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Pantera

A casa estava em rebuliço, mamãe havia comprado coisas novas e meu irmão me deu um banho especial. Odiava tomar banho! Os cabelos grossos e negros demoravam tanto pra secar! Ele disse: -- Amanhã a Chris chega, você tem que estar linda pra ela!
Fiquei muito feliz. Não cabia em mim de contentamento! Queria contar pra minha amiga Ferrugem. Corria em volta de todos pedindo, implorando para que me deixassem ir lá fora contar pra Ferrugem sobre a chegada da Chris, mas não deixaram.
Desde que eu era pequenininha, mamãe não gostava que eu brincasse na rua.: -- A rua é um lugar muito perigoso, não é lugar pra você brincar.
Eu não me importava muito, pois a nossa casa era grande, o quintal era enorme e eu brincava à vontade. Adorava brincar em volta das jaboticabeiras e cavucar no jardim. O rico aroma da terra me fascinava, e eu não conseguia resistir às rosas da vovó; eram tão saborosas que eu não me importava com as chineladas que levava por isso.
Papai me chamava sempre: -- Vem cá, Pantera.
Olhava pra ele que trazia uma escova na mão. Corria pra ele alegre, pois sabia que iria me pentear os cabelos negros, por isso me chamam de Pantera; tinha cabelos negros e brilhantes. Eles ficavam tão macios!
À tardezinha, tia Leslie veio visitar vovó Dolores. Mamãe desceu para conversar com ela e ficaram lá fora a conversar. Corri e me encontrei com Ferrugem no meio da rua. Nos rodeamos alegres e contei pra ela sobre a chegada da Chris. Meus irmãos haviam crescido logo, e minha irmã mais velha havia se mudado. Me disseram que ela fora para outro país. Não sabia onde ficava outro país, mas sabia que sentiria saudades dela, que sempre me alimentava.
Às vezes, quando mamãe conversava lá fora com as visitas, eu corria lá pra fora e brincava com a minha amiguinha Ferrugem. Ela tinha os cabelos vermelhos e brilhantes. Ela era tão bonita! Brincávamos à beça até me chamarem: -- Passa pra dentro, ora!
Corria pra dentro do quintal e continuava olhando pra rua. É tão grande lá fora! De repente, escutei um barulho de uma caminhonete que corria muito, não tive tempo de correr e quando dei por mim, senti uma pancada forte que me jogou longe. Ferrugem também foi atingida e caiu sobre mim. Não conseguia me mover. Ferrugem também não se movia. Tentei chamá-la mas não consegui. Senti um susto grande. Não entendia porque não conseguia me mover. Sentia um frio intenso, que me enrijecia os braços e pernas. Tudo se escureceu. Vozes e gritos pareciam vir de longe. Não sentia seus toques. Mas sabia que me tocavam o corpo e que me moviam. Ouvia soluços, mas não sabia de quem. Tudo se apagou, e as vozes ficavam cada vez mais distante. Sentia medo, mas algo me dizia que não temesse, pois eu estaria entrando um jardim enorme onde não houvesse perigo algum, onde sempre teria alguém para me pentear os cabelos negros e muitas rosas que pudesse comer sem levar chineladas.

**** Este conto foi escrito em memoria de minha cadela Pantera que foi morta por uma camionete no dia antes que eu ia chegar de visitas. Foi muito triste para mim, mas escrevi esto conto em sua voz de animal feliz que ela era.
 
Helena Guerreira
Enviado por Helena Guerreira em 03/12/2019
Reeditado em 08/01/2020
Código do texto: T6810259
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Guerreira
San Francisco - California - Estados Unidos, 51 anos
24 textos (557 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/01/20 20:20)
Helena Guerreira

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