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O Último Prego do Caixão (2º Trecho)
    
Quem luta com monstros deve velar por que,
ao fazê-lo, não se transforme também em monstro.
Friedrich Nietzche.


 

      O dia amanhecera cinzento, toldado de nuvens escuras que denunciavam chuva.
     O cadáver foi encontrado ao lado do muro da linha de trens da Estação de Guaianases, às margens de um campinho de futebol improvisado. Quatro policiais militares guarneciam o local, observando um perito barrigudo coordenar a fotógrafa criminal na enumeração da cena, enquanto realizava anotações numa prancheta.
     —… Parece que morreu a pauladas, o rosto está desfigurado — ela comentou.
     — Tem uma pedra grande ali, cheia de sangue, deve ter sido usada. — O perito esquadrinhou em redor. O lugar era afastado, bloqueado por mamoneiras altas entrecortadas por um estreito caminho que servia de passagem, dando acesso ao campinho e, à margem oposta, um aclive que descambava num córrego ao pé do muro da estação. — O crime pode ter ocorrido aqui mesmo, à noite. Creio que se conhecessem… Há uma boa visão daqui, mas quem está do outro lado nada pode ver.
     — Encontro marcado talvez? — ponderou a fotógrafa, levantando-se, o cenho franzido. — Parece um homem, mas todo depilado e vestido com roupas de mulher. Short jeans e um top… E é estranho o corpo não ter sido empurrado para o córrego; se fosse, só o encontrariam a quilômetros daqui.
     — Bom dia, cidadãos. — O indivíduo surgiu de repente pela trilha, o rosto amanhecido, as mãos metidas no bolso de uma calça de sarja preta, um chapéu de feltro na cabeça. — O dia já começou mal, hein. Nem são sete horas.
     — Olá, investigador. Parece que te chutaram da cama também… a cara toda torta de sono.
     O riso entre o grupo foi inevitável.
     — Nem dormi ainda… e a coisa toda aconteceu bem aqui, nas minhas barbas, e o delegado pediu para eu vir na frente. Já sabem quem é?
     — Mal começamos.
     O investigador Romualdo se aproximou, um sujeito simples e sem qualquer atributo chamativo, acocorando-se perto do cadáver. Examinou-o por instantes, torcendo o pescoço para lá e cá, asseverando:
     — Manuel Pimenta.
     — Quem?
     Mas todos se calaram, voltando-se para a trilha de mamoneira.
     — Minha senhora, — tentou dois dos policiais —, não pode vir…
     — Quero lá saber se posso ou não — retorquiu uma velhinha negra e magra, imperativa, um lenço branco na cabeça, seus passos e trejeitos incompatíveis à sua idade. — Quero é ver de quem é o defunto.
     Os militares avançaram para segurá-la, mas o investigador meneou as mãos.
     — Pode deixar, é a Vovó.
     — E o que é isso? Reunião familiar? — disse o perito, desconcertado. — Aqui é uma cena de crime.
     — Concordo: a senhora deveria estar em casa tricotando, Vovó.
     — Cala-te boca, Rominho. Já limpei seus panos de bunda e agora vem me dizer o que tenho que fazer? — A velha era singular à sua maneira espalhafatosa, mostrando-se não de todo irritada, apenas tomada de uma cômica rabugice. Aproximou-se, olhou e espremeu as vistas, lambeu os beiços grossos numa espécie de tique e sentenciou com uma cusparada para o lado: — É, bem que disseram, é a Mirella-Boca-de-Sabonete.
     — O quê? — indagaram o perito e fotógrafa em uníssono.
     — Era um travesti do bairro, Manuel Pimenta, vulgo Mirella-Boca-de-Sabonete — esclareceu o investigador, puxando um cigarro do maço.
     — Isso mesmo, Seu-Tira-Sabido. Aproveita e me dá um desses ai a velhinha pediu, porém ela mesma agarrou o maço, tirou um e o acendeu com fósforos, fazendo uma fumaceira. — E os senhores nem precisam procurar muito. Vou dar o serviço aqui mesmo, estão me ouvindo? Podem procurar Seu Irineu, do boteco da Dona Graça. — Ela falava e gesticulava. — Já faz é tempo que os dois futricam e aposto que Mirella queria ganhar dinheiro fácil extruquino o sujeito… Rominho, você não tem vergonha de fumar uma peste de cigarro desses não?… — e deu outra cusparada, jogando a bituca no chão e pisoteando, quase enfartando o perito. — Dona Graça, aquela abelhuda que vai na missa de domingo, mas que mete a língua na vida de todo O mundo, sabia da tramóia… e bem se fazia de desentendida.
     — Seu caso já começou resolvido, investigador — brincou a fotógrafa.
     A história era conhecida no bairro, portanto passível de verdade. Romualdo gesticulou para o perito (algo como: Dê prosseguimento, logo volto) e dirigiu-se para a senhora, colocando-lhe o braço sobre os ombros.
     — O que acha de me levar na sua casa e me contar o que sabe?
     Encaminharam-se para a passagem entre as mamoneiras.
     — Pode ter certeza que sim… preciso tirar o gosto ruim desse seu cigarro da boca.
     — Isso é Marlboro.
     — Marlboro dos infernos, prefiro meu cigarrinho de palha… e male-male um paraguaio…
     Caminharam por poucos minutos, quando, ao longe, no início da rua, avistaram duas viaturas Veraneio da polícia militar e civil estacionadas, inibindo que curiosos fossem até o campinho e gerando enorme aglomeração à sua volta. Um burburinho se formou e subitamente uma mulher surgiu batendo as mãos na viatura, pedindo socorro, desesperada. No céu, roncos e relâmpagos saíam de entre as nuvens, confirmando as suspeitas de chuva.
     — É a mãe do Gasparzinho — reconheceu Vovó. — Aconteceu algo.
  Apressaram o passo, a velha se adiantando com a jovialidade de uma maratonista, saltitante. Romualdo não era gordo nem magro, mas não conseguiu acompanhá-la, alcançando-a com algum tempo de diferença, esbaforido.
     — A senhora tem o que nas pernas, Vovó? — falou, dobrando-se para frente e apoiando as mãos nos joelhos.
     — Esses jovens de hoje: uma corridinha e já ficam morrendo… Mas agora sim tem um caso para você, Seu-tira: o Gasparzinho sumiu.

 
Sabor de Sangue e O Marceneiro
Enviado por Sabor de Sangue em 18/06/2020
Reeditado em 06/07/2020
Código do texto: T6980966
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sabor de Sangue
Águas de Lindóia - São Paulo - Brasil
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Sabor de Sangue