RESTOS DE VIDA

Observando a multidão a aglomerar-se ao derredor do caminhão caçamba, disputando ossos jogados fora pelo supermercado, recordei uns versos lidos não sei onde, “vi ontem um bicho na imundície do pátio catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu deus, era um homem.” Diante do desespero de nada ter para acudir a sorte dos filhos abandonados nos casebres insalubres e distantes, muitos tomaram a decisão de desabrigar de si o animal e, guiados pelo instinto tomar a dianteira dos cães, gatos e ratos, e chegar aos pedaços de ossos que mitigassem a fome da família. A carga de ossos parecia um desses milagres de que falam os pastores confiados em falsos messias, já que até o quilo de pé de frango e de vísceras de peixes se tornara proibitivo. Que reboliço doido! O caminhão ganhando velocidade e a multidão maltrapilha se jogando atabalhoadamente uns contra os outros, indiferentes ao perigo de atropelamento. Crianças, jovens, homens e mulheres, com saúde e debilitados, se misturavam aos cães de rua, formando o quadro pavoroso dos tempos de miséria. A realidade com a crueldade dos cravos me prostrara ao meio-fio. Por esta figuração, decerto aquele homem me confundira com quem estivesse a morrer de fome, com vontade de competir pelos ossos, mas, dominada pela vergonha, não se misturava à trupe molambuda. Por um instante questionei intimamente se a impressão deixada pelas roupas simples e os cabelos lavados levara aquele homem à confusão. Para ele, eu não expressava no rosto a indignação pelo que via, os traços da cara marcavam uma indecisão... E que indecisão seria a minha, refleti, depois de ele se aproximar e me deixar, entre curiosa e raivosa, tentando descobrir o sentido das palavras, que pescava do barulho do trânsito e do vozerio das pessoas. Tem algo que a senhora me faz e eu faço pela senhora. Não merece pegar osso... Tão bonita... Será que ouvi mesmo o tão bonita? Em suas faces, a mim, aquele homem trazia estampada a expressão dos cães famintos que olhavam os ossos a escorregarem das mãos dos bichos humanos, no aperreio da fome dos animais. Olhei-o estupefata. Reparando bem, afora a farda da guarda municipal, ele era uma pessoa igual a mim, sem tirar nem por, e nem desigual era dos que catavam restos, tirando a indumentária e a limpeza da pele, claro. Imaginei... É, fiquei imaginando, sim, prestes a explodir, que pelo ar soberbo e pela autoridade da farda que lhe dava ar dos graúdos cheios de mofinagem, ele se julgasse diferente e pela diferença pudesse, segundo seu metro, escolher e fazer de quem catava ossos, um osso que pudesse roer junto a um pé de muro qualquer, matando a fome de libertinagem. Quem ali não se remoia de problemas? Será que minha cara de flagelo tinha a ver em estar consumida pela dor da perda recente do marido com quem vivera por mais de vinte anos e que fora engolido pela pandemia, antes da vacinação salvadora? Homem bom que fora da idade, depois de dispensado da firma, se deixara amofinar até morrer, ficando eu, a viúva, a ver o INSS colocar obstáculos para autorizar a mísera pensão, depois de anos de contribuição? Ou viria da decisão que teria de tomar de mudar de casa por conta do aluguel chegado às alturas decretadas por tal IPCA que não sabia o que era, ou de deixar a filha sem estudos, se não conseguisse vaga numa escola da rede pública? Toquei-me de curiosidade em ver até onde ia aquele descarado com sua falta de escrúpulos. Fingi que me deixava seduzir pela lábia, afinal, tratava-se de figura conhecida, mesmo sem os esbarros um no outro, já nos víramos algumas vezes, entre as gôndolas do supermercado que despachava os ossos sabe-se lá para onde. E o que seria, faz o favor de dizer? Sabe... Tomou a indecisão achada em mim. Daí, o ar soberbo, antes presumido, virou o que era: só aparência, e a farda não passava de roupa usada por exigência da corporação. As palavras que eu esperava em falso sentido, vieram mansas, devagar, numa entonação de vento adulando as orelhas... A revelação impactou-me tanto quanto a corrida pelos restos me deixara sem chão. Aquele foi um encontro dos mais inusitados, nas histórias dos romances modernos. O caminhão se distanciou, a multidão se dispersou, e nós ficávamos a trocar frases, as primeiras reticentes, embrulhadas na desconfiança, as outras, em borbotões fartos e amigáveis. Cada um soube do outro o que ali fora fazer. Ambos moveram-se pelo acaso, dando às portas do supermercado, e ali se deparando com a cena humilhante. Presumira em mim a vergonha de aproveitar os restos, e sabedor de que eu ajudava o marido trabalhando como diarista, tomou coragem de perguntar se eu podia auxiliá-lo na fase difícil de dar ordem a uma casa vazia... O que podia pagar era pouco, mas se quisesse... Era viúvo de de poucos meses, tendo a pandemia levado a esposa e a única filha do casal. Bom... O final das histórias romanceadas nos cinema se dá com uma canção antecipando o the end, e nos livros de contos de fadas, o “... e foram felizes para sempre”. Essa estória não se sabe, ainda, se terá um the end feliz, mas até aqui, posso adiantar que muito me contentou saber que aquele bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato, aquele bicho, meu Deus, era um homem, um homem bom. Desde aquele dia, estamos a limpar as dores um do outro, com a força da compaixão, a mesma tida por aqueles que, trocando a dignidade pela sobrevivência, jogaram-se sobre o caminhão caçamba com ossos..