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VIOLETA
         (terror e decepção)


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'---aquelas paragens eram ornadas de plantações de violetas, o perfume daqule lugar era inebriante, mas, a maldade a tudo destruiu...'



Vila brejeira almofadada de nuvens, viçosa de gentes pacíficas, trabalhadoras e por desejos de fortuna e anseios carnais, suas mulheres acima dos dezoito anos fugiram no lombo dos cavalos de aventureiros ou nas carroças de mascates, logo por ali vivendo, só existiam homens e meninas além de umas poucas moças, dentre elas a doce e linda Violeta, uma jovem graciosa e de muito recato. Despontando nos dezesseis anos desabrochava em formosura, o que despertava a cobiça dos viajantes que pernoitavam na bodega, bordel e hospedaria. Era verdade, que os homens do lugar, também aguardavam o seu completo florescer, mas, a concorrência seria acirrada.

Violeta crescia fiel às suas crenças, dedicada ao velho viúvo pai, ao qual ajudava na quitandinha, além de cuidar com afinco das seis cabrinhas no quintal de casa, o leite delas rendia uns bons cobres e o queijo que faziam era muito apreciado pelos locais e viajantes, mas, as entregas eram feitas por seu pai, uma forma de protegê-la do destino de suas outras três filhas que fugiram com mascates, iludidas por desejo de viagens e luxúria. O Sr. Cláudio mantinha vigilância sobre Violeta, pois queria um destino mais feliz e harmonioso para ela.

A vida seguia suas areias do tempo, sem pulsação na ampulheta, vida serena, muita bebedeira na adega e uivos de prazer no bordel de moços e velhas mulheres noturnas ,sem outra opção de vida.

Violeta tinha sonhos pequeninos, tais como juntar uns trocados para um vestido novo de missa e um bem bonito para os passeios na praça com sua duas amigas Augusta e Fernanda, todas da mesma idade que ela e se o pai permitisse um dia, ir ao cinema que inaugurara na cidade próxima, distante uns quarenta quilômetros, isso seria mais difícil, pois o velho Cláudio era linha dura e não suportaria perdê-la para um viajante ou mascate, mas, a mocinha estava crescendo e não havia opções de rapazes para bem casá-la. O Sr. Cláudio já pensava em mudar daquele lugar, o que seria uma pena, a cidade grande tem seus deslumbres e também suas tentações, um dilema para aquele velho pai, só que ali não via futuro para a filha.  

Então, chega à vila, a pessoa que arrendara o antigo armarinho do Sr. José Eustáquio.  A viúva Dona Esther e Fábio seu filho, um belo moço com seus vinte anos, foi um alvoroço nas cabecinhas das pouquíssimas moçoilas do lugar. Logo no primeiro dia de missa, a diferença dentro da igrejinha era grande, muito perfume floral pelo ar e roupas femininas de missa muito bem cuidadas, até o Padre Leandro percebeu a mudança e pensou....moças...moças...vão me dar trabalho, ah! se não vão...

Apesar do assédio velado de Augusta e Fernanda, era inegável a beleza  e o recato delicado de Violeta, se aproximarem foi quase natural, faziam um belo par, tornaram-se logo amigos e Fábio era um rapaz muito sério e calado, mas, muito bonito, com negros cílios espessos sombreando impagáveis olhos azuis, dava para desmaiar naquele olhar de céu, uma perdição.

O tempo foi passando, quando completou um ano da chegada deles à vila, tanto Dona Esther quanto Sr. Cláudio faziam gosto naquela amizade, só estavam vigilantes por causa do fogo que arde na juventude, não desejavam ter que apagar quaisquer incêndios, por assim dizer...

Mas, se as cabrinhas falassem, eles saberiam que Violeta e Fábio, já haviam se aproximado muuuito mais do que o desejado. O 'ocorrido' segredado entre os dois, logo havia de despontar, talvez nos próximos dois meses...

Numa segunda-feira lamentosa de chuva, Violeta acorda enjoada, com vertigens, seu pai se preocupa e como lidar com mulheres não era o seu forte, correu a chamar por Dona Esther e desconfiada, despachou o pai da moça para fora do quarto e deu um aperto em Violeta e logo descobriu o motivo do mal-estar, aí foi que a porca torceu o rabo, sabedora das decepções do Sr. Cláudio com as suas outras filhas, já imaginava o desconsolo do pobre homem com mais essa...o que faria? pensou...

Resolveu não dourar a pílula, convidou Violeta e o pai para um lanche em sua casa, após fecharem seus próprios comércios no dia seguinte. Só para estreitarem mais os laços de amizade, Sr. Cláudio aceitou prontamente, parecia estar interessado na viúva, que era bem nutrida, simpática e trabalhadora e ele estava tão carente de afeto, tratou logo de avisar a filha, que sorriu tremendo por dentro, sem dar a perceber isso ao pai, bem sabia o motivo do convite. Para prevenir qualquer aviso à Fábio, Dona Esther o mandou comprar uma coisa qualquer na cidade vizinha e quando ele retornasse, pai e filha já estariam em sua casa, achou melhor assim.

Dona Esther era uma cozinheira de mão cheia e fez um lanche com pães recheados, coalhada, café e uma bela torta de queijo coberta com goiabada, o refresco foi de limão e a mesa da sala estava coberta com uma linda tolha e um vaso com as famosas violetas, que vingavam com fartura no vilarejo, precisava de um clima ameno para o assunto que precisaria abordar à noitinha, que Deus a iluminasse e lhe desse as palavras certas, era tudo o que pedia. Ela não poderia prever a reação de nenhum dos envolvidos.

Logo que Fábio chegou, correu a se lavar para o lanche, educadamente cumprimentou os convidados e trocou olhares com uma Violeta nitidamente nervosa, isso acendeu o seu pisca alerta, o que o deixou meio aflito, mas, o lanche transcorreu aprazível, até que sua mãe pediu um minuto de atenção e estava bem séria quando isso fez. Aí a bomba explodiu, sobrando estilhaços para todos os lados, apesar de toda calma e sensatez na colocação do assunto. Dona jamais poderia supor que a reação de Fábio fosse tão absurda e descompensada, tampouco a do pai da moça tão brutal.

Vou lhes contar o acontecido, ao qual posso detalhar  por ter recebido uma carta de minha pobre comadre Esther, poucos dias depois.

Fábio e Violeta ao serem confrontados com o segredo tão escondido, a princípio não regiram , só gelaram, mas, logo depois Violeta se ajoelhava diante do pai pedindo aos prantos, perdão ao pai que estava lívido amargando mais uma decepção...logo Violeta...se igualou às irmãs na primeira oportunidade que teve, só sacudia a cabeça de um lado para o outro, meio desanuviado, só reagiu de verdade, quando um Fábio vermelho de raiva gritou
- Puta, esse filho não pode ser meu, suas irmãs devem tê-la instruído para disfarçar a falta de virgindade!!!

Aí o que se sucedeu foi uma discussão ferrenha, um pai revoltado com as injúrias proferidas contra sua filhinha amada , voando para cima de um Fábio possesso e uma Esther tentando separar os dois, que de tão descontrolados a empurram tão brutalmente, que ela caiu por cima da mesa, espalhando louça para todo lado, até se cortou na perna por causa disso e foi um corte bem feio, sangrava muito, mas, ninguém parecia reparar nela.  

Violeta por sua vez, chorava copiosamente de raiva e de dor por ver que o seu amor era só um aproveitador e não tinha a menor intenção de assumir o filho que esperava, quanta decepção, se deixara engabelar por suas conversinhas ao pé da orelha e deu no que deu, causou uma enorme decepção ao seu velho pai, pra nada.

O Sr. Cláudio e Fábio embolados no chão aos socos, um velho forte e um rapaz alto, mas, fraco por falta de trabalho pesado, a briga estava meio equilibrada, até que Fábio puxando um canivete de mola esfaqueasse o Sr. Cláudio mortalmente, o esguicho vermelho que saiu de seu ventre inundou o tapete aos seus pés, cena pavorosa para Esther e Violeta. Já  em Fábio parecia que o gesto lhe era rotineiro, correndo para seu quarto pegou uma muda de roupa e uma sacola de papel e ganhou a estrada, nunca mais se soube dele.

O sofrimento que ele deixou nem o consolo de Deus e do Padre Leandro puderam aliviar, os meses se passaram, Violeta definhou tanto que não pode manter a criança em seu ventre, abortou aos seis meses e morreu pálida nos braços de uma Esther, que há muito morta por dentro depois de tudo, com uma pressão forte no peito e um último suspiro de redenção, cai por sobre o corpo da quase nora, cessando assim o seu calvário. Encerrou-se assim tragicamente, mais uma página da história do vilarejo, onde vingavam com fartura violetas.





*Imagem - Fonte - Google
*br.depositphotos.com
Cristina Gaspar
Enviado por Cristina Gaspar em 02/12/2019
Reeditado em 03/12/2019
Código do texto: T6809377
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cristina Gaspar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
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