ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: NOS TEMPOS DA NATUREZA

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: NOS TEMPOS DA NATUREZA

Rangel Alves da Costa*

Conto o que me contaram...

Dizem que num tempo secular, bem antes e muito antes desse nosso tempo, quando a natureza ainda primava pela exuberância, altivez, força e saúde, os seres, entes, viventes e nascidos nas florestas, matas e matarias, tinham uma relação mais que curiosa.

Feito gente, porém sem ter o pecado original nem outros pecados próprios da pessoa, o pé de pau reinava imponente no reino florestal. Uma briga feroz por comando se via no reino dos bichos; e uma acirrada disputa se percebia perante os outros seres que encantavam as entranhas da vida verde.

Relatos perdidos no tempo dão conta que a cobra grande era tida como a principal responsável pelo desbravamento da mata fechada e quase impenetrável. Rastejando por cima e por baixo de tudo, vencendo pedras e empecilhos, a grande serpente ia rastejando e deixando no seu rastro liso as veredas abertas, os caminhos logo conhecidos pelos outros animais.

Os pinheiros mais altos se agigantavam pelos ares e com o seu olho veloz via tudo que se passava ao redor. Como estava mais perto das nuvens, muitos vezes dizia a estas que por enquanto ali estava tudo encharcado demais, estava gotejando em cada ponta de folha, e que por isso mesmo fizesse o favor de ir jorrar trovoada mais adiante, noutro lugar mais precisado de chuva.

O barulho era tanto, o farfalhar era tanto, a algazarra era tanta que o João de Barro não suportou mais e foi reclamar à castanheira, que era uma espécie de apaziguadora de conflitos. Disse que por mais que fizesse sua casinha com o barro mais consistente e firme que existisse, ainda assim não havia parede que suportasse tanto barulho, pois tudo se tremia e rachava, chegando ao ponto de uma vez despencar lá de cima com sua amada. E agora era viúvo...

A castanheira mandou a arara azul sair gritando por todos os lugares e convidando todos os seres ou seus representantes para uma importante e inadiável reunião. O jacaré confirmou, a onça pintada disse que não faltaria, o macaco-prego afirmou que seria o primeiro a chegar. Pela resposta que deram, certamente não faltaria ninguém.

Mas na hora e momento, por mais que a castanheira atrasasse o relógio do tempo, pedisse ao sol para se demorar um pouco mais, ainda assim ninguém apareceu, nem mesmo a arara mensageira. Por ali só deu as caras uma rolinha fogo-pagô cheia de recados e desculpas enviados pelos faltosos.

A pedra e a tartaruga mandaram dizer que discutiam um assunto muito sério há mais de dez anos e por isso mesmo não poderiam interromper o assunto, que ainda estava no começo. A cobra escreveu dizendo que estava muito revoltada em ser vista como bicho ruim e traiçoeiro e que achava melhor se afastar de todos, se esconder pelas tocas. O duende pediu para informar que não faria sentido ele aparecer assim na frente de todos, vez que perderia todo seu encantamento e magia.

Desgostosa com a atitude, a castanheira teve uma desilusão tão grande que até hoje seus olhos não servem para mais nada senão chorar. E do alto de sua imponência triste apenas ouve um pássaro ou outro passando e dizendo que não bastasse a desunião dos seres da natureza, ainda por cima chegaram pessoas, perigosos forasteiros, dispostos a acabar com o que na floresta ainda resta.

Poeta e cronista

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