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Memórias de um fumante*

Aos novos Griots

     Meu nome é Clemente. Mais do que amigos e amores, o cigarro esteve comigo até 12 de junho de 2004. Cheirando a fraldas, em meados de 1964, aos dez anos, começou minha iniciação. Em casa todos fumavam. Mãe, padrasto, parentes. Exceto tio Ataulfo e tia Lupicinia. Irmãos de mamãe, amantes do violão e de contar causos. Tomei gosto pela leitura. O Circo de Bonecos, de Oscar Von Pfuhl, uma peça teatral infantojuvenil, foi o primeiro e único livro ganho em campanhas e sorteios nos anos escolares e conservo-o com muito carinho.
     Toda vez que tia Elza nos visitava, a prima Elizete me atiçava, alfinetando a moral para surrupiar cigarros da mãe. A gente se trancava no banheiro, do lado de fora do porão onde morávamos de aluguel, sob um sobrado no Jardim Brasil. E com afagos e bicotas arremedava familiares, vizinhos, comerciais e artistas de tevê, enquanto as cunhadas tricotavam com cigarros em punho, entre café e bolinhos de chuva.
    Um dia, vacilamos na vigília, um sorrateiro tapa encheu em cheio a minha boca. Elizete recuou. Tomei a frente. Mãe, a gente só tá brincando! Ela me encarou e revelou suas desconfianças. Se eu quisesse continuar, era para fumar longe do meu padrasto. Ele não admitia filho fumando perto dele. Se tiver reclamação o reio vai cantar nas suas partes. Temendo represálias, nosso esconderijo mudou de endereço.
      Meses depois, sem padrasto, visitamos parentes de terceiro grau em Itatiba, conhecidos de ouvir falar e depois nunca mais vi nem tive notícias. Foi a minha estréia. Travei amizade com meninos da minha idade. A maioria fumante. Sem jogo de esconde-esconde. Empunhando cigarros 100 milímetros na piteira, desfilei com eles pela sala na maior pose. Sem aplausos, mamãe apenas reiterou o aviso quando me flagrou com a Elizete. De volta a São Paulo, parte dos mimos ganho dos tios e avós, dos servicinhos à vizinhança era empregado no cigarrinho solto. Mistura Fina, Continental, Hollywood.
     Década de 70, aos dezesseis, conheci os sabores dos sais com dona Rosa Quebra-galho. Grande samaritana, devota do Capri, assistia de bom grado em seu jardim os corteses menos afortunados, envolta em suspiros e tragadas. Ainda lembro ela ronronando: Vem meu bem, vem meu amor, eu vou cuidar bem gostoso de você!
      Anos mais tarde, numa fábrica de roupas onde trabalhei no bairro do Brás, ao conversar com uma colega, logo depois do almoço, quase fui nocauteado pelo seu hálito. Delfina, fina como o próprio nome, exalou nicotina pura em meu nariz. O estomago embrulhou. Fiquei a pensar como devia estar meu organismo. Eu não fumava muito. Acendia um Charm nos bailes, intervalo na escola, fila de cinema para ver Grande Otelo, Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Zezé Motta, Jim Brown. Resolvi parar. Um cigarro aceso entre o polegar e o indicador, contemplado a consumir-se até o filtro saciava a vontade.
      Pior que a humilhação era o constrangimento. Quando alvo de blitz, os policiais reviravam o maço a procura de drogas. Uma sexta-feira de 1974, viaduto do Chá, ponto da juventude que ali se programava para os bailes do Amauri, Eduardo, Transa Negra nos finais de semana, um patrício pediu um cigarro. Dei o maço inteiro.

     Os anos se passaram. Lima Barreto descreveria melhor. Constituí família em 1978. Auge do Movimento Soul. Com trilha sonora de James Brown, Parliament, Isley Brothers, Gerson Combo, Carlos Dafé, Banda Black Rio, rolando nas picapes da Chic Show, Black Mad, Zimbabwe, Soul Manitê. Nos concursos de dança, Nelson Triunfo, Black Brothers, Community Of Soul criaram novos passos pelos salões. Mestre Candeia e convidados fizeram contra-ponto: Eu não sou africano, eu não. Nem norte-americano! Ao som da viola e pandeiro sou mais o samba brasileiro! Ilê Aiyê, Olodum, Badauê, Muzenza, Oriashé eu conheci anos depois.
     Empurrados pela especulação imobiliária, mudamos da zona norte para zona leste, Vila Progresso, divisa de Itaquera, em busca de aluguéis compatíveis com a nossa realidade. Na maior farra, junto a baterias da Falcão do Morro Itaquerense e Nenê de Vila Matilde, agitamos o ato público do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial. Milhares de pessoas lotaram o entorno e escadarias do Teatro Municipal. Os poemas Protesto, de Carlos Assumpção, e, Canto aos Palmares, de Solano Trindade, ecoaram na multidão.
     Sem ofício definido, fui demitido várias vezes de emprego por conta da rotatividade econômica, conceitos de baixo Q.I., atrasos abusivos e recorrentes dos trens da Central. Contrariando expectativas, tirei proveito de uma licença-saúde em 1980 e virei camelô. Ganhei algum dinheiro e projeção, mas não soube administrar, a exemplo do Aristocrata Clube. Amélia se cansou, me deu cartão vermelho em 1984 por incompatibilidades e excesso de penúrias.

     Ao me ver de volta à vida de senzala na Mesbla, como auxiliar de limpeza, carente de estabilidade, Luzia, um caso dos tempos de baile, escrevente-chefe no Fórum João Mendes fez sugestões. Acatei. Inscrevi-me num concurso de servente no Fundo Social, tomei posse em 1988. Ela felicitou minha conquista, mas não permitiu uma folheada no seu diário oficial. Estava bem casada. Ô marinheiro trate de progredir. A maioria se acomoda quando consegue emprego público. Alertou enérgica, dando baforadas na minha cara.
     Ao final de expediente estressante, fim de mês, sem mulher e míseros centavos no bolso desejei uma pitada. Nos centros urbanos, homem sem dinheiro é um cadáver. Que saudades da rua! Observa com inveja os marreteiros pela cidade. Uns traguinhos da turma sexta-feira cervejeira filados pelos bares da vida. Pronto. Começou tudo outra vez.
      Uma noite cheguei tarde. Exausto. Doido pra fumar. Prudente, comprava dois maços, deixava um em casa. Não tinha nem bituca no cinzeiro. Tomei banho, jantei, me recolhi. O desejo atormentava mais do que tesão reprimido. A cama parecia banco de pregos. Liguei a tevê, Faça a Coisa Certa, em reprise. Preparei chá de erva-cidreira tencionando apagar, nada. Tentei ler um livro, Gostando Mais de Nós Mesmos, não consegui me concentrar. Postei-me no portão do meu apartamento, 3 horas da manhã.
      Passada meia hora o vento correu pelos corredores do prédio, anunciando minha salvação. Um morador desceu as escadas como um anjo portando a palavra redentora para eu poder ficar em paz no céu de mim mesmo. Você tem um cigarro? Pedi angustiado. O cara quase enfartou. Mano, que susto você me deu! Cuidado, é perigoso ficar pra fora esta hora, comentou após ouvir o ocorrido e me deu três. Quase retribui com beijos. Desejei-lhe bom serviço. Dormi sereno, dando glória e axé a todos os santos e orixás. Passei a comprar pacotes.
      Hábitos e manias aumentaram. Qual fosse o meu estado tudo era motivo. O cigarro tornou-se combustível e calmante de todas as horas. Eu acordava, bebia um copo d'água, um gole de café e fumava para despertar. No banheiro para aliviar as necessidades. Ao fazer a barba. Antes, durante e depois das refeições. Escovava os dentes. Arrumava-me ou faxinava a casa. Aguentar as agulhas diárias. Aguardava o ônibus e descia do metrô fumando. Numa dessas, esqueci um fichário no banco com os primeiros negativos apenas revelados da sobrinha Jamile, recém-nascida. Contas a pagar e cheques assinados. Distraído, passei do ponto. Nem bem desci, acendi um cigarro.  Foi um transtorno ir atrás de segunda via. Suportar suspeitas de gerentes. Desculpar-se com minha irmã. Dizem que computador não fuma. O meu fumava o tempo todo passado diante dele, durante visitas às páginas do Mundo Negro, Portal Afro, Geledés, Mídia Independente...
      Faço exame periódico. O Dr. Carlos pegou o resultado e disse que tudo estava bem. Exceto uma coisa. Por quê você fuma? Doutor, as pedagogas e psicólogas do grupo AMMA me fazem a mesma pergunta. Revelei meu receio de parar com um e ruir noutro pior. Tenho tendências alcoólicas, confidenciei. Você tem algum trauma? Assenti sem pormenores. Ontem, doutor, lá na quebrada, a farinha jantou um garoto de 15 anos, comentei. Ele coçou a cabeça. Clemente, a falta de perspectivas e os descaminhos dessa juventude ultrapassaram Direitos Humanos e estão se tornando caso de saúde pública, tamanha a virose! Bem, se você quiser existem métodos inibidores do fumo. Mas tudo deve partir da sua vontade. Sabe aquelas pessoas que precisam emagrecer, mas não param de consumir tudo que engorda? Pelo menos beba bastante água. Agradeci a atenção. Garanti pensar no assunto.
      Aquele 12 de junho seria um dia como outro qualquer. Não fossem apontamentos de uma palestra sobre Economia Solidária, do qual participei a convite do Centro Cultural Arte em Construção – Instituto Pombas Urbanas, numa oficina do SEBRAE, projeto Aprendendo a Empreender. Não lembro com quem conversei sobre ações a curto, médio e longo prazo para amenizar problemas que desnorteiam a periferia. Deve ter sido com algum colega do setor de Manutenção, adepto da preventiva. Eu trabalho em outra seção. Vou lá filar café. Tião Lobo, patrício mineiro, nêgo véio vivido, faz um café daqueles! E participo das rodadas. O pessoal é bom de prosa. Parece o Café Filosófico. Algo raro. Geralmente os colegas estão preocupados com salário, horário, agiotas, empréstimos, aposentadoria, chácara, casa na praia. De comportamento a política, tudo se torna objeto de análise e troca de impressões. Negócios lucrativos em compras por impulso foi um dos temas abordados sobre desperdício e reciclagem.
      Num canto do fumódromo, no celular calculei dicas do palestrante, partir de ações cotidianas. Somei gasto com cigarro por mês e ano, baseado nos preços que recordo desde a criação do Plano Real. Lamentei não ter tabela de juros para cruzar informações. O total mostrou-se dispendioso, sem um plano de negócios. Porém, era melhor fumar. A bebida e as drogas têm roubado pessoas preciosas que davam saber, cor e sabor à minha existência!
 
     Trabalhei até mais tarde para dar conta de serviços atrasados e levei outros para adiantar. No retorno para casa, chovia forte. Peguei trânsito caótico. Acidente fatal envolvendo lotação e motoqueiro na Estrada do Iguatemi com a Jacú-Pêssego. Os ônibus lotados e passageiros, impacientes. Eu, sem cigarro! Tempo do bilhete único expirado. O jeito era aguardar. Cada minuto parecia horas. Cidade Tiradentes, bairro onde ancorei em 1995, apresentava-se como oásis num paraíso distante. A espera seria proveitosa se alguém do MOCUTI ou do Fala Negão estivesse aqui, pensei. Biografados de Quem é Quem Na Negritude Brasileira, prof. Eduardo de Oliveira, alternado com Zenzele – uma carta para minha filha, J. Nozipo Maraire, socializados pela biblioteca Solano Trindade, fundada pelo Núcleo Força Ativa, me fizeram companhia.
     Cheguei por volta das 22 horas. Apertado pra urinar e querendo incensar o pulmão. Cobri o trecho a passo largo. Atravessei o portão do condomínio quase no peito. Fui direto à estante certo de uma carta de alforria no pacote e pasme: não havia! Debaixo d'água, corri sem guarda-chuva ao armazém Pelé do Norte. Único na rua àquela hora para me socorrer. Com prazos a cumprir, não dormiria cedo. Sem cigarro, nem pensar! O Pelé havia dado uma saidinha e deixado um conterrâneo recém-chegado desconhecido. Pedi um Marlboro, estendi cédula de 50 reais. Não tenho troco, avisou. O Pelé vai demorar? Indaguei aflito. Nessas eventualidades com ele tenho crédito. O rapaz não soube precisar. Desejei-lhe boa sorte em terras paulistanas.
      Retornei transtornado. Todo comércio local fechado. Até o sambar da Príncipe Negro. Encontrei a vizinha, dona Silvia, no corredor, enxugando as escadas. Sempre nos ajudamos nos momentos de aperto, inclusive quando falta cigarro. Ela me cedeu quatro. Não dou mais, seu Clemente porque estou com pouco, o Camilo também não encontrou bar aberto.
      Comecei o torturante acende-apaga para esticar três e reservar um até me recolher. O desejo por um cigarro inteiro aumentava a cada tragada. Irritei-me em reflexões crescentes. Se busquei afirmação, meu padrasto cantou pra subir, sem ter me visto fumar. Não virei galã sequer da Elizete. Carlinho Fala Macio, um sambeiro pé-de-cana, sem eira nem beira, todo enternado em risca de giz com sapato bicolor, levou ela no bico de pena. Minha estréia como Don Juan periférico foi um fracasso. Clarinda Paolletti, mistura de macarrão com rapadura, que posteriormente ensaiei aproximação, a custa de muito Free fiado para lhe fazer companhia, frustrou minhas expectativas. Clemente, você até que é um carinha legal, mas não vai pegar bem na família, você entende, né? Melhor não caçar sarna pra se coçar. Só amizade, tá? Do alto de seu poleiro, um velho papagaio me chamou na telha, pediu desculpas pela intromissão, ao pé do ouvido me contou histórias que o cinismo não conta. Se gostasse de preto, ela colecionaria urubus na janela...
     O prédio tremeu. O vizinho do andar de cima ripou um Rap no talo. Lembrei dos manos da Aliança Negra puxando um free style nos tempos de Hip Hop No Ar, na praça do Meia Cinco.  Um verso do 509-E fez a rima: Hei mano dê-nos ouvidos não seja você mesmo o seu próprio inimigo.
     Apelos desfilaram na tela da memória. O nojo pelo hálito da Delfina. As conversas com o Dr. Carlos. Um amigo muçulmano da Posse Hausa, quando eu ia a São Bernardo, que insistia para eu assistir Obrigado Por Fumar. Ele tem por hábito colocar a mão fechada com o polegar estendido na altura e centro da testa e diz: Sou homem daqui pra cima. O fumante agora compulsivo a consumir três, quem sabe quatro maços diários. O estoque reposto quando mal acabava para alimentar uma solitária insaciável. No espelho das lembranças vi retratos da minha decadência, sedutores como amores que muito prometem e nada cumprem. Rememorei um causo contado por tia Lupicinia, com tio Ataulfo ao violão, do homem que virou cinzas por ter fumado a si mesmo quando sem cigarro ficou. Senti-me recolhido no Ilê Axé Omo Odé, com a mão do Pai Jair na minha cabeça preparando obrigações.
     A lenda de Ogum me ensinou a pôr freios quando algo extrapola limites. Não importa as conseqüências. Decidi enfrentar meus demônios na cara limpa. Sem igrejas nem medicamentos. Acontecesse o que acontecesse, me dispus a ir para o quilombo de mim mesmo; para aquela senzala e pelourinho de conflitos eu não iria mais voltar. Quase cinco décadas de servidão ao sinhô Vício e de obediência bovina ao deus Cigarro em função do quê? Quatro séculos de escravização lucrativa, nos engenhos e lavouras da sociedade, quando foi abolida, não nos deu nenhum tipo de indenização. Era tempo de libertar-se das correntes na mente...
      Machadiando, caro leitor, Luzia me apresentou uma amiga, Margarida. Quarentona sarada. Noturna flor exalando encantos, vestida em CRESPOSIM, elevou meu ser num incendiário céu de querenças. Pesquisadora, devido a tímidas referências, ela tem indagado a localização e o papel do negro durante o mandato dos generais? Recriminei minha ignorância e falta de perspectiva por não ter guardado exemplares do jornal Árvore das Palavras. Subversivo e inesperado, noticiava revoluções e consciência. Era passado de mão em mão, entre convites de baile, sem se saber quem fez e de onde veio.  Para me livrar do paredão, a contemplei com Teclas de Ébano, poemas de Jamu Minka.
      Semeando mudanças, orientado pela Educafro, candidatei-me à bolsa integral para cursar História, no vestibular Unicsul 2008. Cujo tema da redação, coincidentemente, em resumo foi: Origens do vício pelo tabaco, tendências e opiniões. Outro retrato produzi. Sem saudade nenhuma pelo cigarro. Este ficou arquivado na memória por não caber em trinta linhas.

*Versão integral do autor. O presente conto foi publicado com alguns cortes por limitação de página em Cadernos Negros - volume 30, contos, Edição Quilombhoje/2007.
OUBÍ INAÊ KIBUKO
Enviado por OUBÍ INAÊ KIBUKO em 23/09/2007
Reeditado em 24/03/2020
Código do texto: T665052
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
OUBÍ INAÊ KIBUKO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 64 anos
111 textos (93864 leituras)
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OUBÍ INAÊ KIBUKO