ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ALI O SILÊNCIO, ALI A SOLIDÃO... (71)

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ALI O SILÊNCIO, ALI A SOLIDÃO... (71)

Rangel Alves da Costa*

E o rapazinho, mansamente envolto em véus de nuvens esvoaçantes, abriu um sorriso e respondeu à aflita irmã sobre o segredo prometido:

“Ah, sim, o segredo, o segredo. Mas eu não ia esquecer não. Tudo, menos esquecer o segredo. Jamais voltaria sem lhe falar sobre uma coisa boa. Lembra daquela pedrinha mana, aquela mesma que você um dia encontrou nas suas andanças e que guardava como se fosse um importante e valioso amuleto? Quando eu disse que partiria para o sul, você foi até o seu quarto e voltou com ela na mão. Me entregou a pedrinha num abraço e disse que ela serviria para me proteger aonde eu fosse e estivesse. E tudo na maior fé do mundo. Você acreditava que ela tinha um grande poder de proteção e que essa força também serviria para me dar amparo nos momentos difíceis. Acreditei em tudo que ouvi. Partindo de sua boca eu acreditava em tudo. Recebi o seu presentinho e guardei no bolso dizendo que o pequeno amuleto me acompanharia por todo lugar. Mas a verdade é que ela não foi comigo não. Quando eu já estava em cima do caminhão, não sei por que, não sei o que me passou pela cabeça naquela hora, mas a verdade é que botei a mão no bolso, encontrei a pedrinha e depois joguei ela bem longe. Não no meio do mato fechado, mas em direção à malhada da casa. E por mais que você tivesse andado ao redor, tenha vasculhado aquilo tudo, e mesmo quando a tempestade varreu tudo por cima da terra, ainda assim, e talvez milagrosamente, ela ficou por lá, e por lá continuou. Coisa do destino, as mãos de Deus fincando ela no mesmo lugar, mas a verdade é que continua por lá. Mas não mais naquele lugar onde caiu quando joguei, mas um pouco mais adiante dali...”.

“Onde?”. Outro grito da irmã, se derramando em lágrimas. E o rapazinho continuou, agora olhando pra cima e parecendo mais apressado:

“Não tenho mais muito tempo, mas vou tentar dizer tudo ligeiro. Depois de tanto conversar com o menino caçador sobre o assunto, esse mesmo que está doido pra falar aqui ao meu lado, ele achou tudo muito interessante e pensou fazer retornar a pedrinha até suas mãos de uma forma diferente. Ele mesmo já havia me contado sobre tudo que fez e tentou pra que você deixasse de tanta tristeza e procurasse colocar alegria no coração. Como nada daquilo havia dado certo, nem com o pequeno jardim nem com as flores, então achou que só teria um meio de fazer você enxergar a realidade da vida, que você pudesse ver que muitas coisas boas acontecem ao redor e por todo lugar. E com isso querendo dizer também que uma realidade nova estará ao seu alcance assim que quiser...”.

“Mas não estou entendendo aonde quer chegar!”. Disse Crisosta, para ouvir em seguida:

“Calma maninha, calma. Depois que a gente discutiu isso tudo lá em cima, então decidiu que aquela pedrinha seria como um portal para você avistar o que acontece de bom por aí, e quem sabe assim toma encorajamento para mudar esse jeito tristonho e melancólico de ser. Então, ontem mesmo fomos até o local onde ela continuava escondida, retiramos de lá e no meio da noite jogamos ela na sua porta. Não era pra assustar, mas para ver se logo cedinho, nessa manhã, você procuraria ao redor da porta aquilo que havia batido nela e feito barulho. Não sei explicar por que, mas só foi permitido que a gente fizesse aquilo, jogasse a pedrinha, naquela hora da noite. Mas é preciso que vá até lá e procure. Logo pertinho de uns garranchos, quase junto à parede, ela será encontrada. Mas vou deixar para o seu amiguinho caçador explicar como essa pedrinha poderá transformar sua vida”.

E apressadamente, tentando colocar um sorriso na face, o menino começou a falar:

“Vou começar repetindo o que já tentei por diversas vezes colocar na sua cabeça: nem adianta procurar a pedrinha se não fizer com o coração esvaziado de angústia o que vai ouvir. Pois bem, cabe a você Crisosta. E será sua última chance. Ouviu bem, será sua última chance. Agora ouça com atenção. Procure a pedrinha, deixe bem limpinha, depois levante ela com a mão direita em direção ao sol. Se quiser pode fazer à noite, levantando em direção à lua cheia e brilhosa. Com ela levantada, preste bem atenção no que vai ver adiante de seus olhos...”.

E disse apenas, antes de se despedir: “Agora vá conhecer o mundo, outra vida que também existe”. E os dois foram sumindo sorridentes. E num segundo não havia mais nada diante dela.

Atônita, verdadeiramente não lembrava mais o que tinha ouvido nem o que deveria fazer.

Continua...

Poeta e cronista

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