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O Último Prego do Caixão (6º Trecho)
 
Pode-se enganar a todos por algum tempo;
pode-se enganar alguns por todo o tempo;

mas não se pode enganar a todos todo o tempo.
Abraham Lincoln

       
       Clarice Maria morava sozinha na Rua Machado de Assis, no lado oposto às casas que margeavam o córrego. Era uma das pessoas mais antigas de Santa Minerva, uma benzedeira benquista no bairro e conhecedora de suas mais sórdidas mazelas. Sorridente e muito falante, possuía certo prestígio na vizinhança — e o carinhoso apelido de Vovó.
       Diante da janela da cozinha, o copo de café entre as mãos, ela observava a chuva castigar as hortaliças plantadas na maior parte do quintal frontal da casa, cujo um breve caminho de brita levava ao baixo portão de madeira da entrada. Se apertasse a visão, enxergaria as casas do outro lado da rua — e se forçasse um pouco mais, entre espaços aqui e ali, veria que o nível do córrego subira acima do normal, se espraiando pela parca vegetação como uma longa cobra barrenta, preludiando inundação.
       Entretanto.
       A velha parecia não se importar: uma dor íntima comprimia-lhe o peito, atrelada a uma espécie de remorso que lhe consumia o juízo. A todo instante uma cena lhe vinha à cabeça: ela ajoelhada limpando pés de coentro, uma Caravan marrom estacionando entre as casas do vizinho Edgarpo e da família Augustine, dois homens saindo e disfarçadamente sondando o quintal dos Augustine. Desconfiada, se esgueirara para dentro da própria casa, mas logo ouviu o carro batendo as portas e saindo, forçando-a dar meia volta e ir à rua, então percebendo a algazarra que se formara por conta das viaturas da polícia no acesso ao campinho — e foi neste instante que soube da morte de Manuel Pimenta e decidira ir confirmar o que acontecera.
       Se tivesse avisado alguém sobre a Caravan momentos antes, daria tempo de anotar a placa e provavelmente evitar o rapto de Gasparzinho.
       O rapto de Gasparzinho.
       O rapto.
       Gasparzinho.
       Um arrepio elétrico subiu-lhe pelos dedos dos pés, estremecendo-lhe o corpo até espocar num nome pálido em sua mente: Adisa Gachette Augustine. Lembrou-se do garotinho, de sua família… e da trágica história que os levara à Santa Minerva. Imigrantes haitianos, haviam se refugiado no Brasil após o presidente Françoise Duvalier, o Papa Doc, rebelar-se contra o povo, instaurando o terror baseado no extermínio de opositores e opressão à população. Devoto às práticas vodu, Duvalier acreditava na crença de poderes adquiridos através de sacrifício humano — e este poder era reforçado se usado o sangue inocente dos filhos dos inimigos.
       Os pais de Adisa contaram sua história semanas depois de se mudarem e trazerem o garoto para benzer. Em sua pouca instrução, Vovó não compreendera a intensidade dos riscos que Papa Doc representava à família Augustine; contudo, no discorrer dos meses o laço de amizade se solidificou e revelaram que Adeben Gachette, pai de Adisa, era ex-oficial do exército haitiano e que tivera o restante da família assassinada às ordens do presidente tirano.
       Seus lábios se apertaram num inútil esforço de evitar as lágrimas. Como alguém poderia tentar o mal contra uma criança, ainda mais uma criança como Adisa? A resposta não veio, mas sim a imagem de um bebê de poucos meses, os nítidos traços negros acentuados no rostinho redondo e afável, porém a pele tão branca que se confundia com o gorro de crochê que lhe cobria a cabeça. Ele era lindo, os olhos de um vermelho exuberante que se destacavam com as bochechas salientes e rosadas. Era único.
       Conforme crescia, Adisa se tornou uma criança popular em Santa Minerva, não apenas por seu raro grau de albinismo, mas também por ser bastante sociável. Devido à sua condição, somente saía ao entardecer; e era uma festa quando seus pais o levavam à mercearia ou a qualquer outro lugar: todos admiravam sua graciosidade e a criançada o enchia de perguntas: Você é de verdade? Qual a cor do seu sangue? Você parece arroz, até seu cabelo é branco! Adisa se divertia com aquilo, conquistando a simpatia e o apelido de   Gasparzinho.
       E Gasparzinho era um anjo.
       — Um anjinho gentil — a velha murmurou, lembrando as muitas vezes que ele viera ajudá-la na pequena horta. Vovó planta, Adisa molha, dizia com um regador de plástico aguando tomates e cebolinhas, um chapelão na cabeça para proteger-se do sol. Vovó ama plantas e Adisa ama Vovó.
       À recordação, as lágrimas vieram com tamanha intensidade que ela teve de sacudir a cabeça para não chorar. Havia lago errado com aquela cena que se repetia em sua mente, todavia não conseguia descobrir o que era.
       De súbito, uma viatura parou frente à sua casa, lhe chamando a atenção.
 
***
     Todo repórter tem suas fontes e aquele havia recebido uma ligação anônima a respeito do desaparecimento do garoto. O quadragésimo quarto Departamento de Polícia de Guaianases vinha recebendo duras críticas devido ao descaso com que tratava o Jardim Santa Minerva, literalmente ignorando os crimes que ali ocorriam. Aquele não seria um furo de reportagem, mas decerto acossaria o delegado sedentário que comandava o lugar.
       Aprontaram os equipamentos no saguão de espera da delegacia: ele, dois operadores de áudio e a mulher aos prantos ao centro. Por mais que se esforçassem, não conseguiam acalmá-la e enfim iniciaram a entrevista aos moldes amadores de uma rádio de bairro. Primeiro o repórter passou um resumo do fato e depois tentou:
       — Pode nos dizer como exatamente aconteceu, senhora?
       —…Pre…cisam en…contrar meu A…disa, meu A…disa sumiu. — A mulher chorava em langorosos soluços e quanto mais tentava falar, mais as palavras se enrolavam, o microfone emitindo chiados e estalidos de uma transmissão ao vivo. — Ele… na frente… no quin… tal… não vi… su… mindo.
       — A que horas aconteceu?
       — Adisa… é, tão… pe…queno… e sumiu.
       O repórter insistiu mais algumas vezes, mas no auge do desespero a mulher repetia sempre a mesma ladainha, olhando para a frente e gesticulando como se o fato estivesse acontecendo diante dela. O delegado se aproximou saindo de entre algumas pessoas, os olhos arregalados em tom reprovativo; entretanto, foi desarmado com a aproximação do repórter, que quase lhe enfiou o microfone na boca, perguntando:
       — Doutor, este caso ocorreu no Santa Minerva… quais providências estão sendo tomadas?
       Surpreso, o delegado soltou uma falácia.
       — É…, é… Estamos fazendo o máximo possível para trazer o garoto de volta, destacamos uma grande equipe para o local…
 ***
       — Maldito, pelo jeito a grande equipe sou eu — retrucou Romualdo, desligando o rádio. — Delegado do caralho.
       Instantes atrás, atravessara às pressas o caminho de brita, chegando à cozinha de Vovó, pedindo que ligasse urgentemente o rádio. Ela o fizera, trazendo um pequeno Panasonic do quarto e o ligando acima da mesa, ficando os dois diante do aparelho como se vissem as notícias radio-transmitidas, embora houvesse tanta angústia na voz da mulher que era possível visualizar o terrível sofrimento pelo qual estava passando.
       — Olha para isso — pediu a velha, mostrando as mãos espalmadas, trêmulas. — Meu Deus, o que acontecendo nesse lugar? Primeiro Mirella, depois Gasparzinho… e essa chuva que não pára… daqui a pouco inunda tudo.
       — Falando em Mirella, ouvi no rádio-patrulha que nenhum policial ficou no local e a essa hora a água deve ter levado o defunto — falou o investigador olhando pela janela e percebendo o alto nível do córrego.
       — Valei-me, minha Nossa Senhora.
       Uma rajada de vento e chuva dedilhou sobre o telhado de Brasilit, fazendo um silvo ecoar entre as frestas e vagar pelo simplório cômodo de tijolos vermelhos e sem reboco. Uma panela caiu e a luz piscou numa ameaça de findar a energia, mas se estabeleceu.
       — Ficou sabendo algo sobre o garoto?
       — Nada — ela respondeu, recolocando a panela no escorredor. — Mas vi o tal carro e os dois sujeitos. Vem cá. — Se aproximou, indicando um ponto na horta, acrescentando: — Eu cuidava dos meus coentros bem ali agachada, quando vi eles descer e ficar olhando a casa de Gasparzinho.
       Romualdo mentalmente posicionou-se no local indicado, calculando que de fato ela tivera uma boa visão do carro e seus ocupantes. Refez o percurso com os olhos várias vezes, até que de relance notou algo estranho: na casa ao lado dos Augustine, um vitrô abriu-se, ficou um tempo e depois fechou. Esperou um tempo mais e o processo se repetiu.
       — O carro era mesmo uma Caravan e parou aonde? — inquiriu, não esperando uma resposta, mas sim sondando se Vovó também tinha notado aquele detalhe.
       — Ali, no poste entre a casa do Eddy e os Augustine — disse, apontando o lugar.
       Eddy. Edgarpo, pensou o investigador e novamente sondou o vitrô, que mais uma vez se abrira, agora se demorando como se quem tivesse por trás dele quisesse bisbilhotar algo na rua. A viatura-Voyage estava diante do portão. Seria ela a preocupação de Edgarpo?
       — Lembra de algo mais?
       A velha franziu o cenho, ainda de frente para a janela, se esforçando para puxar algo na memória.
       — Sei que tem algo errado…
       Nesse instante, uma lufada açoitou a casa e toda a louça do escorredor caiu, fazendo estardalhaço. Apressados, se abaixaram para recolhê-la — e não ouviram o homem entrar pelo portão de madeira e atravessar o caminho de brita. Quando se deram conta, ele estava diante da porta.
       — Irineu, que porra você está fazendo aqui?! — berrou o investigador, em pleno susto, a arma em riste.
       Entretanto, Irineu Pereira, as roupas ensopadas coladas ao corpo magro e o rosto enrugado pingando em bicas, apenas apontou o dedo para o Panasonic sobre a mesa, anunciando:
       — Isso não é verdade.
Sabor de Sangue e O Marceneiro
Enviado por Sabor de Sangue em 17/07/2020
Reeditado em 25/07/2020
Código do texto: T7008104
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Sobre o autor
Sabor de Sangue
Águas de Lindóia - São Paulo - Brasil
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Sabor de Sangue