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CLASSE MÉDIA

FICÇÃO
SÃO BETO

  CLASSE MÉDIA      FICÇÃO
                          SÃO BETO

A notícia deveria cair como uma bomba, mas a bomba falhou. Se Antonieta tivesse trazido a notícia do nascimento de um macaco prego em cativeiro, num zoológico da China, não causaria o menor impacto.
 Assim foi a notícia da morte do Amaral;
 – O Diretor de departamento, mandou avisar, que o enterro será amanhã, quarta- feira às onze horas. A seção está dispensada para as exéquias do nosso querido chefe.
 Aquela sim, com perdão da irreverência, era uma notícia alvissareira.   Quarta feira, véspera de feriadão da semana santa, ao meio dia, depois todo mundo estaria livre para gozar os quatro dias de feriadão.
- Mas, não vai ser mole assim, lembrou Guimarães.  O diretor de departamento também vai. É bom que todos estejam lá, se quiserem um álibi para faltar ao expediente.
  – Quando a esmola é demais, o santo desconfia, resmungou Reginaldo.
- Mas, eu já vou com as malas no carro.  De lá mesmo eu pego a estrada pra Rio das Ostras, que eu não sou besta!
Na verdade, ninguém mais trabalhou  naquele segundo expediente de terça feira. Trabalho mesmo, foi só o de planejar  um meio de conciliar o dever cristão social , ou seja lá o que for, com os preparativos para o tão esperado feriadão.
Guimarães, que nessas horas, sempre se mostrava um bom político e articulador, fez valer o seu talento natural de liderança.
- O negócio é todo mundo chegar cedo, pra dar a impressão  que passamos a noite lá no velório. Quando o Diretor chegar, vai encontrar todo mundo lá e com cara de sono e consternação.
- Que tal se a gente levar uma coroa de flores?  Lembrou Lurdeca que adorava  solenidades, de qualquer tipo.
– Não é caro, e a gente faz uma vaquinha. Dá uma mixaria pra cada um!
A idéia foi aprovada. Até o Valadão, pão duro assumido,  para o espanto de todos mandou essa: - Faço questão de participar, (e com um risinho sádico de canto da boca): - E com muito prazer.
Tudo já estava muito bem amarrado e decidido quanto aos procedimentos a seguir no funeral do velho funcionário e chefe da Seção de Protocolo e Arquivo.  Só faltava escolher uma frase bem sugestiva para escrever na coroa. Mas, isto ficou para ser discutido no boteco, entre umas e outras geladas para dar inspiração, que ninguém é de ferro. Antonieta mandou a sua:
- Ao Honorável chefe...
– Honorável é o cacete, gritou Barbosinha  que até então não havia se manifestado.
- Sem rasgação de seda, hipocrisia tem limites!
Lurdeca mandou a dela:
- O ADEUS DOS AMIGOS Á ESTE GRANDE SER HUMANO...
Guimarães não agüentou...
- Puta que pariu!!! Não ouviu o Barbosinha?
 Hipocrisia tem limites, e completou:
- Esta é por justiça uma prerrogativa do Barbosinha.
– Esteja á vontade Barbosinha... Eu estava pensando em: JUSTA HOMENAGEM  AO COLEGA GENECY POSSIDÔNIO DO AMARAL.
Foi uma gargalhada geral.  Amaral odiava o próprio nome, e evitava o quanto podia, pronunciar, escrever, ou que alguém  ficasse sabendo se não fosse em caso de extrema necessidade.  A idéia agradou em cheio.  – Não é melhor tirar o Genicy?  Ponderou Guimarães. _
 Não é de bom tom, sacanear o decujo além do necessário.
Eu acho é pouco, sentenciou Valadão, que nunca escondeu o seu desprezo pelo chefe, e acrescentou:
- Por mim, já vai tarde!
E para completar, contando ninguém acredita,  pagou uma rodada de cerveja, com tira gosto e tudo.
 Amaral, em todos os anos de serviço público,  não tinha um só amigo. Não participava de eventos, não convidava, nem era convidado, para festas, batizados, casamentos,.. Uma rodada de  chopp depois  do expediente, nem pensar ,  chefe da seção de  Protocolo e Arquivo, desde 1970,  jamais conseguiu passar dali!
Outros colegas, alguns com menos tempo de repartição, faziam carreira, e eram promovidos. O próprio Diretor de Departamento fora seu funcionário. Não era prestigiado pelos seus superiores, e como se não bastasse, era ridicularizado pelos colegas do mesmo nível, e sacaneado pelos subalternos, que se referiam á ele, pelas costas é lógico, como Dr. Memorando.
Recebeu esse apelido, devido á uma obsessão, quase doentia, de transformar aquela prosaica seção, em alguma coisa mais importante, quiçá fundamental  para o bom andamento  do serviço público.
 Adorava e tinha ciúmes de seus adorados carimbos. Carimbava tudo antes de assinar ou rubricar. com o seu preferido:  SEÇÃO DE EXPEDIENTE PROTOCOLO E ARQUIVO,  com uma linha pontilhada, encimando a palavra  CHEFE.  Além de outros não menos queridos:  ENVIADO EM...../...../.... RECEBIDO EM.... /...../...... , EM DILIGÊNCIA, AGUARDANDO DOCUMENTAÇÃO, ETC, ETC...
Antes de se tornar chefe, não passava de um funcionário subalterno, sem a menor chance de passar daquilo.  O chefe era o Heraldo Barbosa, o Babosinha para os íntimos.  E como ele era íntimo de todo mundo...
Ninguém esqueceu o triste acontecimento que marcou a alma de todos os  presentes  ou que ficaram sabendo depois.
Eles entraram gritando e aterrorizando, principalmente as funcionárias que não entendiam a razão de tanta truculência, empunhando arma e empurrando todo mundo, sem a menor necessidade.
 Eles só queriam prender uma única pessoa.  A mais camarada e gentil das criaturas. Levaram algemado e debaixo de empurrões e ofensas, o nosso querido  Barbosinha.
Antes de sair, o capitão, que era o comandante do grupo, ainda decretou:
- Vocês vão para casa e voltem segunda-feira! Expediente normal!
Na segunda-feira, depois de um fim de semana de terror psicológico,  os funcionários foram chegando  ressabiados e deram com a mais desagradável das desagradáveis surpresas, Amaral engravatado, parecia um manequim de porta de loja, aboletado na mesa  do Barbosinha.
- Agora eu sou o novo chefe da seção, vamos trabalhar...  Ninguém contestou, e não era difícil adivinhar, Amaral era um delator. Lacaio da ditadura. Vendera a alma ao diabo.  O  Diabo paga, mas cobra a entrega.
      Até esse dia, ninguém tinha raiva do Amaral, embora não simpatizassem com ele. Aturavam em consideração ao chefe que tinha pena dele e tentava ajudá-lo. Mas, o bichinho além de relapso era burro de doer.  Agora como chefe, nem dava para imaginar as cagadas que iria cometer.  O safado teve então, talvez, a única ideia inteligente  na vida. Conseguir nomear o Valadão como subchefe, que teria que trabalhar, enquanto  ele assinava a papelada.  Era reacionário por egoísmo e pra ficar do lado do poder, não tinha ideologia, gratidão ou generosidade.
Inveja do Barbosinha isso ele tinha, e muita. Queria tudo que era  dele: A simpatia dos colegas, a admiração dos superiores...  Porém, o que ele mais queria, e com loucura, era Isaura, a bela Isaura, que não escondia a sua preferência por Barbosinha seu chefe, a quem bajulava sem o menor pudor. Mas, não perdeu a oportunidade, quando no auge da neurose anticomunista,  vislumbrou a grande chance de sua vida.  Delatou  o chefe, como um perigoso agente  vermelho á serviço de Moscou.
Com a prisão do colega e chefe, Amaral assumiu o cargo, era o prêmio pela delação, muito comum na época.
Levou o cargo, e só. Nem a amizade dos colegas, nem o respeito dos superiores.  Valadão, não queria assumir a subchefia. Achava vergonhoso ter que dirigir a sessão, enquanto aquele mentecapto posava de chefe.  Foi Guimarães quem o convenceu.
–Se você não aceitar, ele arranja outro, e nós precisamos de alguém do nosso lado.
E assim ficou acertado.   Amaral posaria de chefe, como uma figura decorativa.  Firmaram um pacto: Ninguém falaria com o safado uma única palavra além do necessário,  e só assunto de serviço.
Daí o espanto, quando numa reunião na casa do Guimarães,  com o pessoal já meio alegre de cerveja,  Isaura anunciou que iria se casar com o Amaral,  Guimarães chegou a se engasgar, e ninguém acreditava no que estava ouvindo.
Logo ela que era doida pra acabar com a alegria do delator.  Só mesmo por um motivo muito sério. E havia um motivo.  Isaura não conhecia limites para amar ou odiar, Era de uma determinação assustadora.
– É isso mesmo. Vou me casar com o canalha do Amaral e vocês podem apostar, para cada dia que Barbosinha ficar na prisão, será  um dia de inferno na vida do Amaral.  Mas. Isso não deve sair daqui!
A idéia de infernizar a vida do  sujeito, mesmo sendo o pulha do Amaral, parecia por demais diabólica.. Isaura entregaria a sua vida por uma vingança que era de todos.
– Não está certo você se sacrificar sozinha Isaura,  pediu que ela desistisse do plano. - Aquilo não vale um traque!
           Amaral não ligou para o gelo  com que era tratado pelos seus antigos colegas, agora subalternos.
- Que se danem!
Pertencia agora a outra categoria, pensava, a dos graduados. Seu ambiente era outro. Ledo engano. Era um delator, não merecia respeito. Bajulava os diretores indicados pela ditadura, idolatrava os poderosos, mas, tinha a alma de lacaio, lambe-botas, capacho...
 Percebeu tarde demais, os poderosos corrompem, pagam se utilizam deles, mas os desprezam. Não são confiáveis. Amaral só poderia usufruir de verdade, era da gorda função gratificada, que era três vezes maior  que o seu vencimento de  escriturário nível 10. Queria ser um chefe linha dura, temido e respeitado pelos subalternos. Mais um sonho frustrado. Na primeira vez que  tentou bancar  autoridade,  os seus funcionários, só de sacanagem, e com a cumplicidade do  subchefe Valadão, não encaminharam mais um só ofício  ou desarquivaram um processo, sem pedir  orientação ou permissão por escrito  do chefe.  Foi um desastre. No final do expediente, e com a mesa abarrotada de papeis, foi obrigado a pedir socorro  ao Valadão, e assumir a sua incompetência. Daí em diante, limitou-se apenas  a carimbar e assinar memorandos sem importância.
      Com o tempo as coisas foram se acomodando. Havia muito espaço para   jogadas  bem lucrativas, numa indústria  de dificuldades, que alimentava  e abastecia um comercio de facilidades.  Toda a cúpula do poder se locupletava menos o Amaral, que não participava por incompetência, e por não ser confiável.  Um delator é sempre um delator. Mesmo assim, pegava umas migalhas que apareciam  misteriosamente na gaveta de sua mesa de trabelho.  Era homem de migalhas, o que aparecia, pegava, e era de bom tamanho, considerando o seu merecimento. Só um eventual cala-boca, e para manter o seu rabo preso.  Toda aquela seriedade, já havia descambado pra galhofa.  O único perigo era falar mal do governo. Fora isso, valia tudo.
      Amaral sempre surpreendia, e desagradavelmente. Depois de usurpar a chefia da seção, casou-se com Isaura. Difícil de acreditar, mas, era verdade, uma verdade que  só uns poucos conheciam.
 Isaura trabalhava na contabilidade, e também exercia uma função gratificada.  A renda do casal, poderia permitir uma confortável condição de classe média,  se não fosse aquela vaidade natural de quem já foi pobre,e quando  ascende  de classe social, perde o controle e não sabe como se  portar nesta nova situação.
 Para quem saiu do subúrbio para morar na zona sul, precisa acompanhar  e se adequar aos novos vizinhos. A vida é cara, o condomínio, uma fortuna. Não sobrava dinheiro para nada e com muita sorte, e calculando tudo na ponta do lápis, conseguia chegar ao fim do mês, sem entrar no vermelho.
Vivia pendurado no  cheque especial, pagava uma conta, atrasava outra, enquanto dançava nas mãos do agiota.  A escola de Carminha era uma das mais caras. Isaura não queria saber de nada, o seu vencimento era seu, somente seu. Gastava com roupas, jóias, presentinho para as crianças, e quando cismava, trocava as cortinas ou mandava forrar o sofá. Só gastava com vaidade. Fazia de propósito, só para infernizar a vida do marido, como havia jurado um dia.
 Quando ficou sabendo que a prisão de Barbosinha aconteceu por conta de uma delação do colega, chorou mais do que havia chorado  até então. Chorou de ódio até ficar doente. Quando se recuperou e retornou  ao trabalho, começou a por em prática o seu plano.
Havia jurado que o delator não iria gozar um só dia de paz, enquanto Barbosinha estivesse preso. Aceitou ficar noiva e começou ali o inferno. Fingia ciúme e fazia cenas vergonhosas. Amaral era um fraco de personalidade, e caráter zero.  Exigiu uma festa de casamento que consumiu quase todas as economias do noivo, o que sobrou, foi para dar de entrada em um apartamento na zona sul.  Não vou me casar para ficar morando no subúrbio, sentenciou.  A festa de casamento, com todo o luxo de um bufe contratado, não poderia ser mais melancólico.  Além de uns poucos amigos, ou parentes do noivo, uma gentalha que ninguém conhecia, apareceu por lá,  para comer e beber de graça. Nenhum parente da noiva, nenhum colega de trabalho. Isaura havia armado o vexame com requintes de crueldade.
Depois chorou de fingimento, e jogou na cara, do agora marido, que se ele não fosse um dedo-duro, aquilo não teria acontecido.  Todavia, não queria acabar com o casamento. Amenizou um pouco, fingiu perdoar, dando a entender que o tempo poderia colocar a vida em ordem. Só dependeria dele.  Na verdade o tempo foi passando, mas, colocar a vida em ordem estava longe de acontecer. Quando ele não estava desesperado com as brigas e exigências da mulher, estava desesperado para pagar as contas que chegavam se atropelando, sem dar tempo de administrar. Condomínio, água, luz, telefone, e mais uma pilha de carnês, de coisas inúteis, que Isaura comprava, desde uma bicicleta ergométrica, até uma enciclopédia que decorava a estante de uma sala de leitura, usada para ver televisão.  Renato, o filho mais velho, embromava em cursimhos preparatórios de  Direito, com certeza para não trabalhar. Não tinha vocação para outra coisa, que não fosse passar o dia na praia, ou andar atrás das mulheres vadias do calçadão.
 Havia porém Carminha, dileta e adorada filha. Herdara a beleza e a inteligência da mãe. Sua única alegria na vida e a única pessoa que guardava por ele algum respeito e carinho, até começar aquele namoro com o Manequinho, Emanuel dos Santos, bancário, estudante de economia, bem falante e simpático, porém, sem nenhum caráter em se tratando de mulheres. Conquistou, além de Carminha, a simpatia de todos, parentes e amigos, menos a do Amaral, que se não fosse um banana, daria um passa-fora naquele galanzinho de bosta.
Manequinho sabia que não era querido pelo sogro, mas não dava a menor importância.  Quando o velho chegava era comum  encontrá-lo no sofá, dando risinhos e beiçadas em Carminha, a ainda, sem a menor cerimônia, bebendo  a sua cerveja.
- E aí sogrão!  O seu Vasco só não está pior, por que depois do último, não vem mais ninguém!!. Ria as escâncaras.
O velho Amaral rosnava alguma coisa entre dentes,  e se retirava para ruminar o seu ódio e sua frustração no quarto. Não aparecia mais na sala, nem para jantar.
  Afinal, de que valeu  toda aquela entrega e sacrifício para se tornar um cidadão da classe média?  Lambendo botas, bajulando os superiores, que não eram melhores do que ele.  Tão incompetentes quanto, também tinham lá  os seus superiores, lambe-bota e bajuladores iguais. Só estavam num patamar  mais acima, recebiam propinas maiores e também eram desprezados pela cúpula do poder e da corrupção.  Queria sair, largar tudo, mas, não tinha volta.  Estava comprometido, e para manter o seu padrão de classe média, não poderia abrir mão daquele extra que aparecia semanalmente na sua gaveta.
Também não tinha ilusões.  Considerando que a propina que recebia, não precisava repartir com mais ninguém, concluiu que ele era o último da escala, o soldado raso daquele batalhão de corruptos. Sua função era fazer vista grossa,  às vezes recebia documentos, que deveria juntar a um determinado processo, sem verificar ou discutir a sua origem ou autenticidade . Na maioria das vezes nem imaginava para que, ou para quem iria servir. Sabia porém, que quando isso acontecia, aquele pacotinho iria aparecer misteriosamente  no fundo da sua gaveta, que ele estrategicamente esquecia de fechar à chave.   Não sabia de nada, mas, tinha a certeza que se um dia houvesse uma auditoria, investigação ou denúncia,  a bomba cairia em cima dele, o elo mais fraco da corrente. Melancólico balanço de vinte e dois anos  de carreira, chefe por direitos adquiridos por tempo de serviço. Parou ali, por falta de  mérito e coragem.
Denunciou o colega para ficar no lugar dele, mas, alegou patriotismo e por ser anticomunista, Não era nada, nem poderia ser. Não tinha ideologia, nem conhecimento para ser contra ou a favor de  qualquer corrente, política ou filosófica. Declarava-se  democrata cristão pró-capitalista, para tentar justificar a infâmia da delação.  Atitude imperdoável, mesmo entre os bandidos.
 Vivia com medo, e com a anistia, entrou em pânico. Não haveria revanchismo, era o que se falava, mas, quem poderia impedir uma retaliação por parte dos colegas?
Sabiam da sua conivência passiva com o estado maior da roubalheira. Até então, denunciar falcatruas dos governantes, chamar os poderosos de ladrões, era uma temeridade.  O sujeito era enquadrado na lei de segurança nacional, como perigoso elemento subversivo. Cadeia e porrada com ele!.
Os que nunca conseguiram participar das armações e marmeladas estão agora querendo tirar um atestado de honestidade, denunciando geral, e fingindo indignação.  De hipocrisia, ele entendia como ninguém. E como entendia...
           Eles estão voltando, e alguns já assumiram as suas posições nos órgãos oficiais.
 Sentiu o céu desabar na sua cabeça.  Quando chegou na seção para cumprir o expediente.  Cartazes de boas vindas e uma agitação festiva aguardavam a chegada da última pessoa que esperava encontrar na sua miserável vida. . BEM VINDO NOSSO QUERIDO BARBOSINHA.! Foi procurar o Diretor de Departamento.  Era isso mesmo. Só não iria assumir a chefia, mas tinha direito ao vencimento de chefe, que exercia antes de ser preso.  Ficaria na seção até a aposentadoria. Faltava pouco. uns três anos aproximadamente.  Menos mal, pensou.  Mas, era esse pequeno detalhe porém, o seu maior problema.  Houve um remanejamento  de Diretores, alguns se aposentaram, outros pediram transferência, e foram aplicar golpes em outra freguesia. Os misteriosos pacotinhos, nunca mais apareceram no fundo da sua gaveta. Isaura já havia se aposentado, para ele, ainda faltava um bom tempo.
Além do agravamento de seus problemas financeiros, amargava diàriamente a presença do Barbosinha sorridente, feliz e querido por todos, tratado como herói, e para o seu maior constrangimento, fazia questão de cumprimentá-lo ao chegar, e despedir-se na saída.  Barbosinha não era tão magnânimo assim. Foi a maneira mais cruel que encontrou para fazê-lo sentir-se ainda mais por baixo, vil e mesquinho, do que ele próprio se reconhecia.
Amaral  era um covarde em todos os sentidos, mas um dia tomou coragem.  queria botar as cartas na mesa.  e acabar de vez  com aquela agonia.  Deu um jeito de ficarem a sós, falar cara á cara...
- Abra logo o jogo Barbosinha!  - O que você está querendo?  Se mostrar superior? Pois saiba que eu não quero o seu perdão.
– Pode me chamar de dedo-duro filho da puta, seu comunista de merda! Aceitaria até sair na porrada, mesmo que apanhasse.  Qualquer coisa que pudesse resgatar, nem que fosse uma migalha de dignidade. Seu primeiro gesto de ousadia, depois de tantos anos, não deu certo.
- Calma chefa.. Eu não quero lhe causar problemas. Você. Como um bom Democrata Cristão, deveria entender que o importante agora é viver em paz. E saiu rindo.
       Amaral pediu licença para tratamento de saúde, quando terminava uma, arranjava outra. Foi a maneira que encontrou para encarar o menos possível o seu rival, os outros que o desprezavam, e a sua própria vergonha. Acabou ficando doente de verdade.
      Um velório é a melhor escala para se avaliar o prestigio de alguém.  De poucos parentes, nenhum amigo, e menos prestígio ainda, Amaral não era um defunto para muito pranto.  Além de Carminha, que  realmente estava sentida com a morte do pai, uma velha tia enxugava umas poucas lágrimas por mera formalidade.  Os outros, tios e primos, paravam um pouquinho em frente ao caixão,  faziam uma cara de consternação, apenas para cumprir o ritual, depois saiam.  Iam conversar com os velhos conhecidos que não viam há muito tempo, mas, sempre apareciam nessas horas.  E como sempre acontece, pessoas se abraçam  efusivamente e lembram coisas e casos. Só não se fala muito é do defunto. Não havia o que elogiar, e não era elegante esculhambar  o morto, ainda em corpo presente.
- No fundo era um bom sujeito, mandou Lurdeca, que não dispensava um lugar comum.
- Na superfície é que era f... Replicou Guimarães.
- Mas, mudando de pau pra cavaco... Isaura  ainda dá um caldo, Né Barbosimha ?   Barbosinha censurou com um olhar frio a irreverência do colega.
- Não estou nem um pouquinho sentido com a morte do pulha do Amaral, mas, não vou soltar foguetes,. Não é de a minha natureza chutar cachorro morto.
A chapuletada saiu sem querer, mas provocou risos, e o velório só não descambou pra galhofa, graças à chegada do Diretor de Departamento, que veio em nome de toda a diretoria prestar solidariedade à família  e aproveitar o ensejo para dar uma conferida na viúva,  que realmente não era de se jogar fora.
 Abraçou Isaura para confirmar.
 - Estou deveras consternado com a perda do nosso querido colega.
Beijou Carminha na testa, cumprimentou Manequinho, que em frente ao caixão, apertava e dava umas beiçadas na menina, com sádico prazer de sacanear o morto, seu ex-futuro sogro.  O diretor ficou mais uns cinco minutos na capela fazendo o social, acenou com a cabeça para os funcionários presentes, e para o alívio de todos, saiu. O pessoal se revezava entre a capela e o botequim. A maior parte do tempo, no botequim, era bem mais divertido.  Fazia um calor insuportável, Guimarães, já na quarta cerveja, lembrou de um detalhe de ordem prática. O chefe agora é o Valadão, subchefe e substituto imediato.
– Boa merda, resmungou o colega.  A chefia por direito é o Barbosinha, mas, ele não quer nem saber. Reginaldo, só sabia reclamar.
- O cara não podia ter arranjado um dia pior pra morrer.
– O homem já fez a gentileza de bater com as dez na terça-feira, antecipando o feriadão, e você anda reclama!
Guimarães pegou pesado.
 Antonieta veio avisar que o enterro já ia seguir para o cemitério.   Isaura caminhava séria ao lado  de Renato, o filho mais velho, que não conseguia  disfarçar o mau humor e a cara de ressaca. Barbosinha seguia logo atrás, queria chegar mais perto, dizer alguma coisa! Vinte e dois anos, passados, a maior parte no exílio e na clandestinidade. Se escondendo em sítios distantes. Preso, humilhado e torturado... Qual era o seu crime?  Nem mesmos os seus algozes sabiam. Torturavam por divertimento, humilhavam por prazer.
          Quando ficou sabendo  que Isaura se casara com  o Amaral, só para se vingar, ficou louco, só pensava em fugir e matar o  delator. Não era comunista, ou ativista, não pertencia a nenhuma organização política, nem ao menos recreativa.  Só não acreditava na ditadura.  Virou comunista na prisão e graças à solidariedade dos companheiros,  conseguiu sair vivo, com ajuda que ele nem sabia de onde vinha.
        - E agora? Perguntou a si mesmo.  Olhou para Isaura. Não demonstrava nenhuma emoção. Gostaria de olhá-la nos olhos. Estava de óculos escuros. Não queria encarar ninguém, pensou. Eram os momentos finais, descia o caixão, e os funcionários do cemitério começaram a fechar a  sepultura com cimento. Depositaram a primeira coroa com o nome completo. Genecy Possidônio do Amaral. Ninguém conseguia esconder o riso.  Sem pressa  foram se afastando do local, uns tentando arranjar uma carona para voltar, outros foram para o ponto de jogo do bicho, apostar no número da sepultura, como de praxe.
 Barbosinha foi se despedir de Isaura, meio sem saber o que dizer. Esperou vinte e dois anos por aquele momento, porém, em outras circunstâncias.
 Fica com Deus Isaura, até qualquer hora.
- Até qualquer hora, Barbosinha, a gente se vê.
-Quem sabe, a gente se vê...
Pouca gente percebeu a segunda coroa que chegou na última hora, trazida as pressas por um funcionário do cemitério . Quem viu, também não deu importância. Sem nenhuma identificação de quem mandou ou de onde veio. Apenas três palavras escritas, por engano, ou não. DESCANÇO EM PAZ..

                                       

São Beto
Enviado por São Beto em 20/10/2009
Reeditado em 19/03/2018
Código do texto: T1877263
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
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