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SpitFire 62
 
     Por que essa demora para atender? Por que essa gorda inútil não contou essas malditas moedas em casa ou trocou na bombonière antes de vir para o mercado? E essa fila?, quilométrica!, só por que resolvi vir à noite! Que lástima! Quatro milhões de pessoas na minha frente. O açougueiro. A dona Berenice da rua detrás. O cara que trabalha nos Correios. E um desconhecido. Porcaria! Já são…cadê o relógio?… Raios! devem ter removido à tarde, seu círculo limpo ainda está na parede acima da vitrine de vendas de bebidas e cigarros. Ah! deixa para lá, não tenho hora para chegar mesmo. Hoje a noite é minha.
     Aliás, consegue me explicar uma coisa? Que praga dos infernos um açougueiro vem fazer no mercado? Você já viu algum [leiteiro, padeiro, dono de boteco…]na rua? Pensei que fizessem arroz de carne, feijão de carne, ovos de carne, carne de carne. Tudo naquele antro vermelho em que trabalham.
     E a dona Berenice? Por que não veio antes? Pratica o árduo oficio do ócio o dia inteiro e tem que vir fazer peso na fila justo agora?
     E esse cara dos Correios? Suspeito. Um pacote de miojo, algumas salsichas e sardinha. Que mistureba! Deve morar sozinho. Solteiro que tem dessas culinárias malucas. É, talvez seja isso, maluco, afinal quem trabalha de entregar correspôndencias não deve entender muito bem daqueles paranauês da mente — que alguém pode ficar nervoso por que só recebe avisos de cobrança e contas. Cadê que chega um bilhete premiado, entregue por uma ninfetinha linda com ares de colegial e o sorriso lascivo das vedetes da Rua Augusta? Uma porra que chega. Agora dívidas, para o inferno, até se você estiver sob as asas do capeta elas te chegam, ou pensa que o fodão das maldades não vai te fazer pagar os pecados cometidos aqui? Vai espetar seu traseiro todos os dias.
      Agora esse desconhecido, sei lá, não conheço. Hum, deixa-me ver. De costas. Magrelo, calças jeans mais sujas que as mãos de um mecânico. Uma jaqueta verde-musgo do Iron Maiden, o Ed encarando todo mundo como um cão raivoso. Tenho minhas dúvidas, mas desconfio que este desconhecido seja mais suspeito que o cara dos Correios. Por quê? O sujeito não vai comprar nada. Apenas está na fila, as mãos pendendo ao lado do corpo, balançando de um lado para outro, como um pingüim quando anda. É uma lástima mesmo! Não tinha outro lugar para fazer suas desconhecidices? Tinha que vir justo aqui?
     Estou me enfurecendo! Que drama, estou apenas com raiva. De um monte de coisas, aliás, principalmente por que o meu anjo divino está no Caixa, seu sorriso lindo e gentil sendo desperdiçado com uma gordola que deveria ter trocado suas moedas até no céu, se bem preferisse, mas não aqui e agora.
     O quê? Que barulho foi esse? Ah! droga. Foi só aquele “baleiro” de moedas de R$1,00 que se descontrolou de novo. Que maravilha, o garotinho Manuel está se divertindo recolhendo bolotas de chiclete e as colocando na boca. Putz, acabou a graça, só podia: chegou a xerife do boteco, aquela tiazinha chata de óculos que fica amaciando a bunda sentada atrás do Balcão de Informações. Quer que o menino devolva. Que sarro! O pirralho fanfarrão meteu a língua para fora e deu um pinote, nem Usain Bolt pega.
     Mas.
     O barulho me assustou.
     Devo estar um pouco nervoso.
     Um cara suspeito já é angustiante, imagine dois na mesma fila. O com a jaqueta do Iron me preocupa mais. De costas, lembra? Não me surpreenderia se ele se virasse e sorrisse a mesma dentição feia do Ed. Ele é quieto, e fica balançando. O que ele acha que ele é? Um pêndulo? Além do mais, é quieto. Dizem que pessoas quietas são perigosas, porque ficam caladas no canto delas, em monólogos obscuros, e então estouram.
     Ah! lembrei e não ria, é sério. Esses dias passei num daqueles Sebos do Centro e fuçando encontrei um livrinho ordinário de contos. Contos de terror, veja bem TERROR. O título era…é, é… deu branco, é uma porra. Quando queremos lembrar algo, esse algo se esconde nos confins encardidos do nosso cérebro , como crianças travessas querendo pregar peças nos pais, fazendo-os passar por mentirosos. Enfim, esqueci até o nome da historieta e do autor, mas recordo que o sujeito mencionava que talvez alguém pudesse estar ao nosso lado, numa espécie de dimensão paralela, nos observando, e a gente nem se daria conta.
     Que ideia de jerico. Não acha? Na hora achei, mas agora me peguei pensando se o suspeito dois de repente não pode bater um papo com o Ed. Há sujeitos que vêem coisas, não é? É, e talvez ele não seja mais desconhecido: é o desconhecido-amigo-do-Ed. Heureka de Siracusa! Isso só aumenta a tensão dos meus nervos. E se estiverem elaborando um plano para roubar o mercado? Reféns? Diabos, já imaginou se acontece algo parecido com o que houve em Norrmalmstorg? Nome miserável, que nem consigo pronunciar, não sei como alguém pode colocar um palavrão desses como nome de cidade, mas sei que tem a ver com a Síndrome de Estocolmo. Conhece? Claro que conhece. Agora me diz se não tenho motivo para estar nervoso, hein?
     Aleluia, irmão! Que o Senhor seja louvado no Céu e nos labirintos inomináveis do Inferno! Que as prostitutas se tornem virgens e se casem com cidadãos ricos e sedentários, afinal  a gordola liberou o caixa. Isto tem que ser comemorado! Bem, este Fini aqui na prateleira vai me servir. Oh! isso costumava ser menos azedo quando eu era criança. Ih! não. Vai me dizer que o código de barras do punhado de salsichas do suspeito um não está passando? Ah! periquita que não voa! Tudo bem, tudo bem. Está perdoado. Você fez minha beldade se levantar e acenar para a Fiscal de Caixa. Uau! Bem bonita também, e ainda vem de patins, deslizando e dando uma voltinha para frear. Parece uma Barbie. Resolvido. Isso, isso. Vai te embora com sua nesga de salsichas, miojo e… cadê a sardinha? Na cesta de DEVOLUÇÃO. Não vai levar? Entendi: deve ter se arrependido quando imaginou a gororoba em que isto se transformaria no estômago.
     O desconhecido-amigo-do-Ed, é a vez dele.
     E.
    É agora. É agora. Meu coração está batendo forte, acho que o senhor miocárdio vai pedir as contas. Estão conversando em voz baixa. Tem um carrinho de compras vazio entre a gente, nem percebi; também não consigo escutar o motivo da comunicação. O desconhecido-amigo-do-Ed deve ter mandado o Ed anunciar o assalto e o parceiro só está esperando minha divindade limpar o caixa e desovar a bolada numa sacolinha biodegradável e entregar. Que demora, que demora. Eu tenho uma faca. É isso! Como não lembrei antes? Minha cuca deve estar me traindo, não tem outra explicação. Mais tarde vamos bater um papo e vou colocar os is nos pingos. Mostrar quem manda.
     O desconhecido-amigo-do-Ed meteu a mão no bolso de trás, vai puxar algo. Minha Musa de Ipanema não deve ter colocado muita fé e ele vai ter que mostrar ação. Uma faca? Uma baleadeira? Revólver? Espingarda? Talvez uma AK-47? Já vi disso num vídeo da internet, lá nas arábias. O cara assalta a loja de celular com uma metralhadora. Você crê numa coisa dessa?…
       O quê? Ele está puxando uma carteira, presa numa correntinha. Não sabia que meliantes colocavam pega-ladrão em seus pertences e… muito menos que mostravam documentos para assaltar. Mostrou um, dois, um punhado logo. Santo Deus, que país é esse? Onde vamos parar? Até para ser bandido tem burocracia! Eh! minha deliciosidade sorriu; acho que o desconhecido-amigo-do-Ed está apto para prosseguir com o roubo. O quê? Ele está tirando dinheiro do bolso agora, que absurdo! Está pagando. Não estou dizendo? Este país é de uma desumanidade sem párea. E minha deusa ainda está dando uma notinha e entregando um cartão. Hã? Recarga. De celular. Lástima, mas não deixa de ser um roubo, invertido.
     Minha vez.
     Esse carrinho está me atrapalhando. O quê? Como assim? A senhora é idosa? Se pode passar na minha frente? Claro ca$&#@&*&#$*, po*&%$#. Ainda bem que sou educado. Vou te falar umas verdades: só por que chega a nossa vez essas tiazinhas brotam no chão para passar na nossa frente. Esquece, vou aproveitar e tirar esse carinho daqui e jogar lá nos quintos.
     Sou o próximo e já olhei em todas as direções possíveis, procurando idosos, gestantes, gente usando muleta e o que quer que fosse que pudesse passar na minha frente. Tudo vazio. Ficarei eu e meu brilho de luz, sozinhos. Minhas mãos estão suando, muito. A velhota poderia demorar um pouco mais, me daria mais tempo. Suando. Por que elas não falam sobre o tempo ou a novela das oito? Papo de quem não tem o que falar, mas (me) ajudaria, ao menos. Cão lesmacento das fendas flamejantes do orco! Nem para isso a idosa serve, áspera como uma lixa: chegou, pagou e se desovou para casa. Nem uma palavra, trejeito de rosto. Deve estar morta. Vai-te embora para o túmulo frio que você chama de lar. É cada uma que me aparece!
     Minha vez. Minha vez. O que devo dizer? Na agonia nem peguei algo para justificar minha ida ao caixa.
     — Boa noite, tudo bem? Somente o Fini?
     Nem precisei dizer nada. Aquele sorriso de princesa da Disney fez tudo por mim. Deus mio. Ela deve ter trabalhado o dia inteiro, mas ainda assim sinto o sabor do seu cheiro. Sândalo? Sim, isso. E isso me lembra Renato Russo. Eu não me perdi. O sândalo perfuma, o machado que o feriu. Quem dera se eu tivesse o ápice poético de Renato. Ápice poético? De onde tirei isso? Já vi que não tenho sorte com as palavras; elas não me compreendem e eu as muito menos.
     — Sim, somente.
     — Você veio tarde hoje, estamos encerrando.
     Você veio tarde hoje. Me deixa repetir isso e em letras garrafais, tipo aquelas notícias que abrem as manchetes dos jornais sensacionalistas: VOCÊ VEIO TARDE HOJE. O que isso significa? Pelo amor das prostitutas virgens! És um palerma, homem! Uau! ÉS, flexão do verbo ser na 2ª pessoa do singular do presente do indicativo. Este deve ser o meu momento, meu ápice poético, afinal quem se expressa assim hoje? Respira, calma, é que vossa senhoria (opa, de novo, estou ficando refinado) não entendeu que VOCÊ VEIO TARDE HOJE quer dizer que ela me notou, que sabe que existo. Tem noção disso? Minha prenda angelical surgida aqui há uns três dias, quase que por encanto, sabe que piso na face da Terra. Até me arrepiei.
     — Hoje é sexta-feira. Dia de esticar um pouco mais a noite, tomar alguma coisa e quem sabe dar boas risadas.
     — Está me convidando para sair?
     — Quer um Fini?
     — Aceito. 30 minutos. Saio pelos fundos da loja.
     — Vou estar num Spitfire 62 vermelho esperando no estacionamento, ao estilo Willie Traynor.
     — Tem um Spitfire 62?
     — Não, você entendeu errado. Falei Chevette amarelo grand prix 73, à Marcos Brenno.
     — Você é engraçado.
     — E você é uma linda.
     45 minutos. É como se âncoras titânicas estivessem engalfinhadas aos ponteiros. Finalmente. Está vindo. O que é isso, José? Dentro é a Gata Borralheira; fora é a Marilyn Monroe? Olha esse gingado, e essas curvas amaciadas pelos apertos do vestidinho preto, de babado acima dos joelhos. Tem apenas meu carro no estacionamento, um pouco longe de onde ela saiu. Vê aquilo? A claridade dos holofotes parece sensualizar sua aproximação; é como se a dona desfilasse na passarela de asfalto. Enfim, a sorte grande é minha.
     Chegou, entrou, falou:
     — Prefiro a verde, você fica com a azul. Só consegui duas geladas.
     Garrafinhas de Smirnoff Ice, tiradas da bolsa. Green Apple e Spirit Blue. Dei um gole longo; ela uma bebericada. O que são 5,5% de álcool para quem às vezes se abriga num Daniel’s a noite inteira? Nada, só serviram para me refrescar. Já ela, seus dentes se mostraram num animado riso branco — e o brilho cromado de minha faca espocou diante dos meus olhos. Pensei na sensação de enfiar a lâmina e remover cada um deles, sua boca se abrindo e fechando em gritos roucos e desesperados. Teria que amarrar braços e pernas, não é? Va bene. A corda está sob meu banco, junto com a vaselina e as luvas de látex.
     — Quer ir para algum bar em especial?
     — Não. Conheço um lugar bacana. Afastado. Escuro. A céu aberto.
     Minha Helena é na verdade uma Cleópatra: fala minha língua perfeitamente. 35 infindáveis minutos rodando, mas você tem que reconhecer: com uma formosura destas a gente roda até alisar os pneus. E quanto mais afastado melhor. E já falei do perfume dela? Acho que não — e agora tenho certeza que esta minha mente safada está me traindo [te pego na saída]. Deve ser Love Spell ,Victoria Secrets, o perfume, e confesso que ficou uma delícia nela. Pena que vai durar pouco: quando o sangue verte e o medo surge, não há perfume que perdure. Heureka! que frase linda. Acho que já sou um poeta. Você leria uma poesia minha?
     Ah!, falando em ler, reparou que os jornais estão noticiando as mortes de Carla Pimentas e Pâmela Oliveira? Encontraram as duas com dias de diferença e, dizem as más línguas, que sofreram bastante, porém não sabem a causa mortis, como dizem os peritos. Mas eu sei, só não sabia o nome delas. Ah! (mais um Ah! para nossa coleção) lembrei de uma reportagem sobre uns caras mortos. Uns quinze já. Estão atribuindo a confrontos pelo controle do tráfego de drogas. Os caras trafegam drogas para o nariz para tirar um lazer no celebro, só pode. Em suma, um carinha a mais ou a menos não me faz diferença.
     Posso te falar uma coisa? Minha cabeça está com uma dorzinha chata, enjoativa. Começou há pouco; deve ser a falta do café, não tomei sequer um gole hoje. Caramba, estou que nem velho. Velho com síndrome de velho — e olha que nem me tornei um balzaquiano. Nossa, que lapso, minha Hilda Furacão está falando alguma coisa.
     — Acho que a entrada é por ali, tudo parece tão diferente à noite.
     Esta vozinha acaba comigo. Mas que raios de lugar é esse? Parece os caminhos de Charles Perrault, aquele da Chapeuzinho Vermelho. Uma entrada, árvores, um caminho de cascalho, uma ladeira, descendo, subindo muito. Chegamos. É, de fato a céu aberto, uma clareira. Podemos ver tudo aqui de cima. Hã?, que porcaria é aquilo? Oh! nada, apenas embalagens de Derby, Marlboro, Free, Ana Maria e várias camisinhas usadas, para todo lado. Isso daqui deve ser um fodódramo para desadinheirados, um albergue da fodelância.
     — Preciso tomar um ar.
     Ela sai, eu fico. Recostado, admiro seu andar de passarela se afastar sob os faróis do Chevette. Já ouviu falar dos Assassinos das Ferramentas? Não? Palerma em dobro, você. Foi como chamaram Roy Norris e Lawrence Bittaker, dois maníacos que adaptaram uma minivan para torturar e matar jovens garotas. Batizaram o carro de Murder Mack. Hilário, não é? Um dia ainda chego lá, e darei também um nome à minha caranga. Christine? Você é pouco imaginativo mesmo, hein! Isso é de verdade, não é ficção. Preciso de um nome forte, como…Francamente! esquece.
     Está vendo minha faca?  É tipo aquela do Rambo, lembra?  E vê como meus dedos deslizam pela lâmina? Vai ser delicioso cortar os biquinhos dos peitos dela e espero ouvir muitos gritos. Adoro isso, sabia? Me excita. Da última vez, com a tal Pâmela alguma coisa, perdi o controle por que a sonsa só ficava querendo rezar, chorando que nem uma toalha torcida. Duas facadas no alto da cabeça, finou a garota. Mas com essa dona eu quero curtir. Por falar nisso, cadê ela? Achei. Está lá na frente, de costas, os braços abertos como se fosse o Cristo Redentor. Mulher tem cada ideia louca.
     Me diz uma coisa: tenho uma corda grande, o que acha de laçar ela pelo pescoço e vir puxando até o Cheve? Seria adrenalina das boas, uma dose daquelas. Estupro? Sim, claro. Ou melhor, não. Trouxe a vaselina, mas esqueci as camisinhas. Ah! tudo bem, posso completar o serviço depois… e às vezes até melhor, que nem pizza amanhecida: apura o sabor.
     Cadê, cadê minha corda? Não estou encontrando. Quartzo. Onde foi parar? Achei, estava enfiada bem abaixo do banco. Putz, sabe de que lembrei? Daquele spray de gás, tipo maçarico. Ele é uma maravilha; você precisa ver os gritos de pavor quando queimo os olhos ou os ouvidos das donas. Já melei minhas calças só fazendo isso.
     Vamos lá. Corda e faca, é hora da ação. Devo assustá-la primeiro? Seria divertido vê-la correr para o meio do matagal. Teria uma caçada. Lástima, bati a porta do carro muito forte ao sair, e ela se assustou e fechou os braços, e acenou para mim. Nunca vi alguém tão contente estando tão perto da morte. Posso te falar só mais uma coisa? Aquela dorzinha de cabeça chata está piorando. Saindo daqui vou ter que passar da farmácia e comprar um Doril ou coisa parecida. Deve ser resfriado; às vezes eles nos visitam assim de repente e nem adianta mandar voltar depois — eles são piores que Testemunhas de Jeová.
     Ela está lá na frente. Vou correr, fazer o laço e pimba!, volto puxando ela que nem um novilho, então a brincadeira começa.
     Corri e não cheguei nem na metade do caminho, sinto meu corpo caindo para trás igual a uma jaca mole. Estou com um gosto estranho na boca. Ela está vindo até mim, vai me ajudar, não consigo me mover.
     — Verde pra mim e azul pra você.
     Green Apple e Spirit Blue. Era bom demais para ser verdade. Fui drogado e ela sabia o tempo certinho da droga. Ela é louca. Me amarrou com a corda, me surrou com uns restos de arame farpado que encontrou ali no mato, meteu minha boca no escapamento do meu próprio carro. Devo ter fumaça no pulmão até minha quinta geração. Sabe a garrafinha de Smirnoff? Você nem imagina onde ela enfiou, sem vaselina, aos chutes, enrolada no arame.
     E agora minha noiva do Chuck está me olhando, minha cabeça posicionada rente à roda traseira do Cheve. Ela me olha pelo retrovisor, bombando o acelerador em marcha à ré. Lembrei daquele filme Tropa de Elite e a cena que o cara grita: Na cara não! Na cara não! Mas é isso que ela quer: miojos para todos os lados. Eram 15 carinhas, agora serão 16. Deveria ter dado importância para eles antes.
     Minhas últimas palavras? Não tenho, porém me veio a recordação daquele livreto de contos, que fala sobre dimensões paralelas, e me surgiram algumas perguntas. Quem é você que conversou comigo até agora? Como veio parar aqui?  Não estaria você numa dimensão paralela à minha?
     Me responda rápido, o pneu está cantando…
 


 
 
Sabor de Sangue
Enviado por Sabor de Sangue em 01/06/2019
Reeditado em 05/06/2020
Código do texto: T6662512
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Sabor de Sangue
Águas de Lindóia - São Paulo - Brasil
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Sabor de Sangue