NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 28

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 28

Rangel Alves da Costa*

No mesmo instante que caiu estrebuchando no piso, a mulher já foi se entortando toda, tomando um tom esverdeado na pele para depois se transformar num horrível arroxeamento. Cena mais triste e lamentável de se ver.

Inerte, esparramada, sem mover mais nada e com as feições totalmente transformadas, não restava mais nenhuma dúvida de que a pobre coitada não havia suportado ouvir a confirmação da condenação e o encaminhamento definitivo do filho Jozué para a penitenciária, e medonhamente morrera.

Sem demonstrar nenhum espanto, nenhuma mudança que indicasse estranheza ou preocupação, o advogado apenas olhou por cima do birô o corpo caído e esboçou um leve gesto labial como a dizer que aquela não tinha mais jeito, já era, já tinha ido pro beleleu. Levantou, foi até o outro lado, revirou-a de um lado a outro com o bico do sapato e depois gritou pela secretária.

Esta sim, quando adentrou a sala e se deparou com Dona Leontina morta daquela maneira no chão, deu um grito tamanho que foi preciso o advogado colocar o dedo sob os lábios pedindo silêncio. Fez com que ficasse mais calma a todo custo, quieta, calada, repetindo que não era o momento apropriado para chiliques e desmaios. E passou a dar ordens.

Assim, ordenou que suspendesse o atendimento naquela manhã, que remarcasse todos os agendamentos do dia e que se Dona Glorita chegasse ali dissesse a ela que a sentença do seu filho Paulo ainda não havia saído e que retornasse no dia seguinte. Por fim, afirmou que iria providenciar urgentemente a remoção do corpo, coisa que não deveria demorar muito, mas que ela só saísse do escritório quando o pessoal do serviço municipal de recolhimento de cadáveres por mortes não violentas chegasse.

A mocinha, ainda amedrontada, nervosa e sem poder fingir uma terrível e íntima dor todas às vezes que olhava para o corpo ali estendido, apenas respondeu que sim e foi procurar num daqueles armários um pano para encobri-la.

Porém, quando o advogado percebeu tal intenção foi logo dizendo que de jeito nenhum fizesse isso, pois não tinha panos, toalhas e outras preciosidades de tecidos bordados e caríssimos para servirem de coberta para quem quer que seja. Que deixasse ela ali assim mesmo, que colocasse apenas jornais por baixo e por cima, principalmente por baixo, para impedir que qualquer líquido derramado sujasse o tapete.

Em seguida se dirigiu até a outra sala e discou o número do deputado, que atendeu no mesmo instante:

“Nobre deputado, como vai essa imponente e lúcida figura da política tupiniquim? Espero que esteja tudo correndo normalmente, com todos os contatos em dia, pois aqui me ocorreu um probleminha...”.

E o parlamentar nervosamente o interrompeu: “Mas será alguma coisa dizendo respeito àquele perigo ambulante da Carmen? Essa moça já tá tirando o meu sono e se a danada não fosse filha do senhor do agreste, de Severiano Badaró, essa hora já tava de osso mole. Mas o que foi mesmo? Desembuche logo...”. E o advogado continuou:

“Calma que tudo anda aparentemente normal. E não é nada que diga respeito à mocinha não. Com o tempo se dá um jeito nela. Mas vamos ao que interessa. As sentenças já saíram e tudo conforme o combinado, agora eles vão apodrecer na cadeia, como aliás já está apodrecendo a mãe de um deles, o Jozué, Dona Leontina, que não suportou ouvir os termos da sentença e deu um piripaqui, teve um ataque fulminante do coração e morreu aqui mesmo em minha sala. Uma a menos, uma menos, é preciso dar essa boa notícia ao Alfredinho Trinta Por Cento, pois ele haverá de gostar. Mas o problema é que estou precisando de sua influência parlamentar junto ao serviço funerário municipal para vir urgentemente até aqui remover o corpo e dar uma rápida destinação ao cadáver como indigente. Já sabe, vai ser jogada numa cova qualquer, num monturo desses e pronto, e estará esquecida para sempre. Nem o seu filho vai ficar sabendo de sua morte, também não precisa. E de qualquer jeito, pra aquele inferno que ele vai, aquela penitenciária que é também conhecida como o porta da morte, logo mais ele reencontrará sua mãe. As almas devem se reconhecer por lá. Mas deixe isso pra lá que tenho muitas coisas pra resolver. Mas preciso desse favor e que tome urgentemente as providências, que não quero demorar muito pra fazer uma limpeza total aqui no escritório. A conta logicamente que é sua, seu grande e necessário cafajeste...”.

O parlamentar gostou da qualificação e muito mais da notícia sobre o piripaqui da velha. Seria menos um voto, dois na verdade, mas isso era o de menos. Avisou ao advogado que providenciaria imediatamente o pretendido e terminou dizendo que isso tudo poderia ocorrer em dobro, pois não era difícil que a mãe de Paulo tivesse o mesmo destino.

Satisfeito com o acolhimento do deputado, retornou à sala e disse à mocinha que precisava sair e que ela mantivesse aquela porta fechada, só abrindo quando o pessoal da remoção chegasse. Alertou que não comentasse nada com ninguém sobre o ocorrido e que assim que o corpo fosse recolhido telefonasse para o serviço de limpeza e higienização. A empresa já saberia do que se tratava porque iria telefonar antes. E assim que a limpeza fosse feita ela podia ir embora e voltar somente no outro dia.

Antes de sair deixou um bilhete para ser entregue ao pessoal do serviço de recolhimento. E este dizia:

“De ordem do Deputado Serapião Procópio.

Recolham o corpo como se de indigente fosse. Na bolsa da vítima devem estar os documentos e outros papéis que possam indicar onde reside. Porém façam de conta que nada disso existe, pois mora sozinha, não tem filhos nem parentes aqui. Vivia sozinha, era de um interior muito distante, não tem ninguém que possa pranteá-la. É indigente, na mais usual concepção da palavra. Diga ao diretor que não me traga posteriores aborrecimentos. Enterrem a infeliz o mais rápido possível, sem que a imprensa saiba de nada e num desses caixões de ripas que vocês usam por aí. Depois o nobre deputado saberá agradecer pessoalmente ao diretor e sua prestimosa equipe. Com as considerações do Dr. Auto Valente”.

Assim que botou os pés fora da porta do escritório, eis que o advogado encontra com Dona Glorita e sua filha, que já iam chegando apavoradas, apreensivas demais para saber do resultado. Ao avistá-las Dr. Auto se recompôs e logo tratou de espalhar um largo sorriso no rosto. Avistando o homem daquele jeito, todo sorridente e afável, a inocente da filha cutucou a mãe e cochichou-lhe ao ouvido:

“Mãe de Deus, parece que Paulo foi absolvido!”.

continua...

Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

blograngel-sertao.blogspot.com