NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 46

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 46

Rangel Alves da Costa*

Já familiarizada com as pessoas do comércio e dos escritórios ao redor, vez que o tempo que passou no escritório Auto Valente lhe abriu essa possibilidade de ampliar o número de conhecidos, chegou ao local e foi precisamente até uma papelaria que havia do outro lado da rua, bem em frente aonde ocorrera o sinistro.

Fez que estava interessada numa agenda, puxou conversa e a vendedora logo lhe perguntou se tinha visto aquelas cenas terríveis do dia anterior. Carmen respondeu que não, pois estava de férias e demonstrou interesse em saber dos detalhes. A mocinha então disse o que tinha visto e o que sabia, em detalhes:

“Doutora Carmen, foi a coisa mais triste, mais feia do mundo. Já tinha visto atropelamento feio, mas igual ao de ontem chega não consigo esquecer. Eu estava aqui em pé e ouvi um barulho, como uns gritos vindo do outro lado da rua. Olhei e avistei uma senhora em pé, parada na calçada em frente ao escritório e gritando pelo doutor Auto, que não sei se ia saindo ou chegando, mas que estava como que fugindo, se esgueirando dela. Não sei bem porque se afastava dela daquele jeito, mas verdade é que atravessou rapidamente pra esse lado, passando em meio aos carros. Talvez pensasse que fugindo dela vindo pra o lado de cá, então tudo tava resolvido, pois dali mesmo ela iria embora. Mas não. E foi aí que o pior aconteceu. A senhora, com um aspecto raivoso, se apressou em seguir o homem e se meteu também no meio desse movimento todo e foi quando um veículo em disparada acertou em cheio e ela foi parar bem ali, já morta, tenho certeza...”.

“Mas o doutor Auto correu para prestar socorro à mulher, não foi?”. Com essa indagação Carmen sabia muito bem aonde queria chegar. E a vendedora respondeu:

“Outras pessoas sim, correram na hora para ver se podiam ajudar, salvar a mulher, mas o doutor Auto não. Telefonaram na hora pra ambulância, pra polícia e até pra o bombeiro. Mas dele não vi nenhuma reação, muito pelo contrário. Lembro bem que avistei ele andando tranquilamente pela calçada, por aquele lado ali e seguindo adiante, como se não tivesse acontecido nada, como se nem tivesse ouvido o barulho da pancada e da miséria toda. Estranhei porque vi a mulher falando e gritando por ele, seguindo ele e, me desculpe dizer, morrer por causa dele...”.

Ouvindo o relato, Carmen amaldiçoava ainda mais o advogado e já não conseguia mais imaginar o que aquela víbora na pele de homem seria capaz de fazer. Qual o real fundamento de estar fazendo aquilo com aquelas duas pobres famílias, praticamente destruindo-as de vez, já que condenando os filhos e matando suas mães? Quanto estaria ganhando para agir daquela forma, de modo tão frio e desumano, tão absurdamente covarde e corrupto? Quem estava bancando isso tudo, quem estava por trás dessa trama toda, envolvendo a compra de sentenças e a condenação de dois inocentes? Quanto estavam pagando, quem estava pagando, a quem estavam pagando, qual a real divisão desse putrefato bolo?

Descobriria, ponto por ponto, linha por linha, desde onde saía o dinheiro até onde entrava. E haveria de ter muito mais coisas por trás do fato envolvendo aqueles dois, ou será que uma maldita honra familiar valeria tanta safadeza e negociata, envolvendo até o judiciário e o parlamento legislativo? Ora, seria afrontoso pensar que aquela tramóia toda havia sido feita apenas para condenar dois inocentes.

Contudo, nesse momento é que se vê o quanto a burguesia, a classe poderosa e influente trata os outros com desdém, como tanto faz, como se nem gente fosse. E por isso mesmo, e só por isso mesmo, buscaram a condenação de Jozué apenas para encobrir o malfeito de um vagabundo ricaço que tinha nome parecido com o do inocente, e procuraram condenar Paulo apenas porque é pobre e uma mocinha de família rica e sobrinha de um juiz gostava dele? Queria acreditar mas não conseguia. Deveria haver muito mais podre nesse reino de esgoto.

E Carmen pensando isso tudo enquanto continuava ouvindo a vendedora com sua indignação com a atitude do advogado diante do acontecido com a pobre mulher. Pelo que já tinha ouvido se dava por satisfeita, fazendo tudo para não alongar a conversa e também esculhambar com aquele safado. E poderia até correr o risco de falar demais e entrar em outros assuntos inconvenientes para serem discutidos ali. Se a mocinha soubesse ao menos da metade teria um chilique, com certeza.

Agradecida com as informações, acabou comprando a agenda. Talvez ela tivesse muita serventia para a anotação de dados importantes. Já perto das seis horas não adiantava mais investigar nada por aquele dia. Havia saído de casa pensando em também conseguir o telefone da mocinha que estava servindo como secretária do advogado diretamente na assembléia, local de trabalho dela. Porém, nem conseguia mais naquele dia nem precisava mais. Verdade é que a vendedora já havia confirmado o bastante.

E assim que saiu da papelaria lhe deu uma vontade imensa de fazer o que já há bastante tempo não fazia, que era entrar numa igreja para refletir sobre sua vida e prestar contas de parte de suas ações. Com esse objetivo seguiu não propriamente para uma igreja, mas para uma capelinha que ficava num canto de uma praça e desde a porta já se sentiu mais confortada.

Ficou ali orando por si mesma, pedindo pelas almas das amigas que haviam partido, implorando a Deus que a livrasse das mãos maldosas do mundo e dos seus desumanos habitantes. Refletiu, pensou na família, no seu futuro profissional, chorou e sorriu, se encheu das graças divinas e se sentiu outra mulher. E só saiu da capelinha porque ouviu as portas sendo trancadas.

Seguiu em direção ao carro e logo avistou um papel no para-brisa. Pensou que seria um desses panfletos de propagando ou até mesmo uma multa, mas quando se aproximou para retirá-lo dali viu que era um recado pessoal:

“Cuidado mocinha. Mexer em casa de maribondo faz mal à saúde. Quem é amigo adverte”.

continua...

Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

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