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Oxalá tenha mais!

Quando criança eu tinha o hábito de sentar aos pés dos mais velhos para ouvi-los falar. Mudo, nem piscava... Os deuses da literatura e do acaso colocaram outra vez o casal João e Zilma Coutinho no meu caminho. Não faz muito tempo nos encontramos no Teatro Franco Zampari. O programa Cultura Brasil trouxe Chico César e lá estavam eles nas primeiras filas. Zilma e João são ilustres e invejáveis pais da brilhante jornalista Maria Julia Coutinho, a Maju. Coisas da Arte. Igual a ela. Igual a eles. Com todo respeito. João Raimundo Coutinho é autor do livro Miscelâneas - em prosa e verso. Soube da sua empreitada literária também pelas mãos do acaso, ao encontrar o dr. António Carlos Arruda, ex-presidente do Conselho da Comunidade Negra, a caminho do lançamento na Galeria Olido.

Mas, voltemos. Era quarta-feira. Passei o dia dividido por duvidas. Estudos, fotos, textos, vídeos pendentes e atraído pelas vitrines culturais. Pelo Radiometrópolis ouvi que o Projeto Música Pela Cura, apresentaria concerto beneficente do acordeonista Richard Galliano, na Sala São Paulo. No programa: Bach, Mozart, Piazzolla e homenagem a Sivuca. A versão do Sivuca a Ain’t No Sunshine, sucesso de Michael Jackson, sem menosprezar Isaac Hayes, é convite para dançar samba-rock floreado. O imortal afroportugues Mia Couto (Abelardo Rodrigues, Allan da Rosa, Akins Kintê, Carlos de Assumpção, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Cuti, Débora Garcia, Edimilson Pereira, Éle Semog, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Eustáquio José Rodrigues, Fabio Mandingo, Geni Guimarães, Landê Onawale, Lia Vieira, Marcio Barbosa, Miriam Alves, Oswaldo de Camargo, Sacolinha, Sérgio Ballouk, Sidney de Paula Oliveira, dentre outros, apenas para citar os vivos e próximos, devem estar putos pela politicagem excludente da ABL) autografaria seus recentes livros no SESC Vila Mariana. Pudera ser no Itaquera ou CEU Água Azul! As cantoras Fabiana Cozza e Lenna Bahule fariam leituras de alguns trechos do livro Sombras da água. Casa cheia na certa. Por titubeio ou quem sabe, auto-sabotagem, perdi a palestra do Pepetela, no Festival Tarrafa Literária, ocorrido na unidade santista domingo passado. Seu romance Mayombe está listado na Fuvest. Salvo equivoco penso que devemos também estar atentos a produção literária dos PALOP’s por autores não negros. Conheço Mia Couto através do cinema. Seu romance “O Ultimo Voo do Flamingo” - foi adaptado por João Ribeiro. Quem ainda não assistiu prepare-se para contemplar a estonteante atuação da Adriana Alves. Pelas redes soube que Douglas Belchior estaria no Teatro Oficina. Ele é candidato a vereador. O debate sobre representatividade preta na Câmara Municipal seria mediado pelos respeitáveis mestres Hélio Santos e Osvaldo Faustino. Duas referencias de peso. Será que o Helton Fesan, Sharylaine e outras candidaturas negras tiveram recepções semelhantes do Movimento Negro e simpatizantes a causa? “O Brasil nos deve milhões!”, assim escreveu a ex-vereadora Claudete Alves. É preciso escurecer a política em todas as casas, em todos os níveis, sem cair na fossa...

Mas eu falava dos Coutinho. Se os escritores negros brasileiros se reunissem em peso como nas três edições do “Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros”, juntamente com editores, jornalistas, publicitários e áreas afins, fundariam a Academia Preta de Letras. Autores e livros, e dos bons, não faltam em gênero, numero e grau. Garimpe e encontrará. Não dizem que negro está na moda? Aproveite a ocasião. A veia literária falou tão alto quanto musica e política. Vila Mariana foi o meu destino. Final do evento e dou de cara com eles. Conheci o casal nos idos de 1980 em alguma das memoráveis reuniões da Dona Ana. Não me perguntem o sobrenome dela. Sou péssimo. Eram tempos de Aristocrata Clube, Getplun, Dra. Iracema, Cecan, Adalberto Camargo, Teodosina Ribeiro, e outras entidades e personalidades da elite negra paulistana, que até então eu desconhecia. Coisas de preto periférico, recém-chegado, lá dos cafundós da zona leste. As informações não circulavam como hoje nas redes sociais. Dependíamos do atabaque nagô. Até então ignorava que existiu a Imprensa Negra e a Frente Negra Brasileira, num passado não muito distante. Nem havia lido “O Carro do Êxito” ou “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, dentre outros. Fanon e Stuart Hall talvez expliquem. Conversamos rapidamente, rasgamos algumas sedas, eu estava apertado por uma necessidade pessoal e intransferível. Despedimos-nos.

A fila quilométrica para aquisição das obras do Mia Couto chamou a atenção. A disposição dos livros idem. O que a mídia e o marketing não fazem? Na próxima segunda-feira a cidade terá alguém eleito por conteúdo ou pela propaganda? Pensei com os meus botões, lembrando Oliviero Toscani: “A publicidade é um cadáver que nos sorri. Observei os preços. Não estavam salgados e aceitavam todos os cartões”. Numa próxima, quem sabe, eu compro. Ou espero chegar às bibliotecas públicas e da própria rede. Em casa tem uma leva de livros órfãos de leitura...

Estava no ponto do ônibus pensando em quando nos conhecemos, tentando lembrar passagens do tempo em que nossos caminhos se bifurcaram e por acaso nos reencontramos há uns três anos atrás no saguão do Centro Cultural Banco do Brasil, olho para o outro lado da rua e os vejo novamente! Vai para o metrô? Acenei positivo. Nós também. Conclui que fariam o percurso a pé. O trajeto não é longo. Apenas um pouco íngreme e fora de mão. Aliás, eu gostaria de saber o porquê de SESC Vila Mariana se ele fica na região da Ana Rosa? Curiosidades à parte, se um casal septuagenário está se dispondo a caminhar mesmo à noite, quem sou eu com os meus saudáveis sessenta para não fazer coro?

Na esquina de uma rua, cujo nome não reparei, havia um café. Decidiram comer algo e me convidaram. Mirei o relógio. Recusar soaria desfeita. Os mineiros, por exemplo, movidos à fartura, são assim. Ofendem-se quando não aceitamos partilhar a mesa com eles. Conversamos sobre literatura e educação; a forma como os moçambicanos optaram lidar com a memória escravocrata; histórias e reflexos da escravidão; apagamentos e resquícios coloniais; religiosidades no movimento negro. Ele me falou de negros judeus; confidenciei meu espanto a primeira vez que vi um iaô japonês no candomblé e quando conheci uma família negra budista. Cultura é movimento, não algo estanque. Eu e minhas filosofias baratas. Desfiei algumas inquietações sobre as versões da colonização. Existem pontos ocultos nesse novelo histórico de África violada. Temos tese deles e antítese nossa. Falta a síntese. Tipo o conceito de verdade segundo um provérbio nigeriano. João defendeu que os colonizadores se aproveitaram das divergências tribais. Argumentei que o ser humano é divergente em qualquer etnia. As dissensões começam pelas nossas famílias. Talvez eu tenha sido grosseiro com esta afirmação. Mãe e família para muitos é campo sagrado...

A Zilma indagou minha posição no cenário político atual? Falei sobre as candidaturas negras, em quem e porque iria votar, dentre outros assuntos. Na opinião deles, sem desmerecer a academia, pessoas que saibam ler, escrever, se expressar bem e tenham noções básicas de Humanas e Exatas podem ir longe. A Maria Júlia vai lançar um livro em novembro, informaram. O casal está se preparando para ir a Cabo Verde em breve. Para tanto estão estudando história e costumes do país. Sugeri procurarem o Saddo e a Vanderli. Ambos têm contatos com grupos africanos e mais propriedade no assunto. Disseram que a mala vai cheia. Pretendem trocar livros de autores brasileiros por autores caboverdianos. Comentei com eles uma lista com vinte e sete títulos da “Coleção Autores Africanos”, da Ática, perdida no meu email e me dispus a compartilhar uma cópia quando encontrar. A Nova Fronteira foi pioneira neste segmento com a “Coleção Romances da África”. Dela resultaram: O limão; O sol das independências; O velho negro e a medalha; Um fuzil na mão e um poema no bolso. Há quem advogue seis títulos. Desconheço os outros dois.
O resumo da ópera é que a conversa iniciada no SESC retomou e se estendeu do café até o metrô Sé, onde voltamos a falar sobre seu livro Miscelâneas. O zelo atento do João para com a Zilma durante todo o trajeto foi poético. O carinho entre eles soou digno de romance seguido de roteiro. Como é o amor, seus humores e sabores aos setenta? Suponho ser bem diferente da juventude. Lá no café, o João perguntou se eu era casado? Já fui. Tem filhos? Sim... Milagre não especularem. Talvez declamaria Valter Franco: “Feito Gente”. Só sentimento não basta. Casamento é empresa constante que exige dinheiro, plano de negócios, habilidades, competências... Talento e dotes que não levo jeito. Eles foram para Santa Cecília e eu vim para a Cidade Tiradentes.

A prosa com o casal Coutinho foi tão proveitosa quanto falar de política e música, a ponto não só de me deixar embriagado pela lucidez, disposição e ponto de vista deles, como de esquecer algo que sempre faço quando estou à mesa com alguém: fotografar. A última vez que me vi assim foi há quase uma década, quando conheci pessoalmente e tive a oportunidade de conversar com o cronista e economista moçambicano Antonio Matabele, durante a sua breve passagem pelo Brasil, num restaurante do aeroporto de Guarulhos. Segundo ele, o que empedra o avanço da unidade africana é o tribalismo. Um assunto milenar. Quando tu fores ao meu país, explico-te melhor. Acho que me senti aquele menino fascinado pelas aulas aos pés dos antigos, outra vez. Oxalá tenha mais!

Oubí Inaê Kibuko, Cidade Tiradentes, 01 de outubro de 2016.



OUBÍ INAÊ KIBUKO
Enviado por OUBÍ INAÊ KIBUKO em 02/10/2016
Reeditado em 06/10/2016
Código do texto: T5778972
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
OUBÍ INAÊ KIBUKO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 63 anos
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OUBÍ INAÊ KIBUKO