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O Homem Invisível

Ei! Vocês podem me ver? Não? Não me admira que não consigam. Sabem por quê? Eu sou o homem invisível. Tá legal. Eu sei o que estão pensando. Muitos diriam que é loucura, diriam até que é caso de internação compulsória, mas é verdade o que estou lhes dizendo. Juro pra vocês. Espera! Vocês ao menos podem ouvir o que digo, né? Oh céus! A coisa está só piorando. Os meus gritos não fazem mais eco no espaço. Este silêncio é ensurdecedor. Até parece que eu não existo mais... Mas, eu existo sim! Estou bem aqui! E vou provar! De algum jeito...

Eu não escolhi nascer assim. Na verdade, quase todos da minha família são invisíveis. O meu pai, a minha mãe, meus 5 irmãos... São todos iguais a mim. Quer dizer, na verdade sou eu quem é igual a eles. E acreditem! Nós não somos os únicos seres invisíveis nesse lugar. De onde vim, todos são assim. Estamos lá, mas ninguém nos vê. Às vezes passamos batido entre nós mesmos, e mal nos damos conta. Não sei dizer quando foi que essa infecção começou, mas pelo que ouvi de meus pais e também de meus avôs, as coisas sempre foram desse jeito, desde que eles se viam por gente.

Digo que é uma “infecção”, por que, por algum motivo que eu nunca entendi, apesar de não sermos vistos por ninguém, a maioria das pessoas nos teme e nos evita. Sei lá... É estranho. Vai ver que é contagioso. Na verdade, ninguém gosta muito de falar sobre isso. Nem os “sãos” e nem os afetados pela “doença”. Todos sabem da nossa existência, mas poucos estão interessados em nos curar, entender ou no mínimo aceitar o que somos. Não escolhemos nascer com esta maldição. Mas, uma vez com ela, é quase impossível reverter o processo. Os poucos que conseguiram, no entanto, aparecem estampados nas capas de jornais, sendo tratados como verdadeiros heróis...

Todo mundo aqui já sonhou em ser algum tipo de Super-Herói quando era criança - alguns devem sonhar até hoje. Mas, podem acreditar meus amigos “sãos”, quando digo que ser invisível é a pior coisa que existe. Imaginem só, vocês precisarem de um simples atendimento médico, mas nenhum funcionário ser capaz de te enxergar? Imagine que absurdo seria você passar mal na rua, mas nenhuma pessoa parar para te socorrer? Pois é. Já aconteceu com a minha avó. Sorte a dela que um indivíduo muito especial, com uma visão de raio X ou sei lá, conseguiu desconectar o rosto do celular e solicitou uma ambulância. Sabem como é, é como diz aquele ditado: O que os olhos não veem o coração não sente.

Contudo existe um momento mágico, de quatro em quatro anos, onde temporariamente todos nós adquirimos tangibilidade. Entidades aparentemente dotadas de poderes ilimitados, com a capacidade extraordinária de atender qualquer desejo, e de realizar qualquer demanda, se dirigem a nós, diretamente, como se estivessem olhando no fundo de nossos olhos. A sinceridade desses Seres é tamanha, que muitos de nós acreditamos que estamos sendo realmente vistos por alguém, caindo assim, em sua armadilha ardilosa.

Eu demorei muito tempo para compreender que o verdadeiro poder, aquele que seria capaz de reverter a nossa invisibilidade e nos tornar iguais aos outros, estava bem em nossas mãos. Sem a nossa permissão, submissão passiva, nenhuma criatura poderia nos rebaixar ou selar o nosso destino por debaixo de suas ambições desenfreadas. A retumbância de um “Não” bem dado por todos nós, em uníssono, anularia os efeitos do encantamento perverso que lançaram sobre nós, nos fazendo acreditar que não éramos ninguém, ou que não deveríamos estar ali. Desse modo, a verdadeira infecção, o câncer maligno que nos assola a várias gerações seria, enfim, expurgada, trazendo a nossa identidade e valores de volta.

Assim eu pensava até me aperceber de um fato deveras inconveniente: Os candidatos ao Poder não chegavam lá sozinhos. Havia uma massa de pessoas que os apoiava. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os próprios homens e mulheres invisíveis defendiam direta e indiretamente aquele sistema? Se havia uma infecção que nos assolava, essa era é de ignorância. Foi um amigo meu quem me abriu os olhos. Ele me disse que podia ver perfeitamente todos os seres invisíveis, sem exceção. A princípio, comecei a rir e achei que era brincadeira. Mas, aí, decidi perguntar, em tom de zoeira, como é que ele conseguia? Tinha alguma visão de Raio X? “Não, nada disso” ele respondeu. “Você também pode ver, não é?” retorquiu. Eu disse que sim, mas não sabia como. Daí ele me entregou o segredo da invisibilidade de toda a nação. “É simples, meu amigo. Qualquer um é capaz de ver um homem ou mulher invisível. Basta abrir os olhos”.

Tão claro quanto água do mar. Reverter uma invisibilidade generalizada, seria fácil. Era só questão de tempo para encontrarem uma cura. Mas, o que fazer diante de uma cegueira consciente? Como mostrar algo, se não querem ver? Como falar, se a todo tempo tampam os seus ouvidos com fones e filtros de percepção? Meu Deus... Como eu queria ser invisível...
Arthurx
Enviado por Arthurx em 07/07/2019
Reeditado em 20/07/2019
Código do texto: T6690324
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Arthurx
São Paulo - São Paulo - Brasil, 24 anos
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