Morte

Publicado por: Alexsandro Menegueli Ferreira
Data: 01/12/2021
Classificação de conteúdo: seguro

Créditos

Título: Morte
Autor: Alexsandro Menegueli
Narrador: Alexsandro Menegueli
Fundo Musical: Melancholy
Compositor: Secret Garden
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Morte

Em uma triste segunda-feira, observei com espanto da janela do meu quarto um mar ensanguentado e estático. Não havia ondas ou marolas, não se percebia o movimento simples dos peixes pequenos. Os ponteiros do relógio marcavam meio-dia, mas ao alto nenhum resquício do imenso astro. O horizonte estava tão cinza e confuso! As montanhas pareciam rabiscos de melancolia neste pertinente inverno.

Em uma triste segunda-feira, observei com espanto da janela do meu quarto um mar ensanguentado e estático. Homens e mulheres transitavam pelas calçadas em semblantes depressivos e aterradores. Os carros passavam vagarosamente sem se notar nenhum ruído. O silêncio tomava conta dos arredores com uma destreza admirável em um mundo isento de cores.

Em uma triste segunda-feira, observei com espanto da janela do meu quarto um mar ensanguentado e estático. As folhas das castanheiras estavam cinzas e murchas. Não apresentavam o verde musgo de costume. Os ventos e brisas não passeavam mais pelas proximidades dos rios e dos intermináveis barrancos. Um frio arrepiante predominava em minha casa quando deixou aquele longínquo e gigantesco cume.

Em uma triste segunda-feira, observei com espanto da janela do meu quarto um mar ensanguentado e estático. Constatei bastante surpreso, as igrejas totalmente vazias e por sangue fresco pichadas. Jardins a se perder de vista, com suas flores queimadas, e a ausência das admiráveis pétalas. Olhos avistando insetos na mórbida areia do cemitério, corpo debilitado, bandeira negra nas fachadas.

Em uma triste segunda-feira, observei com espanto da janela do meu quarto um mar ensanguentado e estático. Os pássaros esbeltos que passavam felizes sobre os telhados coloniais foram totalmente extintos. As samambaias e trepadeiras que enfeitavam a frente da pequena escola viraram infinitas cinzas no piscar de olhos. As ruas e vielas tão fáceis de transitar nessa pacata cidade transformaram-se em obscuros labirintos.

Em uma triste segunda-feira, observei com espanto da janela do meu quarto um mar ensanguentado e estático. A minha casa estava vazia estranhamente, e nos quartos não avistava as minhas filhas, esposa, pais, irmãos, sobrinhos... De repente senti algo profundo em meu conturbado interior, sendo lançado numa velocidade estupenda para um enorme recanto. Fiquei atrás das folhagens observando todos os meus parentes imersos a lágrimas, e eu ali repousava sereno em um simples caixão...

... Dei meia volta sem pingos de qualquer sentimento, olhei para baixo e mergulhei à vontade na escuridão intensa de incontáveis redemoinhos.