A Mosca

– Tem uma mosca na minha sopa.

Edgar era o garçom-chefe daquele restaurante. Um homem velho e muito experiente. Ele trabalhava naquele local há quase 30 anos e nunca uma vez sequer havia tido qualquer problema com um pedido. Observando atentamente a mesa com os seus olhos de lince, não identificou nenhuma irregularidade. Mas como não podia contrariar a razão do cliente, agiu com empatia e profissionalismo.

– Caro Senhor, não consigo encontrar o inseto que menciona, peço desculpas pelo inconveniente. Vou retirar a comida agora mesmo e solicitar outro prato.

Pegou a tigela, levou até a cozinha e trouxe outra imediatamente. Verificou se tudo estava em ordem, captou os aromas e temperatura para checar se estavam dentro das expectativas e alinhou cada um dos objetos da mesa com um rigor único para então, satisfeito, servir o cliente com toda agilidade e presteza. Porém, após fazer uma mesura de forma elegante e se virar, ouviu novamente a voz nasal e irritante.

– Tem outra mosca. Na sopa.

O garçom dessa vez se virou incrédulo, mas logo recobrou a postura, ocultando qualquer micro expressão - mérito de sua longa lida com o público. Examinou novamente o prato como se o estivesse vendo pela primeira vez, de forma rápida, porém metódica.

– Peço mil desculpas, estimado Senhor. Eu trabalho aqui há três décadas e isso nunca aconteceu antes.

– Está me chamando de mentiroso?

– Perdão, acredito que não tenha me expressado direito. De forma alguma o questiono. Retirarei imediatamente e irei averiguar com a chefe responsável pela cozinha. Lamento pelo infortúnio. Trarei um novo em instantes.

O cliente, irritado, não concordou e nem recusou. Apenas acenou de forma casual, como se espantasse um inseto.

Às vezes acontecia de um cliente surpresa adentrar o estabelecimento para testar a qualidade do atendimento, da cozinha e dar uma review em blocos importantes da gastronomia. O Palazzio era um restaurante 5 estrelas, com ótima reputação e análises quase perfeitas entre os críticos. Um ou outro exagerava nos pedidos ou fingia não gostar para ver como reagiriam, mas Edgar nunca perdia a compostura. A excelência em sua vestimenta e etiqueta o colocava acima dos demais colegas. Contudo aquela situação era nova e precisava pensar numa maneira de se livrar do cliente sem manchar a reputação do Palazzio.

Com esse fim, pegou ele mesmo os talheres no escorredor da cozinha, lavou novamente de forma impecável, olhou cada ingrediente e todo o cômodo para ver se tinha qualquer inseto ou sujeira e, então, serviu ele mesmo. Fez questão de colocar a comida em duas tigelas para que pudesse provar uma diante do cliente.

Desse modo, mais uma vez fez o percurso até o homem da mosca. Contou como foi ele mesmo quem higienizou os utensílios, preparou e colocou cada ingrediente para então servir igualmente em duas porções. Pediu para o cliente examinar ele mesmo a fim de que pudesse comprovar.

O homem franziu o cenho, olhou cuidadosamente as duas peças e afirmou não ver nenhuma diferença entre elas. Estavam perfeitamente simétricas, nenhum traço de sujeira, insetos ou qualquer irregularidade. Estava, inclusive, idêntica ao do anúncio. Não satisfeito, o garçom deu uma colherada num dos pratos, confiante, e demonstrou que não havia nada de errado. Serviu o outro na mesa e aguardou para vê-lo provar.

O homem parecia desconfiado apesar da constatação e provas irrefutáveis. Mergulhou a colher rasa no caldo e sorveu lentamente. O seu rosto tenso, logo relaxou e após mais algumas sorvidas, pareceu satisfeito.

– Está bom assim, Caro Senhor?

– ...

– Senhor?

– Ah, sim, sim. Está ótimo, obrigado.

– Perfeito. Neste caso, irei me retirar por ora. Não hesite em me chamar caso precise. Estou à inteira disposição.

Após fazer novamente uma mesura, dessa vez triunfante, virou-se em direção às outras mesas. Acreditou que dessa vez tinha resolvido o problema e poderia voltar a sua rotina costumeira. Mas, então, uma voz monótona e inquisidora assolou seus ouvidos novamente, vinda de trás.

– Garçom?

– Sim, pois não? Tornou a olhar pro Homem que novamente parecia incomodado.

– Acho que temos um problema neste restaurante em relação a moscas. Pois a vejo novamente.

Pela primeira vez o rosto de Edgar contraiu-se numa expressão que era um misto de incredulidade e fúria. Achava que o outro estava deliberadamente debochando da sua cara, mas então algo inesperado aconteceu. Uma moça sozinha em outra mesa acenou no mesmo instante para reclamar.

– Moço, tem uma mosca aqui... Bem na minha sopa. Poderia trocar, por favor?

E então, relatos parecidos foram acontecendo em sucessão. Agora estava genuinamente confuso. A essa altura, o homem perfeccionista, elegante, de confiança inabalável em seu trabalho, perdera o brio. Olhou um por um, prato por prato chegou a derramar tudo no chão só para examinar os resíduos e comprovar que não estava ficando louco. Errar uma única vez já era inaceitável, porém uma falha tão grotesca era inacreditável. Por isso, pediu para outros funcionários, colegas, examinarem as sopas servidas e ficou surpreso com a avaliação deles.

– Ué, você não está vendo a mosca no prato? Quer que eu te empreste os meus óculos? - Disse um dos mais antigos.

– Olha, se o velhote não consegue enxergar uma mosca desse tamanho, não acho que óculos vão ajudar. - Zombou um novato.

– Perdão, isso é alguma espécie de pegadinha?

– Acho que alguém esqueceu de tomar seu remédio hoje. Toma, pode pegar o meu.– Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?!

Seus dois colegas se entreolharam.

– É, ele realmente não consegue ver. Talvez devêssemos ajudá-lo.

O mais velho instruiu o mais novo a encher uma taça cristalina com água e serviram-lhe com um comprimido dentro. Irritou-se com o gesto, mas tomou tudo de um só gole. Poucos segundos depois começou a sentir uma sensação de queimação na garganta e uma tontura repentina. Largou a taça no chão que se estilhaçou em dezenas de pedaços. Foi então que notou pela primeira vez algo que já deveria ter reparado há muito tempo. Refletido no líquido do chão uma criatura cinzenta de com olhos imensos o encarava do abismo.

Assustado, caiu no piso molhado sujando a roupa de grife. Ao olhar pra cima, globos oculares vermelhos, compostos, o encaravam curiosos. Gritou e saiu rapidamente, primeiro engatinhando e depois correndo pelo corredor. Chegou no salão e viu que uma multidão de monstruosidades o aguardava sentada em suas mesas, cada qual com um prato de sopa em cima da mesa. Moscas gigantes, com forma humanoide, trajadas elegantemente encaravam o pobre homem aterrorizado.

- Uma mosca na sopa. Poderia tirar, por favor? - Uma criatura de vestido rosa o abordou com voz de súplica.

- Mas, que porra de restaurante é esse que serve comida com mosca dentro. Vocês estão brincando com a minha cara, é? - Disse um homem-mosca irritado.

- Olha, mãe! Uma tem uma mosca na sopa! Que legal! Disse uma criança-pupa com olhos brilhantes e patinhas animadas apontando para a sua refeição.

Edgar achou que estava delirando. Teria sido o remédio? Estava perdendo a sanidade. Aquilo não podia ser real. Não tinha como ser. Viu seu reflexo novamente no vidro e uma imagem que não deveria ser familiar o assolou mais uma vez. O rosto que olhava de volta era o de um inseto gigante com a pele escura e um par de asas debaixo do blazer. Apenas parte de si era humana, da cintura para baixo, bem como as vestes. Todos os presentes eram moscas, mas aparentemente ninguém havia se dado conta, a não ser seus dois colegas.

Desde quando ele ficou assim? A resposta, no fundo, ele sabia. Desde sempre. Mas, a sua dedicação, vulgo obsessão pelo trabalho e pela perfeição o cegaram a tal ponto que havia se esquecido da criatura grotesca que realmente era. E não era só ele. Todos estavam presos a suas peles e ilusões sobre si próprios. A realidade privou seus sentidos e instintos a ponto de fazê-los acreditar que eram humanos, distorcendo suas percepções.

Em algum momento todos eles perceberiam que não eram quem acreditavam ser; Todos não passavam de moscas, atraídos como insetos para mergulhar e se afogar num prato fundo e insosso de sopa.

Arthurx
Enviado por Arthurx em 04/03/2025
Código do texto: T8277836
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