ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ÁGUA DE BEBER

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ÁGUA DE BEBER

Rangel Alves da Costa*

Conto o que me contaram...

O velho olhou pra mim, com aquela secura profunda no olhar sertanejo, e disse:

“O sertão é tudo e tem de tudo, toda essa maravia que a gente vê, que sente, que gosta. Mai no sertão num tem nada, fica tudo feio e isquisito se num tem água de beber. Água de beber é tudo, meu fio, poi sem o tiquinho se derramano na caneca pá moiá a goela da gente num somo nada...”.

Palavras tristes a do velho, respondendo a minhas insistentes perguntas acerca de como era ser sertanejo e viver numa situação daquelas de estiagem, de seca inclemente, sem chuva já há mais de dois anos. Depois eu conto o resto, mas sobre a água de beber, pela tristeza poética com que relatou, me sinto no dever de lembrar agora.

E o velho continuou com sua sabedoria, com sua profunda filosofia matuta:

“Quano a seca vem e cum mais tempo tudo começa a esturricá, entonce a gente já sente quantos tipo de água a gente passa a ter. E isso pruquê além da água de beber tomem existe outas água de época de estiage. Tem a água do bicho, que á aquela saloba do riachim, do fundo do poço cavado, e que a gente sabe que eles bebe só pá enganá a boca, poi lá dento é muito pió, num sargamento que num acaba mai...”.

Então perguntei se não era pior que os animais bebessem dessa água salgada, vez que a sede pode ser redobrada depois. E ele respondeu:

“E pruquê é que os bicho geme tanto, berra tanto e diferente na época da seca grande? Pru causa disso mermo, pruquê se corrói da água sargada pru dento e num tem outa água pá acarmar a situação. E se a gente for dar aos bichim o restim da água mió, entonce quem vai morrer é a gente...”. E continuou:

“Mai cuma eu dixe, além da água de bicho, que é aquela sargada do fundo do riachim, tem tomem as água de pranta que a pórpia natureza bebe que é pá num secá de veiz. Vosmicê se num sabe vai ficá sabeno, mai tem muita água de pranta pru dento dessa mataria. A gente num vê não, mai cada pranta dessa, cada auve é cheia de munta água escondida nas foia, nas raiz, nos tronco e todo lugar. Cuma a natureza é sabida demai, entonce vai guardano tudim pá os momento de percisão, e quano a seca bate feroiz entonce vai bebendo aquilo que guardou. Mas se fartá água pru lá entonce é siná que a gente num tem nem mai um tiquim de água de beber...”.

Perguntei como eles faziam para não deixar faltar a água de beber. E ouvi:

“A gente reza, a gente ora, se ajoeia devotado ainda mais ao bom Deus pedino pru tudo na vida que num premita que acunteça uma desgraceira maió. E quano os pote já tão lameano, quano a moringa fica difice de encher, quano a gente passa a ter mai sede do que água, entonce é um desespero. Tem gente que vai simbora, tem gente que num tem pá donde ir e vai ficano aqui mermo no sofimento. Mai sempe orano, sempe rezano, sempe fazeno pormessa, e até porcissão a gente faiz. E quano a gente pensa que num tem mai jeito, entonce se abre as tornera do céu, na voz de Deus abençoado. E entonce é uma festa seu moço, uma festa de arrumá inté sabunete pá tomá banho debaxo das gotera, no meio do tempo. E é assim que sempe vem a nossa sarvação”.

Poeta e cronista

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