NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 60

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 60

Rangel Alves da Costa*

Assim que parou o veículo nas imediações do estabelecimento prisional e já se encaminhava para a portaria, Carmen ouviu alguém chamando pelo seu nome logo atrás. Era o diretor da penitenciária que vinha apressado no seu encalço.

“Estacionei o veículo mais adiante e quando desci logo percebi a sua presença. O que faz aqui uma hora dessas, Doutora Carmen?”, indagou o administrador, com feição de que havia gostado de tê-la encontrado mais uma vez. Sendo mentalmente ágil, ela sentiu que aquele encontro ocasional haveria de ser bastante providencial, eis que talvez, com as ordens dele, as assinaturas poderiam ser obtidas mais rapidamente.

Daí que procurou ser bastante objetiva na satisfação à pergunta: “É imenso prazer encontrá-lo, senhor diretor, fato que realmente não esperava nesse horário. Na verdade, estou retornando, pois já estive aqui para recolher as assinaturas de Paulo e Jozué num requerimento de revogação de procuração. Sobre aquele caso do advogado negligente que já tive ensejo de falar e dos recursos que não podem mais esperar para serem interpostos. E nesse momento estou voltando para tentar obter outras assinaturas, e agora para as novas procurações outorgadas. Espero que consiga e que o pessoal não me ache chata por estar aqui novamente...”.

Já diante dos portões laterais e convidando a entrar, o diretor falou:

“Não se preocupe, será sempre uma honra recebê-la aqui, ainda que sejam poucas as pessoas que se sentem bem estando aqui, quer seja de visita ou a trabalho. Na verdade, ninguém se sente bem, nem eu e creio que mais ninguém. Infelizmente hei de dar razão a todas as críticas que se faz ao sistema prisional, às penitenciárias e aos desnorteamentos do que a lei de execução objetiva. Se for esmiuçar fica pior ainda, numa desumanidade terrível que se alastra como uma política de governo que dá certo. Pode ser contraditório ou paradoxal, mas aqui é a prova que, ao contrário do pretendido, a política governamental deu certo, e tão certo que eles não movem uma palha sequer para mudar essa situação terrível e catastrófica. Mas vamos até minha sala que eu mesmo irei providenciar as assinaturas num instante”.

Ainda bem, pensou Carmen, ainda bem que não terei de ficar rogando a um e a outro para ser atendida. Sentou enquanto o rapaz saía da sala com os papéis na mão e dizendo que não demoraria. Lamentou não poder oferecer um copo de água gelada nem um cafezinho porque talvez isso fosse luxo demais para ser disponibilizado ali. Ela apenas sorriu e ficou aguardando.

Passando por portões e corredores, mais adiante o diretor gritou o nome de alguém, que imediatamente compareceu ao local. Ordenou que os dois rapazes fossem trazidos com urgência para assinarem um documento. Primeiro chegou Jozué acompanhado pelo agente, uns cinco minutos depois. Nem quis conhecer o teor do documento, não perguntou nada, apenas rabiscou no lugar indicado e ali mesmo deixou, em cima de uma mesinha.

Uns dez minutos depois Paulo foi encaminhado ao local, chegando com dificuldade para caminhar e com hematomas espalhados pelo rosto e grande parte do corpo. A bolsa abaixo do olho esquerdo completamente arroxeada, arranhões pelo nariz e queixo, um lado do rosto avermelhado e inchado. No restante do corpo as marcas mais dolorosas das agressões e torturas sofridas, comandadas pelo agente prisional que o havia procurado exatamente para assinar um documento.

O algoz, o carnífice, verdadeiro torturador, era o mesmo que o acompanhava à presença do diretor. Assim que se viu diante do rapaz e constatando aquele triste quadro, segurou-lhe pelo braço, colocou-o diante de si e perguntou o que havia acontecido. Um sorriso, apenas um sorriso na face traumatizada foi o que o administrador obteve como resposta. Outro sorriso, mais um e muitos sorrisos. Se sentindo verdadeiramente constrangido com aquela situação, se voltou para o agente que se mantinha como não estivesse vendo nada ou que nada tivesse acontecido e perguntou o que tinha ocorrido e quem havia feito aquilo com ele.

O agente, endurecido feito pedra ruim, respondeu apenas que umas palmadas haviam sido necessárias porque quando chamado não respondeu e ao ser procurado estava escondido embaixo de um tonel vazio, daqueles onde o lixo era depositado. O diretor então o chamou num canto, olhou-o rispidamente e disse com voz firme:

“Até quando vocês fazem isso e depois dão uma desculpa qualquer? Batem, chutam, xingam, esfolam, torturam, arrebentam e depois tentam justificar os absurdos quando a pessoa já está em petição de miséria, como esse pobre coitado aí. Você acha que é mais humano do que ele, só porque o infeliz está preso e você se acha em liberdade e, pela função que exerce, tem o direito de fazer o que bem quer, como se estivesse botando pra fora seu instinto mal, sua essência maligna, esse ser ruim existente dentro de você? O mundo é pequeno demais e nesse mesmo instante está girando, e nas suas voltas passa pelo mesmo lugar. Sabe o que significa isso, que amanhã você poderá estar na mesma situação que ele, ou acha que não? Você se sentiria bem que fizessem isso com um parente seu, com um amigo ou conhecido? Certamente que não. E então porque faz logo contra um coitado doente, inofensivo, com grave problema mental? Você bateu, maltratou, torturou uma pessoa que está enlouquecida, que não sabe mais o que é certo ou errado. Você feriu na carne, no sangue e no coração uma pessoa que precisa de cuidados psiquiátricos, psicológicos, de especialistas. Olhe pra ele, olhe pra bem pra ele e imagine se, ferido daquele jeito, ainda estaria com disposição para estar com aquele sorriso. Está vendo? Pois é, ele está sorrindo. E sabe o que significa o sorriso no lugar da dor, do gemido, do grito? Loucura, simplesmente loucura. E quanto a você passe lá na minha sala amanhã pela manhã. E não vá enlouquecer com as consequencias por ter feito isso. Um dia vocês vão ter de aprender que tudo tem regra, regramento, e um pagando talvez os outros sintam que aqui não é apenas o reino da impunidade. Ao menos enquanto eu for diretor, não”.

O agente estava em silêncio e silencioso ficou, se abrasando por dentro, a tempo de explodir de tanta raiva e vontade de esbofetear o superior ali mesmo. Que sujeitinho mais metido, mais petulante, cheio de conversinha bonita. Já haviam falado desse seu jeito besta de ser, mas só agora tinha verificado o perigo que o mesmo representava ali, e por isso mesmo naquele mesmo instante começaria a organizar um abaixo-assinado para tirá-lo dali. Mas que sujeito mais besta, mas ele vai ver direitinho o que é bom pra tosse, com quantos paus se coloca um barco no mar. Tudo isso pensava o agente, ao ser dispensado e sair do local espumando de raiva.

Ainda em meio a sorrisos, a assinatura foi conseguida. Naquele momento o diretor sabia que não podia fazer nada por ele, até mesmo porque na enfermaria não havia medicação alguma. Mas prometeu a si mesmo que faria tudo para conseguir, ali mesmo, um ambiente isolado para colocá-lo, até que o advogado requeresse a tomada das providências cabíveis.

continua...

Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

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