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O Último Prego do Caixão (5º Trecho)

Aquele que luta com demônios
deve acautelar-se para não tornar-se um também.
Friedrich Nietzche

 
        
        … ocasionando verdadeira miscigenação cultural.
        O investigador Romualdo Beltrano interrompeu a leitura do Diário dos Guaianás e olhou para fora da viatura-Voyage, considerando que a chuva não daria trégua. Estava de mãos atadas: o aguaceiro começara duas horas antes, comprometendo drasticamente a análise do cadáver de Manuel Pimenta e aparvalhando por completo a apuração do desaparecimento de Adisa Gachette Augustine, o Gasparzinho.
        Atuando há pouco mais de um ano como investigador-oficial, era um mero novato no cargo, porém sabia que quanto mais tempo demorasse, menores seriam as chances de resolução de quaisquer dos casos. Precisava de informações e não seria fácil; contudo, crescera no bairro e sabia como as coisas funcionavam e com quem deveria falar, vantagens que nem mesmo os veteranos do 44º Distrito Policial, situado do outro lado da estação, possuíam. E, francamente, bem sabia que pouco se importavam com o que acontecia na famigerada Whitechapel brasileira — ou W.B., como o chamavam no departamento.
        Trovoadas soaram estridentes e raios ofuscaram sua visão num lampejo. Queria fazer algo; sozinho no carro, a impaciência começava a importuná-lo como moscas a um cadáver. Desceu um pouco o vidro, pinçou o terceiro Marlboro do maço e o acendeu, dando uma forte tragada e estirando-se no banco. Pegou o jornal mais uma vez, estendeu-o diante do rosto, porém olhou por cima dele, fixando-se na água escorrendo pelo para-brisas.
        Escorrendo.
        Pensou na esposa e no filho pequeno — estariam em casa, provavelmente chateados pelo fato dele não estar ali para assistir Os Goonies que passaria na Sessão da Tarde, como prometera —, porém a imagem escorreu como a chuva no para-brisas, cedendo lugar à lembrança da mulher desesperada batendo as mãos espalmadas na viatura. Não tivera tempo de falar com ela, pois a inconsolável desmaiara numa crise de choro e fora através de populares que soubera que seu filho de quatro anos havia desaparecido da frente da casa, minutos antes.
        E a multidão se juntara, uns querendo ver o que estava acontecendo, outros replicando informações:
        … Viram uma Caravan marrom parada perto do portão…
        … Gasparzinho ficava no quintal brincando…
        … O carro passou aqui agora pouco, ninguém notou…
        Escorrendo.
        Sentiu um aperto no coração e desviou os olhos para a longa ladeira de paralelepípedos e casas assimétricas que compunham a rua principal de Santa Minerva, a chuva e o vento tão fortes que formavam um véu esbranquiçado sobre elas. Qual o tamanho da dor de perder um filho?
        Incomensurável.
        Absolutamente.
        Gasparzinho.
        Era o único — e era único.
        A mãe estava inconsolável e no 44º DP, molhada e suja de terra por conta do desmaio, explicara numa convulsão de lágrimas que o menino tinha costume de acordar cedo, se sentar num banco do quintal e jogar as sobras do jantar às galinhas. Fazendo o café, ela nem se preocupava e não soube dizer quando exatamente aconteceu. Foi tudo muito rápido, doutor. Quando vi, cadê Adisa? Sumiu.
       
E chovia a cântaros, surrando as janelas altas da delegacia — e o delegado o chamara à sua sala, a mulher sentada à sua frente: Este caso é seu, Romualdo, faça o que for preciso para encontrar a criança. Confio em você! A convicção efusiva do velho roliço, dono de uma papada dupla e brilhante calvície ilhada numa penugem de cabelos amarelos, induziria ao erro o desavisado, supondo que o caso era digno de máxima atenção, mas na verdade dissimulava o desejo de livrar-se o mais rápido daquela mãe.

        Investigação — demanda tempo, recursos e contingente.
        Estatística — meros números num relatório.
        Antônimos que, às vezes, tinham o mesmo significado.
        Deu mais duas longas tragadas no Marlboro e jogou a bituca num piparote pela janela. Detestava a ideia de detestar os agentes da lei, ainda mais por que sempre sonhara ser um deles.
     Seus pais eram exemplo de tudo o que pais não deveriam ser: problemáticos, passavam metade do tempo à procura de dinheiro fácil e a outra o gastando com bebidas, jogos e libertinagem — conseguindo horas extras para discutir, arranjar confusão e surrá-lo quando estavam em casa.
        Os avós eram seu porto seguro.
        A avó lavava e passava roupas para fora, acompanhando fielmente o programa Que Saudade de Você do Eli Corrêa num radinho da cozinha, assim como ele e o avô aos sábados montavam guarda ao lado do aparelho para ouvir a série Teatro de Mistério da Rádio Nacional. Quanto mais negamos um crime, mais a consciência nos obriga a pensar nele, era o bordão de abertura, que os dois entoavam como uma espécie de mantra, para então silenciar como espectadores ante uma batida de pênalti. Davam-se bem e sem dúvida foi ouvindo os casos elucidados pelo ilustre Inspetor Santos que alimentara a ideia de se tornar um agente da lei.
        Assim.
       Morando numa casa precária da Rua Vênus de Ille, travessa com a Antonio Stegues, aos doze anos já perambulava pelo bairro com um bloquinho de notas. Observador, geralmente se achegava aos tumultos, sondava os fatos e depois se afastava furtivamente; mais tarde, em casa, sentado num improviso de escrivaninha, realizava rabiscos e deduções. No começo, as mantivera em segredo, compartilhando apenas com o avô; todavia, ao longo do tempo, sua presença fora se intensificando e sendo notada — e, por fim, os próprios moradores começaram a lhe pedir opiniões e sugestões, que ele dava de bom grado, consolidando-o assim como o Tira-da-Vênus-de-Ille.
        O Tira-da-Vênus-de-Ille que já havia resolvido vários pequenos delitos, desde furtos de roupas no varal à descoberta de carne de cachorro misturada às linguiças do açougue, até certa manhã chegar de seu turno como vigia na estação de Guaianases e encontrar a casa revirada e os avós brutalmente assassinados sobre a cama. Foram os primeiros cadáveres de sua vida, mal completara dezessete anos, e as lembranças lhe fixaram em sua mente como uma narrativa retalhada, mas que podia ser amargamente compreendida:
        Uma monstruosidade.
        Mais de cinquenta facadas.
        A bicicleta Barra Forte do avô e o radinho da avó foram roubados.
        Mais de cinquenta.
        A polícia foi chamada.
       Tinha faltado energia; a escuridão tomava conta do bairro, ninguém viu ou ouviu nada.
      Os investigadores se deram ao trabalho de coletar os nomes das vítimas e esperar o rabecão, somente.
        Mais de Cinquenta!
      Seus pais desapareceram após o crime, reaparecendo dois meses depois, gritando para que saísse da casa e que a haviam vendido.
        Facadas.
        Sucessivas.
        Facadas — e incuráveis.
     O rádio comunicador da viatura emitiu um bip, esfumaçando-lhe os pensamentos, então a voz soou estridente e agressiva:
        ROMUALDO! ROMUALDO!
        — Na escuta, chefe.
        ONDE PORRA TÁ VOCÊ?!
        — Na W.B., investigando o sumiço do garoto…
        CARALHO, ROMUALDO! E DEIXOU A MULHER AQUI NA DELEGACIA?… VOCÊ SABE A BOSTA QUE ELA VAI FAZER? VAI DAR UMA ENTREVISTA. OUVIU? UMA ENTREVISTA! VAI SER MERDA PARA TODO O LADO, FILHO DA PUTA!
      E desligou. Hierarquia. Engoliu em seco, olhando enfurecido para o comunicador, a saliva descendo áspera como uma bola de pregos enferrujados. Aquele era o pagamento recebido por seu esforço.
        FACADAS.
        SUCESSIVAS.
        E CONTÍNUAS.
      Respirou fundo. Tinha tudo para ser o bandido da história, mesmo assim resolveu seguir seu sonho, descobrindo-se algo ainda pior.
Sabor de Sangue e O Marceneiro
Enviado por Sabor de Sangue em 08/07/2020
Reeditado em 09/09/2020
Código do texto: T6999649
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sabor de Sangue
Águas de Lindóia - São Paulo - Brasil
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Sabor de Sangue