A ROSA DOURADA

Esta história é verídica, mas nada indica que realmente tenha acontecido. A despeito do paradoxo, a história assim se inicia:

***

Seus pequenos olhos corriam sem compromisso à procura de novidades. Tarefa nada difícil. Cores, formas, sons, sabores, sensações. Em cada tentativa uma nova descoberta. O mundo não se limitava apenas aos seus contornos lógicos e leis ilógicas, mas expandia-se sem controle em todas as direções. Não em busca de respostas, mas de perguntas. Tão melhores as questões quanto mais irreais. Nem mesmo os sonhos possuíam patente mais alta no mundo da fantasia que a sua própria realidade. Pelo contrário, se abraçavam e confundiam-se, dando mais graça e menos razão para um mundo que já não tinha classificação. Acordar e dormir não eram transições, mas apenas ações casuais como quaisquer outras, como sentir a água descendo pela garganta seca. Não existia, de fato, uma realidade. Não para alguém que jamais tenha sido reprimido pela forte censura do medo. Não para alguém que jamais tenha tido um pesadelo. Não para ele.

A temperatura do sol que lhe aquecia as costas nuas acentuou-se discretamente, e isso já foi uma sensação completamente nova. Se em sua modesta gama de aprendizado constasse o contrato corporal de reconhecimento, se levantaria para bater palmas ao astro-rei pela incrível atuação. Olhou para aquela bela e inseparável mulher sentada perto de si e ficou confuso. Ela não mudara sequer de expressão, e parecia não notar o belo espetáculo que acabava de acontecer. E a estranheza que isso lhe causava gerou outra inédita sensação. E tudo continuava a lhe provocar. A brisa mudando de vigor e direção, a grama lhe coçando as coxas, a formiga subindo-lhe pelo braço miúdo. Não negava nem ignorava nada disso. Aceitava cada pequeno acontecimento.

Recuperou a atenção que o sol lhe roubara e virou-se. Seus dedos ainda se encontravam mergulhados entre algumas folhas baixas. Acariciava cada uma de modo carinhoso, e permitia que essas lhe lambessem a mão em forma de agradecimento. Olhava tudo com atenção, e tentava entender as semelhanças e diferenças de textura e matizes. Gostava muito do que estava ao seu alcance, mas o que mais lhe causava furor eram as rosas, que não estavam. Apesar de já ter ido inúmeras vezes ao quintal, jamais as tinha visto tão de perto. Eram magníficas. Dançavam no ritmo do vento e pareciam esforçar-se para lhe impressionar mais, quanto maior era seu deslumbre.

Todas se pintavam de vermelho, mas possuíam diferentes tons. E em cada tom, um despropósito diferente. Seu cheiro lhe invadia as narinas, sem permitir que nenhum outro odor se acomodasse entre o sentido impuro e o prazer pudico. Seu olhar curioso parecia ter se transformado em uma admiração profunda. Uma distância maior do que a de seus braços os separava. Desejava-as e não podia mais ficar apenas as contemplando. Precisava tocá-las.

Estava sentado, da mesma maneira que tinha sido deixado ali, e dessa forma não seria capaz de alcançá-las. Começou a se mexer sem coordenação, tentando descobrir qual eram o movimento e o impulso certo que deveria tomar para aproximar-se da razão de seu deslumbre. Seu sentido de urgência e sua animação precipitada acabaram por lhe fazer cair de costas na grama. Prostrou-se novamente sentado, ajeitou-se e decidiu persistir em seu intento.

Ajeitando os joelhos, apoiou com firmeza as suas mãos na grama, formando uma base firme. Não sabia se era exatamente assim que deveria fazer, mas já se encontrava mais próximo das rosas agora, porém não tinha mais as mãos para chegar a elas. Ainda com as mãos no chão, começou a buscar o apoio das solas de seus pés. Primeiro o pé direito, depois o esquerdo. Fazia um esforço jamais experimentado antes. Um sacrifício honroso pela razão nobre de reparar a distância de um amor ainda não vivido.

Primeiro tirou a mão direita do chão, quase caindo para o mesmo lado. Assustou-se e colocou a mão de volta. Tentou novamente, dessa vez fazendo um peso para o lado contrário, e logo já tinha tirado a mão do chão. Quantas sensações! A força invisível que o empurrava, a força que ele mesmo tinha de fazer para manter-se equilibrado, a ânsia temerária do desejo não saciado. Enquanto continuava sua busca, ia sorrindo sobre todas essas outras descobertas.

Tirou a mão esquerda. Resolveu ter mais cautela, prevenido pelos riscos da aventura que havia enfrentado com a outra mão. Tão logo começou a tirá-la do chão, sentiu que a força o empurrava, dessa vez, para frente. Foi se equilibrando vagarosamente, na mesma velocidade em que tirava a mão do chão. Quando deu por si, encontrava-se de pé.

Mantinha-se ali, afastado da grama, apenas com a força das próprias pernas, experimentando uma enganosa sensação de poder e independência. Sentia-se tão dono de si que, por um momento, esqueceu-se de seu verdadeiro propósito. Assim que lhe ocorreu o verdadeiro motivo de sua nova conquista, sentiu-se enganado pelo próprio egoísmo.

Voltou-se para as rosas e se espantou. Mal podia acreditar o quão próximas estavam. Tudo se tornara mais nítido agora. Cores, cheiros e formas. Seu coração batia mais rápido, e seus olhos mal piscavam. Esticou o braço em busca do paraíso tangível, e tocou-as. Um formigamento correu seu braço, suas costas, suas pernas e sua nuca. Sentia pela primeira vez um calafrio. Entendeu que nesse instante singular unem-se sensações e pensamentos. As rosas continuavam a dançar entre seus dedos, seus perfumes a se reinventar seu olfato, e suas cores a confundir-lhe as ideias. E então compreendeu que as amava.

A mulher, que até então se encontrava irredutível em sua cadeira de balanço, levantou-se em um impulso. Contente pela cena que presenciava começou a gritar:

- Venham aqui fora, venham ver! Ele ficou de pé! Conseguiu ficar de pé sozinho! Venham correndo ver!

O menino, que não se distraiu de sua recompensa nem mesmo com os gritos entusiasmados, notou então um brilho intenso. Esticou seus pés para tentar enxergar a fonte da refulgência, quase caindo para trás.

O que via ia muito além de tudo o que já tinha visto até então. Completamente atônito, se deixava dominar pela esplêndida visão. Uma rosa dourada. Prostrava-se, acima das outras, exibida, extravagante e soberana. Ganhava mais e mais corpo, quanto mais era apreciada. Seu poder era inebriante, pois ela ardia como o sol. Esqueceu-se das rosas vermelhas, como se nunca antes as tivesse visto, pois elas não importavam mais. A rosa dourada era inigualável. Era a única realidade, e tudo à sua volta era ilusão, inclusive a existência daquele, por ela maravilhado. Percebeu que acabara de encontrar a mais linda de todas as rosas.

Virou-se para aquela mulher que há pouco festejava como efeito de comparação, pois aquela era a única que ainda amava acima da rosa, e surpreendeu-se. Ela também olhava para a flor. Porém, seu rosto era de pavor, de completo assombro. Um terror devastador invadiu seu corpo, e o calafrio que sentiu desta vez não foi agradável como o anterior. Perdeu a força nas pernas, quase caindo. Sentiu, pela primeira vez, o medo.

Voltou-se para a flor novamente. Aquela rosa, que antes ostentava um belo vestido dourado cintilante, agora ia se tornando marrom, imunda e opaca. Roubava todo o brilho e alegria à sua volta, como alimento para seu crescimento desgovernado. Sentiu-se confuso. Não entendia porque lhe fora negado o direito de apreciar mais e para sempre a beleza daquilo que amara. Seu medo crescia mais do que a própria rosa.

Tentou, então, utilizar seu único instrumento de entendimento para encontrar alguma razão àquilo que não tinha explicação e esticou a mão em sua direção. Seus dedos, buscando o toque esclarecedor, cobriam parte da rosa de sua vista, pois se entrepunham entre seus olhos e a imagem da flor. O momento contato, para ele, parecia impossível, e de fato o era. Sua singela noção de profundidade não lhe permitia notar que a flor não estava a centímetros, mas a dezenas de quilômetros do instante do toque. Ele não a iria alcançar, mas ela veio em sua direção.

Seus dedos começaram a desaparecer no ar bem frente a seus olhos, a poucos palmos de seu nariz, como se nunca antes tivessem existido. Depois dos dedos, a mão. O braço e todo o resto de seu corpo foram consumidos pela luz mortal. A mulher também desapareceu em pleno ar, assim como a casa e tudo o que havia atrás dela. Nada disso ele pode notar, pois a velocidade da devastação impiedosa foi extremamente menor do que o tempo necessário para que o cérebro percebea a dor. A fantasia acabara. Só havia a realidade.

Não chegou a entender que aquela flor letal não distinguia-se de suas primas apenas pela cor, e que essa era a menor das diferenças, pois ela não fora gerada pela sabedoria imensurável da natureza, mas pela estupidez mórbida dos homens.

A arma de destruição em massa, que converteu carne em pó, havia condenado até mesmo aquele que não sabia o que é ser inocente.

E o menino, que outrora as amou cegamente, morreu odiando as rosas.

Josadarck
Enviado por Josadarck em 07/11/2010
Reeditado em 29/04/2011
Código do texto: T2601467
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