A QUEDA DAS FOLHAS

A QUEDA DAS FOLHAS 112.005

Por quê um vizinho se desentende com outro?

Porque existe disputa por algo que não se resolveu pelo diálogo - seria esta uma resposta.

Faltam detalhes na resposta - diria aquele que gosta de explicações minuciosas.

Será que não faltam, antes, elementos para uma pergunta mais bem elaborada?

Ninguém ignora que a perguntas bem construidas correspondem respostas de mesma natureza, ou seja, estas procurarão esclarecer bem àquele que, de modo apropriado, soube bem colocá-la, em primeira instância.

Aquela resposta, de aparência genérica, não estaria sendo suficientemente abrangente? Talvez sim, mas seria preciso "abrir" o raciocínio para compreendê-la bem.

Das quatro palavras chaves (disputa - algo- resolver -diálogo) que compõem as resposta, três trazem consigo entendimentos fáceis; apenas algo guarda certa indefinição. Assim, torna-se estranho, possivelmente bizarro, disputar o indefinido.

Todavia, o desentendimento entre vizinhos tem um ou mais motivos não tão tão difíceis de interpretar, certamente.

Tome-se um deles: folhas de árvore do outro quintal que caem no seu quintal, as quais o seu vizinho julga não ser preciso removê-las, pois o vento é que as carregou. Você se incomoda, solicita-lhe que tome providências, mas nada acontece. Novos pedidos e nada continua acontecendo: apenas mais folhas. Sua paciência, então, lentamente, vai se esgotando e, num belo dia, você se aborrece em definitivo, junta todas aquelas folhas secas, recolhe-as num balde e devolve-as, por cima do muro, ao quintal de onde entendeu que nunca deveriam ter saido: afinal, a árvore é dele, ele que limpe!

Sem dúvida nenhuma, já está instalado um ambiente hostil, de maior ou menor intensidde, mas hostil, e que dificulta o entendimento entre as partes.

Esta situação descrita dá a entender que o dono da árvore, descuidando das folhas que voavam ao quintal do vizinho, tem tudo para ser o responsável por uma briga que venha acontencer entre ambos os vizinhos.

Pode-se pensar numa solução conciliadora: erguer uma tela de malha fina sobre o muro. Mas quem compraria a tela e pagaria por sua colocação? Ambos, o dono da árvore, seu vizinho? Ninguém? Este é o candidato, já que os ambos os vizinhos enxergaram, sob suas óticas, que as folhas caem naturalmente da árvore e que o vento, fenômeno da natureza, é que as carrega. Daí o estapafúrdio: folhas vão, baldes de folhas vêm... E até hoje, não se conversam mais!

Do outro lado, a questão é outra: as árvores e as folhas caíram há milênios, mas o vizinho, que não está tão próximo, se incomodou porque só haveriam de ter caído no quintal que não era o seu!

A coisa ficou tão preta que ambos resolveram estabelecer um nova divisão de folhas a pedradas!

O resultado, invariável, aí está: o vizinho mais corpulento à procura, tresloucada, do seu oponente para acertar as contas, mas não sem antes ter tomado conta daquele quintal alheio!

Bem... De vizinhos que se perturbam com as folhas que só caem no meu quintal que eu quero é distância!

Sorocaba, aos vinte e cinco dias de janeiro de 2013.