ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: AURORA DA MINHA VIDA

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: AURORA DA MINHA VIDA

Rangel Alves da Costa*

Conto o que me contaram...

Mas dessa vez não precisam me contar não. Sei de tudo. E sei de tudo porque não esqueci nada do melhor tempo do mundo, tempo de infância, prazeres e descobertas.

Calça curta, cabelo na brilhantina, parecia um homenzinho todo cheio de perfume. Dar a mão à minha mãe, sair para a missa, visitar parentes, compromissos sociais demais para a idade.

E a cada passo um olhar para os lados e para trás, com uma vontade danada de largar a mão e sair correndo em direção aos meninos que corriam, que brincavam de bola, de cavalo de pau, de bola de gude.

Um estava soltando pipa, o outro puxando um carrinho de madeira, e mais dois abrindo buraco no chão pra brincar de bola de gude. Ouvia canto de passarinho e sabia de onde vinha, pois eu mesmo havia acompanhado o amigo na armação da arapuca para pegar coleirinho, cabeça e rolinha fogo-pagô.

Minha mãe sentia a minha aflição, segurava mais fortemente na mão enquanto dizia que na volta eu teria a chance de brincar. Pelas casas aonde ia me ofereciam bolo de milho e de ovos, suco de goiaba e de mangaba, mas achava tudo isso chato demais.

Tentavam me empanturrar com isso ou aquilo enfornado, caramelado, bem ou mal passado, mas trocaria um pedação de bolo por um pirulito, um taquinho de cocada, uma mariola, um puxa-puxa. Algodão doce não, pois só mesmo em dias de quermesse e na festa da padroeira.

Olhava da janela e via pipa no ar, papagaio subindo, rodopiando, fazendo curvas mirabolantes e se enroscando nos pés de paus. Achava bonito demais quem tinha a arte de cortar e dobrar papel, colar na vareta, trazer a linha e fazer o brinquedo enfeitado, multicolorido, subir em ziguezague, numa dança mágica.

Sorria por dentro quando chegava o momento do retorno. Apressando o passo, muitas vezes puxava a mão de minha mãe com mais força, como se dissesse que vamos logo, se apresse, ande logo que quero tirar esse sapato, essa roupa, desfazer de tudo e viver a vida que tanto gosto.

Como era bom ficar quase nu, ficar despreocupado com penteado e ajuste de roupa, ficar apenas eu mesmo, menino danado e reinoso, louco pra tomar logo assento no meu reinado de criancice lá fora, no meio do mundo, no meio da rua, rodeado daqueles de minha idade, todos vivendo o seu maravilhoso momento de felicidade.

Minha mãe brigava sempre, mas preferia brincar descalço, só de calção, todo assanhado no cabelo e no brincar. E de vez em quando ainda tinha tempo de fugir do olhar da janela e descambar lá pras bandas do riachinho. E que banho gostoso que era, tendo depois que me sujar novamente pra não delatar a fuga e apanhar na bunda.

Mas bom mesmo era quando chovia, e chuva forte de invernada, correndo nu pelas ruas e esquinas e me sentindo vestido de mim mesmo. Criança. Menino na aurora de sua vida.

Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

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