DOM. TUDO EU ESCONDIA NA MALA QUE TROUXERA DA TERRA DE ALÉM-MAR. NÃO SABIAM. NÃO SE INTERESSAVAM. AFINAL, QUEM ERA EU? UM NADA QUE OS INCOMODAVA. ERAM TÃO “BONDOSOS”, FICANDO COMIGO, ENQUANTO MINHA TRABALHAVA. E ELA – POBRE CRIATURA – DE NADA SABIA
FIZ O DESENHO. NÃO FOI O QUE COSTUMAVA. RESOLVI FAZER A “FUNDAÇÃO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO”, QUE ENCONTREI EM UM LIVRO VELHO. ERA UM LIVRO DE HISTÓRIA E, DEPOIS, QUE APRENDI A LER, TER UM PARA LER ERA UMA BÊNÇÃO.
ACABEI GANHANDO O PRIMEIRO PRÊMIO DA ESCOLA INTEIRA( QUE AINDA EXISTE, REFORMADA, COM O MESMO NOME). HAVERIA UMA CERIMÔNIA PARA ENTREGA DO PRÊMIO. MINHA MÃE NÃO TERIA FOLGA . LOGO, NÃO PODERIA VIR. MEUS TIOS LIMITARAM-SE A DAR UMA GARGALHADA E NÃO FORAM.
ALIÁS, NÃO FUI QUEM LHES CONTEI. FOI A MÃE DE UM DOS MEUS COLEGAS QUE TAMBÉM RIA DE MIM. EU NÃO SEI - ATÉ HOJE – COMO MUDEI A MINHA ROTA .DE BICHINHO ARREDIO A UMA PROFESSORA COMUNICATIVA E, DE FATO, COMPETENTE, COMO TAMBÉM UMA EXECUTIVA DE DESTAQUE. NÃO OBSTANTE, TENHA “AFUNDADO” E LEVANTADO VÁRIAS VEZES.
O VENTO AINDA TEIMA EM TRAZER O MESMO SOM ESTRIDENTE DO RISO COM QUE AS PESSOAS QUE “CUIDAVAM” DE MIM REAGIRAM. ERA FRIO, DESPROVIDO DE UMA COMPAIXÃO MÍNIMA PELA MENINA QUE NA FRENTE DELES CHORAVA EM SILÊNCIO PARA NÃO APANHAR.

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Luandro
Enviado por Luandro em 29/10/2017
Reeditado em 03/12/2017
Código do texto: T6156807
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Luandro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
215 textos (12110 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/01/20 07:24)

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