POÇO REDONDO: ASPECTOS SOBRE O REFÚGIO DO SOL (Terceira viagem)

POÇO REDONDO: ASPECTOS SOBRE O REFÚGIO DO SOL (Terceira viagem)

Rangel Alves da Costa*

Contudo, a par das proezas das mãos de Dona Zefa, é preciso retomar outros tópicos referentes aos atrativos turísticos de Poço Redondo. Vamos então à Cachoeira do Bom Jardim.

Esta cachoeira está encravada no Vale do Rio Jacaré, na encosta de paredões abruptos de formação rochosa de quartzo, que oscila entre 80 a 100 metros de altura. A cachoeira se torna um espetáculo durante o período de chuvas, devido ao regime do Rio Jacaré ser pluvial. O atrativo tem uma altura de aproximadamente 15 metros de queda d'água, e o lago formado pela água escura e tem uma profundidade de 10 metros. A largura chega a 35 metros. É propícia para banho, porém com certo cuidado devido às pedras em volta. A trilha da cachoeira tem início na fazenda Bom Jardim, com uma caminhada à. pé, de 1 km até chegar ao atrativo.

A Capela de Nossa Senhora da Conceição está localizada no Povoado Curralinho, às margens do São Francisco. Diz a tradição que a Capela foi construída pela comunidade em 1874, incentivada pelo beato Antônio Conselheiro. Está situada no ponto mais elevado do povoado, o que lhe confere maior destaque. A arquitetura tem o estilo europeu da época. O frontão é arrematado por linhas sinuosas em alto relevo. No interior da capela o altar é pintado na parede, com um pequeno nicho que abrigava a imagem de Nossa Senhora da Conceição, hoje exposta na Igreja de Santo Antônio.

A Igreja de Santo Antonio, também localizado em Curralinho, data provavelmente do final do Século XIX e está voltada para o Rio São Francisco. Na fachada principal, uma porta em madeira arrematada por um arco abatido. O belo frontão é encimado por uma pequena cruz. No altar imagens do padroeiro Santo Antônio, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e do Coração de Jesus. Destaque para a bonita imagem de Nossa Senhora da Conceição, em madeira, pertencente à. Capela do mesmo nome.

A Igreja de São Sebastião, no povoado Bonsucesso, foi construída na segunda metade do Século XIX. A fachada traz a data de 1947, provavelmente o ano em que foi reformada. A fachada principal é voltada para o Rio São Francisco. Destaque para as imagens de Nossa Senhora da Conceição e de Santo Antônio, em madeira. Encontram-se, ainda, imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Sebastião. Um antigo confessionário em madeira e palhinha atrai a atenção. As missas acontecem uma vez por semana sem dia fixo.

O Sítio Arqueológico do Charco é formado por uma espécie de lagoa, com acesso somente nas épocas de estiagem, quando suas águas desaparecem e começam a surgir os vestígios do passado. Em 1980 começaram as escavações no local, tendo sido encontrados ossos de animais pré-históricos. Grande parte do material coletado encontra-se na Escola Nossa Senhora da Conceição, no Departamento de Cultura do município. No entorno do atrativo predomina a vegetação de caatinga e afloramentos de rochas de granito.

A Gruta do Angico está situada nas proximidades do povoado Cajueiro, às margens do rio São Francisco. Além das rochas que compõem o cenário da grota e guardam os vestígios arqueológicos dos primeiros habitantes da região (marcas deixadas há cerca de oito mil anos), o local também entrou para a história brasileira por ter sido palco do último confronto entre homens da Polícia Militar alagoana e membros do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O rei do Cangaço, como era conhecido, foi surpreendido e morto na Grota do Angico, em 28 de julho de 1938, ao lado da mulher, Maria Bonita, e de outros nove companheiros do bando.

Há uma trilha que serve como principal acesso para a Gruta do Angico. A caminhada até a gruta é feita a pé, saindo da fazenda São José num percurso de 800 m, com duração de 45 min. O município considera o atrativo como área de preservação, devido a existência de espécies raras da vegetação de caatingas. A trilha segue em meio à caatinga até chegar ao leito do Riacho Angico, local que Lampião utilizou como refúgio e onde foi morto, na década de 30. No abrigo, que serviu de refúgio para o bando de Lampião, encontram-se duas cruzes, encravadas nas rochas.

Para preservar a área que envolve a Gruta do Angico, no dia 28 de abril de 2010 o governo do estado inaugurou o Monumento Natural Gruta do Angico, situado no bioma Caatinga, abrangendo áreas dos municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco. O local é uma unidade de preservação da natureza que abrange uma área de 2.138.000 hectares. O Monumento tem como objetivo preservar o sítio natural da Gruta do Angico e recursos culturais associados, para o desenvolvimento de pesquisa cientifica, educação ambiental, ecoturismo e visitação pública. Atualmente, o local, que integrará a área da unidade de conservação ambiental, abriga um memorial, com fotos e objetos relacionados a Lampião e ao período do Cangaço.

O Monumento guarda uma biodiversidade bastante significativa, como observado pelos pesquisadores durante expedição ao local entre 13 e 15 de maio de 2007. Durante dois dias e meio, os estudiosos encontraram 63 espécies de plantas, 10 de abelhas, 14 anfíbios (sapos, rãs e pererecas), 09 répteis (entre lagartos e serpentes), e 21 espécies de mamíferos, entre elas algumas espécies classificadas como vulneráveis.

Quem pretender conhecer Poço Redondo não pode deixar de conhecer também a Praça Lampião, situada bem ao lado da rodovia estadual que corta a cidade e dá acesso ao vizinho município de Canindé do São Francisco.

Em 1988, o então prefeito Alcino Alves Costa, um apaixonado pela história do cangaço e pela figura do Capitão Virgulino, o Lampião, resolveu homenageá-lo dando nome a uma pequena praça recém reconstruída. O que seria uma homenagem virou uma verdadeira celeuma, com pessoas a favor e contra o tributo. Para uns, por ter sido um bandido que havia aterrorizado por muito tempo a região, não merecia nenhuma lembrança na praça. Já outros, na defesa do heroísmo do rei dos cangaceiros, achavam justa a homenagem e até apontavam que aquilo também seria um modo de atrair turistas.

Verdade é que a solução do problema não foi pacífica, envolvendo mais tarde até o Ministério Público estadual no conflito. Contudo, tais fatos são relatados pelo professor e historiador Fernando Sá em dissertação intitulada "O Cangaço nas Batalhas da Memória" (http://hpopnet.sites.uol.com.br/cangaco.pdf), conforme a seguir transcrito:

"Dentro das comemorações do cinqüentenário de morte de Lampião, houve um abaixo-assinado para a legalização da praça, com cerca de 300 assinaturas. Liderados por Raimundo E. Cavalcanti e Manoel Dionízio da Cruz, militantes do movimento popular e sindical preocupados em resgatar a memória do cangaço, o documento foi encaminhado à Câmara de Vereadores. Após sua aprovação, a praça foi inaugurada em julho de 1988, com a presença do então prefeito da cidade, Alcino Alves Costa, sendo, então, batizada pela população da cidade como “murinho de Lampião”. Segundo Raimundo Eliete Cavalcanti, “o Murinho era tão disputado que a população assumiu como sendo (...) um espaço importante da cidade”. Portanto, tornou-se um “lugar de memória” do município.

Campo de disputa em torno da memória do cangaço em Poço Redondo, a Praça Lampião, em 1993, teve sua existência questionada pelo então prefeito Ivan Rodrigues Rosa, sob o argumento de que ela lembrava o nome de um bandido e que não era digna da cidade. Articulado com o juiz de Direito, Pedro Alcântara, o prefeito da cidade convocou um grupo de vaqueiros para uma filmagem da TV Sergipe, retransmissora da TV Globo, no sentido de receber apoio para a derrubada da Praça.

Como forma de se contrapor a esta iniciativa, Manoel Dionízio da Cruz e Raimundo E. Cavalcanti organizaram uma exposição de documentos nacionais e locais, com o intuito de demonstrar a importância do cangaço para a cidade. Com o apoio de estudantes, professores e da comunidade de Poço Redondo, Dionízio enfrentou um debate acalorado com o juiz de Direito, Pedro Alcântara, e o líder político local, Durval Rodrigues Rosa, pai do então prefeito da cidade. Durante a polêmica, Dionízio argumentou que a Praça só seria derrubada se houvesse um plebiscito na cidade.

Vencidos pela mobilização popular em torno da importância do cangaço para a cidade, explicitada pela presença na cultura local de grupos de teatro, de xaxado, além do Centro de Cultura Popular Zé de Julião, os opositores ao monumento realizaram ainda depredações ao monumento. Contudo, ficou mantida a homenagem da cidade a Lampião. Em 1998, na gestão do prefeito Enoque do Salvador foi reinaugurada, toda reformada, a Praça Lampião".

A Praça de Eventos é outro local que merece visitação, principalmente nas datas que marcam o calendário festivo do município: Festa da Padroeira Nossa Senhora da Conceição, com festas dançantes nos dias 13 a 15 de agosto, e a Emancipação Política do Município, celebrada no dia 23 de novembro. Desse modo, inaugurada em agosto de 1997, a praça foi construída para sediar as festas promovidas pela administração municipal. O espaço tem aproximadamente 1500 m2. É composto por um palco, um camarim e um bar que funciona nos dias em que acontecem os eventos. Conta com uma área descoberta, em frente ao palco, iluminada por refletores, onde se concentram os espectadores.

A memória cultural do município, principalmente em anos mais recentes, vem sendo objeto de grande preocupação de determinados setores da população. Neste sentido, os jovens do município fundaram o Centro Cultural Raízes Nordestinas e o Grupo de Xaxado na Pisada de Lampião, ambos em intensificando cada vez mais suas atividades. O grupo de xaxado já se apresentou em diversas localidades nordestinas, e até em outras regiões, recebendo também convites para apresentações no exterior. Sobre tais aspectos assim disserta o professor e historiador Fernando Sá:

"Do ponto de vista da influência do fenômeno na esfera cultural, as iniciativas memoriais incentivaram às atividades folclóricas já existentes em torno do tema do cangaço, como foi o caso da criação do Grupo de Xaxado “Na Pisada de Lampião” de Poço Redondo. Sua proposta é desenvolver interessante trabalho de valorização da cultura popular vinculado ao cangaço, com um auto teatral que divulga a memória de Lampião. Em um dos seus cantos, pode se ouvir a exaltação da valentia e a simpatia com os pobres, tal como proposto pelo padre Eraldo em suas missas do Cangaço: “Quanta saudade invadiu meu coração, ao lembrar de Virgulino cabra macho Lampião/ Foi cangaceiro cabra macho justiceiro correu o sertão inteiro com seu bando a arrepiar/ (...) Roubava os ricos para dar de comer os pobres sertanejos lá do norte que o povo consagrou (Fernando Sá, "Santos e Demônios: Religiosidade Popular e a Memória do Cangaço no Sertão do Rio São Francisco")".

Por fim, outro atrativo poço-redondense, este de cunho eminentemente histórico e religioso, diz respeito à Igrejinha do Poço de Cima. Construída nos primórdios do surgimento da povoação, pela família Sousa do Poço de Cima, consiste em uma pequena construção de arquitetura simples onde os habitantes dos arredores iam cultuar sua fé. Ao lado da igrejinha existia um rústico cemitério, onde certamente foram enterradas importantes personagens que deram origem ao povoamento do município. Fica ao norte da sede municipal, em local atualmente de fácil acesso.

continua...

Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

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