"A criança que fui chora na estrada."
“A criança que fui chora na estrada.” Esse esplêndido verso do grande Fernando Pessoa não se aplica a mim ou a uma só pessoa na sociedade em que vivemos ( ou, talvez, a tudo). Confiando no Senhor, sempre consigo levantar e preparo-me diariamente, conduzida em voos- sonhos , levada pelas mãos dEle. Muitas vezes caio. Vacilo. Mas, creio que tenho asas e continuo. Sempre revigoro as forças que não tenho.
Impossível, entretanto, é não reparar ou olhar sem ver os que passam por mim, não obstante a indiferença geral. Bem sei que nada sou, porém, nas calçadas do destino, há outros que merecem mais atenção, principalmente sob o sol beirando a sensação térmica de 50 graus.
Passa por mim um velhinho (bem mais do que eu), cheio de papelão, entretanto limpo. Extremamente magro. Entra em uma casa que vende pastéis e produtos semelhantes, bem características do Rio e pede algo para beber. O meu coração bateu forte, ao ver aquele homem pedir tão pouco. Sua pele de tão ressecada, até nas costas, já se encolhia, estranhamente. Eu também estava com sede, todavia poderia entrar e pedir uma água mineral. Porém, à minha frente estava a triste realidade do flagelo social (o descaso): uma pessoa, apelando a outra por algo a que todos têm direito. Não conseguiu. Também não respondeu. Foi-se diante de mim.
Apressei o passo como pude, com a muleta que uso e a visão deficiente, esbarrando em pessoas que, em suas vidas, vivem o presente, com seus sorrisos alheios a tudo. Nós devemos sorrir, ser alegres. Contudo, deve animar-nos um pouco de misericórdia, para transmitir ao outro que não está só.Que somos todos iguais. Um dia, retornaremos à essência.
Eu bem sei que palavras podem suscitar felicidade ou tristeza. Podem ajudar ou prejudicar. Assim, pedindo a Deus humildade, dirigi-me àquele senhor.
- Qual é o seu nome? Ele respondeu, no entanto vou omitir, pois ele não sabe que estou escrevendo sobre ele. Disse-me onde morava. Tirou de uma sacola plástica uma camisa de manga comprida branca e explicou que uma briga familiar com os filhos e o irmão, o fizeram estar na rua há semana. Não havia odor de bebida. Ao falar, olhava-me como uma criança velha ou velha criança. Seus dentes mostravam que tinha tido uma estrada. Pude ver um ponto de luz naqueles olhos opacos. Limitei-me a responder com monossílabos, para não mentir ou enganar a quem a vida já ensinou tanto. Orientei-o a instituições que abrigam. Algumas ele já conhecia. Em momento algum pediu dinheiro. Mas, coube a mim a iniciativa, de perguntar-lhe se estava com sede e fome. A resposta veio em forma de lágrimas.
Aproximei-me de uma lanchonete (ainda existem...) e . de pronto, entendi que ele não podia entrar. Comprei a refeição e a bebida. Com dificuldade, ele procurou uma sombra, na rua sem árvores e, ali, depositou seus bens: os papelões. Antes, porém, perguntou-me se eu tinha pedido guardanapos... Só isso diz o que não sei transmitir em palavras. Começou a alimentar-se e despedi-me , com uma vontade imensa de chorar pela dolorosa condição das duas pontas sociais: crianças e velhos.
Que Deus guie aquele homem por uma senda segura, que ele não esqueça o que é, tampouco o que foi. Que recupere, em breve, um teto. Que a voz da fraternidade lave a discórdia e alimente a bondade.
Cura, Senhor, aqueles a quem não posso ajudar. Perdoa-me, por vezes, de pensar, apenas, na minha tribulação.




 
Luandro
Enviado por Luandro em 26/02/2015
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