ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: AS COISAS E SEUS SIGNIFICADOS

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: AS COISAS E SEUS SIGNIFICADOS

Rangel Alves da Costa*

Conto o que me contaram...

Nas andanças pelo meu sertão, coisa que faço bastando botar o pé fora da porta de casa, já ouvi causos e estórias de encher o embornal de conhecimentos mais que prazerosos. Ouvindo os velhos sábios do sertão, acabei descobrindo que quase nada sei e ainda por cima duvidando do conhecimento acadêmico.

Certa feita, seguindo estrada adiante em busca do sossego dos descampados, avistei uma casinha muito humilde e à sua frente, já perto de um pé de umbuzeiro, um velho sentado numa pedra, olhando para o mundo ao redor e fumando seu cachimbo.

Dei boa tarde, fui me aproximando, pedi pra ir mais adiante, e logo a mão acenou para outra pedra mais adiante, quase em frente a que estava. Era sinal de acolhida e de aceitação, gesticulando ainda que eu fosse sentar ali. E fui.

Cheguei, sentei, procurei logo puxar conversa. Fiz uma pergunta, duas, três, e nada de o homem responder. Continuava dando suas baforadas e olhando para cima e para os arredores, como se investigasse o firmamento e a paisagem ressequida ao redor. E fiz mais perguntas para sentir sua reação, porém quando abriu a boca foi exatamente para fazer uma indagação:

“Vosmicê sabe o que é o céu, meu fio? Entonce diga o que o céu...”. Respondi o que sabia e ele balançou a cabeça como a dizer que não era nada daquilo do que eu sabia. Mas logo deu a resposta a seu modo:

“Céu é aquela parte de cima que está esperando a pessoa querer enxergar o que tem do outro lado. Mas é tão alto que só pode alcançar quem não se acha grande demais na terra. Agora me diga, vosmicê sabe o que é fome?”. Respondi tudo o que sabia. Mas quanto mais falava mais ele sinalizava dizendo que não. E deu seu conceito:

“Meu fio, fome nada mais é do que um costume ruim que a pessoa tem. E costume ruim pruquê se acostumou a comer demai sem ter precisão pra tanta gulodice. Se a pessoa só comesse um tiquinho, entonce a fome nem chegava, nem existia. E agora me arresponda: vosmicê sabe o que é a vida?”.

Comecei a relatar tudo o que sabia sobre a vida e quanto mais falava mais ele negava minha concepção. Mas disse o que era:

“Vida num é nada de importante. Num é tudo que a pessoa tem nem nada. Se vida fosse arguma coisa ninguém fazia o que faiz com ela, não desrespeitava tanto, tinha muito mais cuidado com ela. Entonce, meu fio, pode ter certeza que vida nada mai é do que a bondade de Deus pro homi. Deus sopra e manda viver e o homi aos pouco vai acabano, destruino aquilo que Deus lhe deu. Isso é a vida, aquilo dado por Deus e aquilo que é destruído pela própria pessoa. Mas só outra preguntinha: o que é Deus pra vosmicê, meu fio?”.

E falei mais de dez minutos sobre Deus, filosófica e religiosamente, porém quanto mais eu falava mais ele olhava pra cima e balançava a cabeça, sinalizando que não era nada daquilo. Mas me disse o que e quem era Deus:

“Deus num é nada daquilo que o padre diz, nem o que a pintura mostra, nem o que a religião quer. Cuma num podem mostrar o invisive nem o que tá dento do coração de cada um, entonce inventam essa coisa. Siria mai justo mostrar Deus no grão de areia, no pedaço de pau, no vento que sopra. E ele é tão isso tudo que basta aquerditá que ele é isso tudo pra ele ser isso tudo mermo em cada um”.

Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

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