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OLHOS MANSOS QUE ACARICIAM DO INIFINITO


APENAS UMA CASINHA NO ALTO DA SERRA. PARECIA TÃO PEQUENINA. PRINCIPALMENTE À NOITE, QUANDO AS ESTRELAS OFUSCAVAM A FRACA ILUMINAÇÃO DAQUELE TEMPO. NO ENTANTO, ERA SEMPRE UM PONTO DE LUZ EM MEIO AO VERDE, OU MELHOR, PARECIA QUE OS PINHEIROS E AS OUTRAS ÁRVORES A ABRAÇAVAM E TINHAM PRAZER EM TÊ-LA ALI.
CLARO QUE ISSO ERA A MINHA IMAGINAÇÃO – UMA GAROTA DE CINCO ANOS - NO CANTO DA GRANDE VARANDA DA MINHA CASA DE PEDRA. IA PARA LÁ E, POR HORAS, CONTEMPLAVA AQUELE PONTO QUE, HOJE, MISTURA-SE A TANTOS SONHOS, COMO SE AQUELA PEQUENA MORADA FOSSE O SÍMBOLO-MAIOR  PARA ALCANÇAR A FELICIDADE. PARA MIM, ELA DEVIA SER LINDA, CERCADA DE FLORES DE TODOS OS TIPOS E CORES. CERTAMENTE ALGUMAS DEVERIAM SUBIR ATÉ SUAS JANELAS E PERFUMAVAM O AMBIENTE QUE, DURANTE O DIA, E, À NOITE, ERA QUENTINHO, ACOLHEDOR , MESMO QUE A NEVE COBRISSE DE BRANCO A TUDO LÁ FORA.
COMO CRIANÇA, EU SONHAVA EM CONHECER AQUELE RECANTO, PARA MIM TÃO DISTANTE. UM DIA, SOZINHA EM CASA, POIS MINHA MÃE TRABALHAVA DE SOL A SOL PARA VIRMOS PARA O BRASIL PORQUE EU JÁ PERDERA MEU PAI, COLOQUEI MINHA CAPUCHA (UM PEÇA DO VESTUÁRIO DO POVO DE LUGAREJOS DO NORTE DO MEU PAÍS E TAMBÉM LIGADA À ORDEM DE SÃO FRANCISCO), E TUDO MAIS QUE ME PUDESSE AQUECER EM UM DIA DE NEVE. FUI EMBORA.
FUGI DE CASA, À PROCURA DE OUTRA CASA. MINHA MENTE POVOADA DAS HISTÓRIAS DE MEU PAI. REALIDADE E FANTASIA. ESSE ERA O MEU MUNDO.
NINGUÉM SABIA QUE EU NAMORAVA AQUELE LUGAR. ERA O MEU SEGREDO.
ALÉM DISSO, COLOQUEI UM FARNEL – LANCHE – NO BOLSO DO AVENTAL E COM UM PEDAÇO DE ÁRVORE, SERVINDO COMO CAJADO, LÁ FUI: UM PINGO DE GENTE À PROCURA DE UMA CASA QUE PENSARA SER O PARAÍSO.
ANDEI... ANDEI. AS HORAS PASSARAM. OS ATALHOS, OS CAMINHOS E AS TRILHAS SUCEDIAM-SE, CREIO QUE ERA GUIADA SÓ POR DEUS, VISTO QUE MAL ENXERGAVA, JÁ QUE A FLORESTA ERA FECHADA. DE VEZ EM QUANDO EU SENTIA RUÍDOS ESTRANHOS. ENCOLHIA-ME. PARAVA. MAS, LOGO PROSSEGUIA. EU SÓ PENSAVA EM CHEGAR ÀQUELA CASA, O QUE, PARA MIM , PARECIA FÁCIL.
QUANTO  MAIS A TARDE CAÍA, MAIS CANSADA EU FICAVA. O FARNEL JÁ TINHA ACABADO. A ÁGUA TAMBÉM. PORÉM, EU NÃO QUERIA DESISTIR. AO LONGE, PARECIA QUE PESSOAS GRITAVAM MEU NOME. E EU CADA VEZ MAIS ME AFASTAVA. MENINA MOLECA.
REPENTINAMENTE, VI-ME FRENTE A FRENTE COM A CASA. SÓ QUE NÃO HAVIA LUZ ACESA. TUDO ÀS ESCURAS. QUIS VIRAR AS COSTAS E VOLTAR. ESTAVA, ENTRETANTO, TÃO CANSADA QUE SENTEI A UM CANTINHO NO MEIO DO NADA. ESTAVA COLHENDO A DECEPÇÃO DO NADA QUE ENCONTRARA (E TANTAS VEZES ENCONTREI E AINDA ENCONTRO PELA VIDA). PORÉM, FIQUEI LÁ, ENCOLHIDA EM UM CANTINHO.
A NEVE CAIA, FORTE, E EU SOZINHA, EXPOSTA AO PERIGO DE UMA NOITE PERDIDA NA FLORESTA.
MAS, DE UM MOMENTO PARA O OUTRO, TUDO MUDOU. UMA VOZ CÁLIDA E MACIA ME CHAMOU E PEDIU QUE EU ENTRASSE. E UM MUNDO INCRÍVEL EU PUDE VER EUM SÓ LUGAR.
MEU DEUS! EU ESTAVA DENTRO DA CASA. LINDA! TUDO MUITO LIMPO! UM CHEIRO DE PÃO SAIDO DO FORNO E UMA SOPA QUENTINHA AO LUME (AINDA ERA UMA LAREIRA). O PERFUME DAS FLORES... 
E CONTINUOU: “VOU COLOCAR UM OUTRO PRATO À MESA. AFINAL, ESTOU SOZINHA. PELO QUE LEMBRO, ERA SENHORA DE CABELO COMO A NEVE.
ASSIM FIZ. COMO ESTAVA GOSTOSA AQUELA SOPA – QUE LÁ ERA CHAMADA DE CALDO. O PÃO DELICIOSO. E A SENHORA, À MINHA FRENTE SÓ ME OLHAVA. PARECE QUE DE OUTRA DIMENSÃO. SEUS OLHOS ERAM TÃO MANSOS QUE PARECIAM, DE MODO SURPREENDENTE, ACARICIAR-ME DO INFINITO.
“PRECISAS TE ALIMENTAR, PEQUENA. DEPOIS, VAIS DESCANSAR”. PODIA VER-SE UMA PORTA MEIO ABERTA E UMA CAMINHA À MINHA ESPERA.
"FOI BOM QUE VIESSES AQUI. ESTA CASA TAMBÉM É TUA. VIVES EM UMA ENORME CASA, MAS AGORA ESTÁ POVOADA PELA TRISTEZA E NINGUÉM TEM TEMPO PAR A TI." ASSIM FALOU  E CONTINUAVA A FITAR-ME, COMO ENEBRIADA.
QUANDO ME VIAS, AO LONGE EU TE ACENAVA, MAS NÃO PODIAS VER-ME. EU TE QUERO TANTO BEM. A ESSA ALTURA, EU ESTAVA NO COLO DELA QUASE DORMINDO E ELA ME DEU PARA ABRAÇAR UMA BONECA DE PANO QUE EU NUNCA MAIS LARGUEI. ALIÁS, FOI A ÚNICA QUE TIVE NA VIDA.
EU SOU A TUA AVÓ MATERNA, MARIA DOS ANJOS. EU VIM PARA OUTRO LUGAR MUITO CEDO. DEIXEI SETE FILHOS QUE TUA MÃE, COM POUCO MAIS DE TREZE ANOS CRIOU - ERA IRMÃO QUE TORNOU A MÃE, SOB AS SURRAS DE TEU AVÔ E, APESAR DISSO, ELA SE TORNOU TÃO BELA.
NÃO ME CONHECESTE. NÃO CONHECESTE AVÓ ALGUMA. MAS ESTA CASA, ESTARÁ SEMPRE EM TEUS SONHOS. NO TEU CORAÇAO,  SERÁ O TEU RECANTO ÚNICO. UM DIA VOLTARÁS E EU TE ACOLHEREI DE NOVO. POR ENQUANTO, VAIS AJUDAR TUA MÃE,  ATRAVESSAR I GRANDE MAR  - ASSIM CHAMAVAM O ATLÂNTICO -NUMA VIDA CHEIA DE ESPINHOS.
QUERIDA MENINA, A TUA  NÃO SERA FÁCIL – JÁ DORMES E NÃO ESCUTAS – NÃO ESQUEÇAS, CONTUDO, QUE, UM DIA, VOLTARÁS A REPOUSAR AQUI EM MEU COLO, TUA ETERNA CASA.
ACORDEI, AO OUTRO DIA, NOS BRAÇOS DE MINHA MÃE. ELA, MEU IRMÃO E MUITAS OUTRAS PESSOAS, PROCURAM-ME A NOITE INTEIRA. EXAUSTA, QUERIA BRIGAR COMIGO, MAS AS LÁGRIMAS NÃO DEIXAVAM E SÓ ME APERTAVA ENTRE OS BRAÇOS.
EU NÃO SEI – ATÉ HOJE - DIZER O QUE ACONTECEU... MAS EU ESTIVE NAQUELA CASA, EMBORA MINHA MÃE DISSESSE QUE ELA ERA APENAS UM MONTE DE ESCOMBROS.
MINHA MÃE SÓ NÃO ENTENDIA QUEM ME TERIA DADO A BONECA DE PANO, JÁ QUE EU NÃO TINHA NENHUMA E NINGUÉM  ME ENCONTRARA, SEGUNDO ELA.

 
Luandro
Enviado por Luandro em 04/10/2017
Reeditado em 02/11/2017
Código do texto: T6132974
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Luandro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
215 textos (12110 leituras)
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