ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ALI O SILÊNCIO, ALI A SOLIDÃO... (75)

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ALI O SILÊNCIO, ALI A SOLIDÃO... (75)

Rangel Alves da Costa*

Por dentro da mata, Crisosta caminhava sem olhar para os lados, nem pra cima nem pra baixo, apenas seguindo. De chinelo rasteiro e já desgastado demais, talvez os espinhos já estivessem ultrapassando o que restava da borracha.

Os lanhos já apareciam nas pernas e nos braços; os garranchos pontiagudos, os espinhos nos galhos, os troncos descobertos, tudo se fazia inimigo da mocinha. Um filete de sangue despontava ali e acolá.

Em situações como tais, é como se a mata valente e cheia de armadilhas abrisse passagem sem causar dano maior. Noutra situação certamente faria o indivíduo tropeçar, cair, se ferir profundamente, ficar prostrado e tomado de dor. Mas por que, mesmo ferindo de vez em quando, se abria assim feito caminho em cuja direção algo aconteceria?

Inexplicável também era o fato de seguir sempre adiante como se a vereda já fosse demasiadamente conhecida pelo passo, quando a andante sequer tinha consciência para onde realmente estava indo, vez que apenas seguindo, seguindo, indo mais e mais.

Não estava enlouquecida, tomada de insanidade, sem qualquer juízo de discernimento. Contudo, também não estava agindo dentro da normalidade. Não poderia ser considerada normal uma pessoa que se mostrava alheia à realidade, tanto interna como externamente; não podia ser vista como plena de consciência uma pessoa que, ao menos naqueles instantes, não respondia a quaisquer impulsos sensitivos.

Ademais, não era natural que uma pessoa se ferisse sem demonstrar qualquer reação, se machucasse sem o rosto reproduzir a dor, se espinhasse e fosse atingida por lanhos nas pernas e nos braços e em nenhum momento voltasse o olhar espantado, dolorido, naquela direção.

As pessoas que agem com normalidade olham por onde caminham, lançam o olhar ao redor, de vez em quando param para prestar atenção ao desconhecido, caminham temerosas pelo pior que possa acontecer. E isto porque na mata, na moradia de bichos dóceis e indóceis, serpentes medonhas e peçonhentas, com mil labirintos desconhecidos ao redor.

Ora, mas se poderia afirmar que agia assim, seguia assim tão imprudentemente porque já conhecia tudo por ali. Mesmo assim nada justificativa essa caminhada alheia a toda e qualquer realidade, apenas seguindo adiante como fazem os sonâmbulos caminhando nas madrugadas ou fantasmas que levantam desnorteados de suas tumbas.

O olhar era vívido, aquoso, brilhoso, porém parecendo petrificado, sem mover a pupila, sem mexer os olhos para os lados, sem demonstrar mirar qualquer coisa. Talvez o corpo estivesse do mesmo modo, apenas agindo por impulso, sem comando mental algum.

Não seria errôneo afirmar que nesse passo, em tais condições, absorta de tudo, Crisosta não seguia em direção alguma, não encontraria mais adiante ponto algum definido para chegar. Por consequência, simplesmente caminharia e continuaria sem norte cada vez mais até se cansar. E ao descansar, se realmente tivesse sentido algum enfado, tomaria o mesmo rumo.

E eis o mistério de tudo: ela não seguia, era levada; ela não caminhava intencionalmente, era conduzida mentalmente; ela não tinha destino certo, apenas um lugar aonde desejava que ela fosse; ela não tinha nada a fazer nesse lugar, mas alguma coisa de si certamente tinha; ela olhava, mas não via, e não vendo, logicamente que seguia pelos passos de alguém que havia se arvorado de seus pés, do seu corpo. Mas quem seria?

Mistérios, mistérios, mistérios. Os grandes mistérios acontecem assim diante das pessoas. Não bastassem os desígnios, os destinos e as sinas, certas pessoas ainda têm de ser envolvidas com mistérios difíceis de desvendar.

Segundo seus parentes falecidos, ela caminhava pela estrada da morte, pois adiante a partida tão injusta a esperava; segundo o seu amiguinho e o seu irmão também já mortos, assim teria de acontecer, ainda que fosse para a morte aquela caminhada.

Fosse para o que fosse, verdade é que a mocinha não demorou muito a chegar ao destino. Seria ali o lugar do seu último suspiro, do seu adeus, de sua despedida, de sua morte? Que lugar era este?

Continua...

Poeta e cronista

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