Ex- amor,

Há tempos não tenho notícias suas. Nem mesmo sei dizer qual a última vez que o vi. Costumava contar seus passos de chegada e partida. Mas, hoje, por um apelo interno, resolvi mandar-te uma das cartas que todo mês escrevo, mas nunca mando. Precisei fazer síntese de todas as cartas, de todos os meses, para escrever-te uma só.

Como tens estado? Tens seguido o que acreditas... Seus planos, sonhos, ideologia? O que tens de novo; cortaste o cabelo, pegaste um sol, mudou de gostos, tens mais sonhos? Ah, amor, perdoe-me o fluxo de inconsciência, o fluxo de palavras, o jorro de perguntas, tenho ânsia de saber de ti. Já faz tempo, não é mesmo?

Eu mudei tanto amor, e nem estas aqui para ver. Lembra dos defeitos que tanto odiava? Ainda os tenho amor, mas estou mudando. Tenho me socializado um pouco mais, amor. Custa-me ainda, é difícil, ficar tanto tempo inerte e depois prestar atenção a tudo e a todos. Sabe amor, continuo idealista. Tenho planejado protestos, sair de cara pintada, pés no chão. Talvez eu não mude nada, mas tampouco não mudarei meus ideais. Lembra-te da minha vontade de ser mais eu? Pois é, tenho conseguido isso também. Tenho me envolvido mais em causas que acredito que me fazem bem. Nem me importo com o que pensam os outros, como havia dito eles são apenas... outros.

Consegui uma aprovação no vestibular amor, aquele meu velho projeto que tenho tanto me esforçado. Mas, tenho passado por tantas coisas, amor. Tantas coisas e sem tê-lo ao meu lado. Dias atrás tudo desabou sobre mim, mas fui forte, forte como me ensinastes. Às vezes me pego lembrando de ti, nada crônico, de vez em quando mesmo. Imagino como seria se ainda o tivesse aqui, do meu lado. O vejo contemplando minhas conquistas escolares, o vejo dando seu ombro, abraçando-me para me fazer feliz. O vejo com tua mão entre as minhas, com os teus sonhos como minhas prioridades de realizar. Vejo-me com você num parque, num cinema, na nossa velha roda de amigos... Apresentando-o aos meus novos amigos. Vejo-me falando de ti amor, como meu, perdoe-me querer propriedade, mas é como vejo. Sabe, às vezes acho que estaria melhor, se ainda o tivesse aqui.

Eu sei amor, que com meu jeito o fiz partir. Não guardo mágoas, ao contrário, lhe guardo amor, muito amor. Lembra o quanto me pedias para demonstrar o que sentia; o quanto reclamavas do meu desafeto? Então amor, não era desapego, era apego demais. Apeguei-me tanto a ti que até hoje não o deixei partir. Ainda guardo teus sentimentos aqui, se tiveres os seus ainda, talvez sentamo-nos e tornamo-los atuais.

Fomos ingênuos, não fomos? Acreditar que teríamos todo o amor do mundo e ninguém nos puniria por isso. Fomos ingênuos por acreditar que era tudo o que nos bastava. Fui ingênua por acreditar que você me bastava. Fui ingênua por te deixar partir pelo medo de te perder...te perdi.

Não mando esta carta para criar algum vínculo, alguma amizade. Sabe que fomos tudo separados, menos amigos. Não sabemos sê-lo, amor. Talvez sejamos melhores amantes que amigos. Não o quero como amigo, me desculpe. Queria-te de várias formas, mas como amigo não. Seria tua amiga, se ainda fosses meu amor. Seria tua... Mas, amigos não somos. Não confiaria em ti, confundiria tua amizade outra vez. Não confiaria em mim ao ter-te ao meu lado. Sei que estás na hora de ir... Voar no mais alto céu, ou nadar nas mais profundas águas. Sempre pertenceu mais ao mundo do que a si mesmo, então sei que tem que ir. Não para caminhar com tuas pernas, mas para voar com tuas asas, para respirar debaixo d’água. Te deixo ir amor, não de mim, mas te deixo ir. Ah, depois de tanto tempo, ainda tenho nutrido aquele sentimento, então talvez não seja apenas uma paixãozinha como havia dito....

Com o desejo de que proves uma nuvem,

Sua ‘ex-amor’.