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EU, DEUS E A MOSCA

                                                           

               Parece mentira, mas é verdade. Porém, uma verdade mal contada, sempre parecerá mentira, por mais idônea que seja a pessoa.  Assim como acontece como certas mentiras, tão bem contadas que parecem a mais absoluta verdade.
               A mentira, digo, a história que eu vou contar, parte do pressuposto que toda a mentira tem um fundo de verdade e não existe verdade absoluta, pois, sem uma pequena dose de mentira, a história não teria a menor graça.
          A que eu pretendo contar agora, mesmo que eu jure que é verdade, tenho certeza que você não vai acreditar. Nada pessoal. É que até hoje ninguém jamais acreditou, portanto, não ficarei ofendido caso você não acredite.
                 Aconteceu num fim de tarde de sábado, disso eu me lembro bem, pois era aos sábados que eu saia com a minha namorada e me era permitido uma esticadinha mais longa.
                  Os melhores bailes aconteciam aos sábados. Uma boa oportunidade para a gente nova se divertir e paquerar. Naquela época a gente paquerava antes de ficar. Obs. Hoje é que é legal.
              Enquanto eu me banhava, desfiava no banheiro o meu vasto repertório, das mais românticas canções, jovem e velha guarda.
             Banho tomado, barba bem feita...Não era romântico arranhar o rosto da “gata” com a cara mal escanhoada. Só faltava para completar a toalete, a loção pós banho, Presente da dita namorada, que eu adorava, a dita e a loção.
             Já antevendo, (ou seria antessentindo?) o prazer refrescante por todo o corpo. Cantava e sonhava…sonhava e cantava....
          Abri o frasco de loção com delicadeza, quase um ritual, e fui despejando na mão direita doses homeopáticas, para economizar... E foi nesse momento, que surgindo, não sei como nem de onde, uma mosca zunzunando em volta de mim, parecia que ia pousar no meu rosto.             Acho que foi por instinto que eu dei um tapa na direção dela, e por azar ou sorte, acertei de primeira; depois fiquei olhando para o chão, para ver onde ela havia caído. Não achei.
         É aí que surge o inusitado. Incrível!! Fantástico! Do cacete! Você não vai acreditar, mas o diabo da mosca, caiu exatamente dentro do vidro de loção. Aposto que você está rindo de mim.
            O jeito foi. Virar o frasco de cabeça para baixo, até a mosca, morta naturalmente, se localizar perto do gargalo. Depois deixar derramar um pouco da loção e a mosca foi junto. Não usei mais a loção, mas deixei no armário do banheiro para o folgado do meu irmão usar; quando acabou eu contei para ele o caso da mosca, ele riu muito, mas não acreditou. Nunca mais contei pra ninguém.
           Anos depois. Talvez uns vinte ou mais. Eu estava explorando uma cantina, que ficava no pátio de uma faculdade de engenharia.
          O negócio ia muito bem, apesar de trabalhar das sete da manhã as dez da noite, eu estava ganhando dinheiro e perdendo a saúde.
          Fui aos poucos construindo uma camaradagem com os clientes, alunos, na sua maioria. E uma amizade mais chegada com um dos alunos, já quase no fim do curso.
        Gilberto era um cara para lá de engraçado e uma figura humana da melhor qualidade. ´Só não digo o seu sobrenome, porque ele era o único parente pobre de uma família muito conhecida e abastada.
           É aí que começa a segunda parte da história, da mosca. Tá lembrado?
            Acho que foi numa sexta feira, já quase na hora de fechar as portas, enquanto atendia os últimos clientes, fiquei conversando fiado com o meu amigo Gilberto, que era o único que podia comer fiado, só porque era meu amigo.
          Me contava um caso meio besta de um acidente, que acabou com o carro, mas o motorista nada sofreu. Meu amigo não era um mal narrador, mas, a história não tinha nada de interessante. Ele ainda tentou reforçar com a frase famosa: Parece mentira, mas é verdade.
            E foi aí que eu cometi a besteira de contar para ele a história da mosca no vidro de loção. Foi muita inocência da minha parte, achar que ele iria acreditar.
             Ele não só, não acreditou, como ficou rindo e me sacaneando.  Riu, mas riu tanto que perdeu o fôlego. Os outros fregueses correram curiosos para saber qual era a piada. Aproveitei que Gilberto nem estava podendo falar de tanto rir, e contei a história para os outros. Mas dizendo que foi ele, o Gilberto, que estava me contando aquela mentira deslavava. O coitado nem conseguiu me desmentir e na mesma hora ganhou o apelido de Gilberto Mosca e a história se espalhou, mas isso não abalou a nossa amizade e ele por vingança, também me chamava de mosca.
           Tempos depois. Eu estava saindo do estacionamento da faculdade, dando uma carona para o meu camarada Gilberto, quando um aluno nos viu e aproveitou para dar uma sacaneada: Aí Beto! Leva o nosso amigo Mosca com cuidado, que a gente gosta muito dele.  Fiquei sério, pelo menos até pegar a pista.  Meu amigo me olhava, meio indignado, meio divertido e foi logo abrindo o verbo:   - Mas você é mesmo um bom filho da puta. Inventou a mentira da mosca, e eu que fiquei com o apelido.
       - Mas isso tem um lado positivo: Reforçou a nossa fé em Deus.
    - E onde é que Deus entra nessa história?
Veja bem. Por meu lado, só tenho ELE como testemunha que a história é verdadeira. Pelo seu lado, só ELE pode ser testemunha que não foi você quem contou, mentira ou verdade, é irrelevante. Percebeu?
      -Não podemos jamais perder a fé.   E eu não vou confessar jamais.  Só DEUS meu amigo, só DEUS!!!
Meu amigo enfim se formou engenheiro, eu larguei a cantina e fui tentar outra coisa em São Paulo.
Nunca mais vi o meu camarada Gilberto. Será que ele já se livrou do apelido?
Por onde anda você meu amigo Mosca???


São Beto
Enviado por São Beto em 22/06/2015
Reeditado em 01/07/2015
Código do texto: T5286033
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
São Beto
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