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ESTÓRIAS QUE MAMÃE CONTAVA - A CRUZ DO DESERTO - Thiago Alves

Na pacata cidade de Itabaiana na Paraíba, terra onde nasceram grandes vultos da sua história como o Poeta Zé da Luz, Fernando Pessoa, Fabio Mozart, o grande músico Sivuca entre tantos outros, tive eu o orgulho de também ter nascido lá e ter dado minha parcela de contribuição para a cultura daquele povo, assim como outros grandes artistas e amigos meus que ali viveram e se radicalizaram, como Jessie Quirino, Paulo de Lira e Isaias Alves (Zaia), entre outros.
Como em outras cidadezinhas de interior, em Itabaiana incríveis histórias acontecem. Lendas e contos se formam a partir da fé e da crença na cultura que o povo cultiva.

Minha mãe Dona Soledade, tinha uma pequena fazenda, num distrito chamado Caldeirão próximo de Itabaiana, onde nós passávamos a maior parte do tempo curtindo aquela simples vida de interior e que me encho de saudades em cada vez que me lembro daquele local. Foi lá que eu e meus doze irmãos aprendemos no nosso cotidiano, estórias incríveis que ouvíamos nossa querida mãe contar.

Naquele tempo em torno das décadas de 50 e 60, não tinha energia elétrica na zona rural, o povo do sítio utilizava para a iluminação durante a noite o lampião a gás chamado candeeiro.
Nós vivíamos da cultura básica da agropecuária, onde cultivávamos o feijão, o milho, o algodão, arroz e mandioca, entre outras culturas. Na pecuária, criávamos gado bovino leiteiro, caprinos, eqüinos, asnos, jumentos, muares, galinhas e outras aves.

No período da colheita, o galpão da nossa casa ficava abarrotado de feijão e milho, enquanto os silos ficavam cheios de arroz, que durava até a próxima colheita e nós não precisávamos comprar daquele produto.
 Durante a noite as mulheres da vizinhança se juntavam lá na nossa casa para debulhar o feijão macaça seco.
- Acontecia assim: numa roda de muitas pessoas sentadas no chão sobre uma lona grande ou numa esteira. Ficava eu, junto a minha mãe, ouvindo o estalo das cascas do feijão seco se debulhando nas mãos das pessoas. Iluminados pela ofuscada luz do candeeiro que ficava pendurado num prego na parede, em silêncio todos ouviam a forma encantadora de minha mãe contar estórias.
- Eu não trocava aquilo por nado no mundo!
Uma dessas noites enquanto mamãe conversava com as outras mulheres, ela falou assim:
- Comadre Maria, amanhã depois do almoço eu vou pagar uma promessa lá na Cruz do Deserto!
...E Dona Maria disse: ah! Comadre Soledade eu vou também com a senhora porque eu preciso pagar uma promessa que eu estou devendo lá na Santa Cruz do Deserto!
Eu que já tinha ido outras vezes aquele local, perguntei:
- Mamãe porque chamam aquele local de Cruz do Deserto? E ela aproveitando o ensejo contou a seguinte estória:
Há muito e muito tempo atrás, quando em Itabaiana ainda tinha uma pequena população, pouca gente habitava na zona urbana e havia mais gente morava na zona rural. Lá na cidade na rua atrás da Cadeia Velha, que hoje se chama a Rua São Sebastião, havia um guarda noturno que fazia a vigilância daquela rua. Ele contou que certa vez durante a noite enquanto vigiava, olhou pro final da rua e viu uma luz azul, grande como a lua cheia, lá dentro do mato. Como ele não tinha medo, caminhou, caminhou e foi se afastando da rua entrou pelo mato a fora e foi até lá. Ao se  ao aproximar do local, à luz desapareceu. Ele olhou, olhou em volta, mas, não viu mais aquela luz. Então ele voltou depressa para a rua e quando ele chegou de volta, olhou para trás e lá estava a luz no mesmo local. Sentindo-se encabulado o guarda não voltou mais lá naquela noite e se perguntava: o que será aquilo?
Na noite seguinte, quando a rua ficou em silêncio, o guarda saiu para a vigilância e ao olhar naquela mesma direção, novamente apareceu à luz, cada vez mais azulada e viva. Outra vez ele foi até o local e cautelosamente continuou observando, mas num piscar de olhos a luz desapareceu. O guarda começou ficar com medo e apressado voltou para a rua. E de volta, tornou a olhar naquela direção e observou que outra vez a luz reapareceu no mesmo local.
Passaram-se os dias e todas as noites o guarda continuava vendo naquela direção a luz cada vez mais viva. Porém não voltou mais lá no local. Porém, aquilo começou a incomodá-lo de tal forma, que ele começou a ficar doente, pálido, de tal maneira que não conseguia mais dormir.
Certa vez, no final da noite, quando voltou para casa, ao deitar-se adormeceu e sonhou. No sonho, uma voz dizia assim: você viu aquela luz lá no deserto? E ele respondendo disse: vi sim! A voz continuou falando: Foi ali que eu morri. Faça ali uma capelinha de oração e coloque uma cruz, para que rezem por mim que eu estou precisando!
Quando o guarda acordou, contou o sonho a sua esposa e ao povo da rua que juntos convidaram alguns pedreiros e levaram materiais até o local e lá ergueram uma pequena capelinha de oração, onde até hoje o povo vai fazer orações. Depois desse dia a luz nunca mais apareceu no local.
O local foi batizado de Santa Cruz do Deserto. Hoje, o povo faz promessa e dizem que sempre alcançam graça.  O local é bastante visitado e vem gente de muitos lugares para pagar promessas.

Eu estava com os olhos fitados na minha mãe e não perdi nenhuma palavra daquele conto. E tendo mamãe terminado de contar a estória, já era tarde, o pessoal se despediu dizendo:
- Dona Soledade, vamos embora que já é tarde! Amanhã nós voltaremos para a Senhora contar outra estória. E tendo se retirado àquelas pessoas, já era alta noite, já cantavam os galos. Então, nós fechávamos a porta e íamos rezar para dormir.
A Arte de Thiago Alves
Enviado por A Arte de Thiago Alves em 20/12/2015
Código do texto: T5485695
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Sobre o autor
A Arte de Thiago Alves
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
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