Reminiscência de um hospital (Parte 2)

Eu tinha sofrido um volvo intestinal, o famoso nó nas tripas, e fora submetido a uma colostomia, sendo extraídos 80 cm de meus intestinos e, durante os próximos 3 ou 4 meses, eu precisaria aprender a conviver com aquela limitação. Meu ânus estava na minha barriga. Não havia controle. As fezes saiam a qualquer hora, sem aviso. E precisavam ser retiradas da bolsa periodicamente pois, o conteúdo da mesma era limitado. Em síntese, eu não teria mais liberdade, para sair para onde eu quisesse, na hora que quisesse, durante o tempo que desejasse pois, estava preso àquela bolsa no meu corpo. Não era a bolsa que estava presa ao meu corpo. Era eu, quem estava preso a ela. E logo descobri também, que a cada 3 ou 4 dias, precisava trocar a bolsa, o que envolvia uma série de procedimentos minuciosos que precisaria aprender.

A bolsa, quando cheia, devia ser esvaziada e, para isto, era necessário um certo aparato. No mínimo uma torneirinha para lavar por dentro a bolsa e não ficar fezes do lado de fora da mesma, sujando a roupa e com mal cheiro, papel para enxugar a bolsa após lavada, uma cadeira ou banco dentro do banheiro para sentar, facilitando assim a lavagem da bolsa, além do cuidado para não me sujar quando fosse esvaziá-la.

Uma coisa boa de tudo isso foi a amizade com a médica que me operou naquela noite – Dra. Amélia Teixeira, uma pessoa especial, maravilhosa, competentíssima, que tornou-se uma pessoa muito querida.

Disse-me ela, depois de tudo terminado, que meu intestino estava para explodir com as fezes presas dentro sem poderem ser expelidas. E que, durante a cirurgia, ela havia lavado tudo com mais de 7 litros de soro, pois, assim que ela abriu, as fezes foram sujar todo o meu organismo e foi necessário tirar tudo e lavar.

A primeira bolsa para trocar após a saída do hospital foi comprada, mas, era muito cara! Quase cinquenta reais cada uma. Havia um programa do Governo Federal, no qual me inscrevi na semana seguinte, que distribuía, gratuitamente, uma caixa de bolsas com dez e que podia ser renovada a cada 30 dias.

Quatro meses se passaram com muitas dificuldades. Foi marcada uma nova cirurgia no mesmo hospital só que, dessa vez, não mais de emergência. Era uma cirurgia eletiva em que ia ser reconstituído o trato intestinal e retirada do meu corpo aquela bolsa que tanto me limitava. E muita gente falava que quando alguém fazia uma cirurgia abrindo o abdome era comum ter depois aderência, ou seja, os órgãos internos ficarem colados na pele por falta da lubrificação natural que, após aberto o abdome, essa lubrificação era perdida. E se isso acontecesse, seria necessária nova cirurgia. A reconstituição foi feita, e eu estava de volta à vida normal. Mas antes, meu intestino precisava voltar a funcionar. Cheguei no quarto, de volta da sala de cirurgia com uma sonda nasal e outra na uretra, sendo elas tiradas no dia seguinte. Primeiro eu precisava ir no banheiro pra urinar. Era difícil. Meu corpo não obedecia ao meu comando. E o medo do ardor era maior que a necessidade de eliminar a urina. Foram 3 ou 4 tentativas inúteis. Eu não conseguia. Disseram-me então: se você não conseguir vai ter que colocar novamente a sonda. Foi quando resolvi que precisava fazer aquilo, por mais dor que viesse a sentir, por mais dificuldade que estivesse a ter. E fui ao banheiro novamente. Desta vez, a urina veio e passou pela uretra. A princípio apenas um pequeno filete. Depois jorrava um jato forte e volumoso. A primeira etapa tinha sido vencida. Ainda faltava fazer cocô. Mas a minha dieta nos dois primeiros dias era zero. Nem água eu bebia. Só soro e medicação. No terceiro dia pude beber água e tomar líquidos. Sopa, chá, leite, sucos, água de coco. Dois ou três dias depois, podia comer alimentos pastosos como iogurte, papa, purê. Depois veio a comida sólida. E eu finalmente fora ao banheiro evacuar.

Após mais de 12 dias internado, finalmente recebera alta para ir pra casa.

O mais desagradável de tudo é as dezenas de furadas que você é obrigado a sofrer para a introdução do soro e dos medicamentos em suas veias. Algumas vezes eram 4, 5, 6 furadas num só dia. Eu ficava orando para que aquela enfermeira conseguisse acertar a minha veia logo na primeira furada ou que a veia não fosse perdida após algumas horas de ministração do soro.

E outra coisa que merece registro é a obrigação de caminhar, no mínimo meia hora a cada 12 horas pois, sem caminhar, o intestino não é ativado, daí a imperiosa necessidade de fazê-lo. Parece simples não? Ledo engano. Com o caminhar, está associado também, o carregar o soro levantado o mais alto que puder ou, carregar o suporte do soro suspenso no ar pois as rodinhas dificilmente funcionam.

CONTINUA>>>

Alberto Valença Lima
Enviado por Alberto Valença Lima em 01/03/2014
Reeditado em 17/03/2014
Código do texto: T4711738
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