SOBRE A DEPORTAÇÃO DOS BRASILEIROS NA ESPANHA...

(de San Matias – Bolívia) – RELAÇÕES EXTERIORES – No dia 09 de dezembro último eu escrevi sobre a condição dos brasileiros deportados da Europa a partir dos aeroportos espanhóis. Naquela ocasião eu dei parte da razão às autoridades espanholas, pois é fato que muitos dos nossos compatriotas não reúnem condições claras de subsistência em um país desenvolvido. Tal crônica somente foi publicada no Portal UOL e na “Mídia Independente” dos Estados Unidos e até hoje eu recebo muitos e-mails de apoio, inclusive de muitos brasileiros.

Depois daquela data, centenas de brasileiros glutões por aventuras continuaram tentando desembarcar na Europa via Espanha, para estudar, trabalhar, passear e ficar, mas esquecem de antes de viajar, procurar informações concretas de como isso funciona; se a União Européia está desencadeando reações repressivas contra imigrantes ilegais e coisas do tipo.

Em minha crônica eu falei que na Europa, já é uma coisa comum, encontrarmos brasileiros fazendo “programas” nas ruas (prostituição – seja homem ou mulher) ou vivendo dos subempregos como os jardinagem, limpeza, garçom, etc. Não que estes últimos ofícios sejam desonrosos, mas em qualquer nação desenvolvida, quando eles estão bem, estes postos de trabalhos ficam sobrando e a espera de trouxas como nós, que aceitam a submissão sem garantias ou salários dignos. Os postos oferecidos à casta mais baixa geram muitos Euros aqui; em países como Inglaterra e França que o custo de vida é muito alto, o que eles ganham se fossem viver como no Brasil, comendo e bebendo razoavelmente, com certeza não daria para duas semanas. Os brasileiros ganham dinheiro em outros países tendo que viver em casas com 10, 15 pessoas e comendo restos. Trabalham 12 até 15 horas por dia, de domingo a domingo.

Mas quando a coisa está “russa”, como agora, aqueles postos de trabalhos que normalmente são ofertados aos cães, começam a fazer a diferença entre eles. Quando os executivos, gerentes e superintendentes de empresas ficam desempregados e suas economias acabam, vale tudo para não morrer de fome; daí, o brasileiro manobrista ou lavador de pratos perde seu posto e todos os outros postos menos valorizados são desocupados para atender a necessidade interna e o controle migratório começa a ser severo e cobrado pela mesma população que antes havia convidado e permitido, também como agora.

Eu vi a entrevista completa do Embaixador da Espanha no Brasil, Ricardo Peitró; o Diplomata espanhol disse que as medidas contenciosas adotadas pela Espanha contra imigrantes ilegais seguem as normas da União Européia. Uma vez unidas, as nações se permitem controle rigoroso em portos e aeroportos, sendo que o país que recebe primeiro o visitante, mesmo que não seja o seu destino, fica responsável pelo controle e sua decisão é soberana, válida e aceita pelos demais “unidos”. Traduzindo: se você vai para a Itália e seu vôo possui a primeira parada na Europa na Espanha; a Espanha pode lhe mandar de volta deportado.

As últimas 30 pessoas deportadas informaram que seus papéis estavam em dia e alguns afirmaram que estava levando dinheiro suficiente (€ 150,00 por dia de estada) e que as autoridades espanholas aplicaram-lhes a pena de confinamento, cárcere privado e estado de inanição.

Assim como a União Européia, Japão, Austrália e Estados Unidos, o Brasil também impõe algumas regras para receber seus visitantes. O Ministério das Relações Exteriores junto com o da Justiça, por meio de normativas, escrevem os termos em que nossos visitantes devem seguir, antes mesmo de sua entrada, mas nem sempre isso e cumprido, aliás, como nossas próprias leis.

Esta semana o mal estar foi definitivamente implantado nas relações entre o Brasil e a Espanha. Após dezenas de brasileiros terem sido deportados de Madrid a Polícia Federal do Brasil resolveu agir, mais ou menos do modo recíproco. Mais de 100 turistas espanhóis que desembarcavam por Salvador, não puderam comprovar alguns quesitos exigidos por nós e tiveram que voltar no mesmo avião que os trouxeram. Segundo a PF da Bahia, os espanhóis ficaram apenas 1 ½ horas em solo brasileiro, mas foi o suficiente para reclamarem, falarem mal e praguejarem contra o Brasil e seu povo.

Repito que deve se horrível para os europeus ver brasileiros se prostituindo, lavando varandas ou tocando violão nas ruas de suas cidades como modo de sobrevivência; o estigma já implantado de que somos “atrapalhadores” de vida, tanto na Europa, Estados Unidos e Japão, de fato é algo inenarrável e humilhante, inclusive para nós mesmos, mas o que estes povos precisam entender é que eles fazem o mesmo aqui; nesta terra de ninguém, onde se entra por qualquer canto, inclusive aqui onde estou - San Matias – Bolívia, que é fronteira seca, sem NENHUM PATRULHAMENTO BRASILEIRO, entra-se prostitutas, ladrões de carro, traficantes de drogas e quem mais quiser por que ninguém vê e ninguém quer ver. Somente para deixar registrado, eu estou numa cidade imunda, feia e muito pobre, mas só consegui entrar após VISTO NO PASSAPORTE, razão simples que me faz crer ainda mais, que somos acolhedores de tudo que é ruim no mundo.

Eu apoio à decisão do Delegado André Costa da PF da Bahia em fazer valer a determinação Federal, mas a atitude do Dr. André, que deveria ser copiada por seus colegas, dificilmente terá novos apoios, inclusive do Governo Lula, por uma razão ainda mais simples: a maioria dos imbecis de outras nacionalidades que aportam em terras “tupiniquins”; chegam para a exploração sexual ou para “farofarem” em nossas praias; muito embora estes péssimos turistas sejam pobres em suas nações, com raras exceções, são eles que trazem Euros e Dólares; que enchem os hotéis brasileiros baratos e deixam aqui, depois de somado, uma fortuna em dinheiro (para nós, pobres dependentes destas esmolas).

Lula esteve esta semana com Cavaco Silva, Presidente de Portugal, para comemorar os 200 anos da chegada a Corte Portuguesa no Brasil e foi neste evento que ele comentou sobre o assunto dos espanhóis. Nosso “querido” Presidente disse que, APÓS AS ELEIÇÕES PARLAMENTARES NA ESPANHA, na próxima semana, ELE IRÁ LIGAR PARA O VENCEDOR, para poder discutir o assunto, como se um tema desta envergadura pudesse ser deixado para depois.

Eu não me espanto com a atitude do Presidente, mas o fato dele estar com o Presidente de Portugal me fez lembrar de um episódio pouco divulgado ocorrido no Governo Collor. Os brasileiros estavam enfrentando um problema similar com relação a Portugal, quando uma aeronave cheia de lusitanos vindos de seu país pediu autorização para voar sobre águas brasileiras e a autorização foi negada por ordem maior, tendo inclusive dois caças Mirrage da FAB escoltando o Boeing para águas internacionais. Depois disso, Portugal baixou a crista e resolveu abrandar os modos de receptivo aos nossos brasileiros.

Sou contrario a qualquer tipo de revolta, chantagem ou conflito; tenho excelente contato com algumas embaixadas espanholas pelo mundo, inclusive a do Brasil e do Uruguai; também discordo da maioria dos brasileiros que migram de forma inconseqüente para outras nações, mas o episódio último, ocorrido com os brasileiros em Madrid, passou todos os limites. Se eles não apresentavam condições para estarem como turistas, que fossem deportados, como determina os acordos internacionais, mas jamais serem tratados como cães ou lixo. Necessitamos e exigimos tratamento digno e respeito, caso contrario, poderemos tratá-los da mesma forma, mesmo os que conseguem ficar aqui.

É bom lembrar que temos excelente convívio com os espanhóis desde a libertação do Brasil de Portugal e mais ainda, quando eles sofreram com a ditadura de Franco, ficaram na miséria, sofrendo horrores e vieram para este país para se levantarem economicamente, mandando inclusive, milhares e milhares de dólares para lá, nos deixando mais pobres e mesmo assim, jamais os tratamos com desigualdade. É bom lembrar também que somos todos latinos; possuímos ambos, as tradições de línguas latinas, assim como o galego da Galícia, que fica na Espanha, portanto, somos co-irmãos, por ultimo, quando eles chegam aqui, seja por turismo, seja por negócios, seja por bagunça e malversação pública, desrespeitando nosso povo e nossos costumes, nem por isso eles são presos, humilhados e raramente, repito, raramente são deportados.

Outro dia, estive com o Embaixador de Moçambique no Brasil, Murade Isaac Miguigy Murargy, quando falávamos sobre este tema, cooperação entre nações. O Diplomata moçambicano acredita e eu sigo sua tese, que os acordos de cooperação, se forem seguidos à risca, ajudam a aproximar ainda mais estas nações, fazendo do mundo um local mais respeitado e sem conflitos, com os povos de todas as nações confiando uns nos outros; poderia ser esta a atitude da Espanha com relação aos seus visitantes.

A União Européia não pode pensar que serão eternas, muito menos que imporão as leis mundiais, não podem imaginar que atos como estes, de total desrespeito farão deles os “temidos”; Hitler, Mussolini e Stalin pensaram assim e o resultado deles a história conta melhor do que minhas crônicas.

Quem sabe o Presidente Lula deixe um pouquinho de lado os assuntos do PT o os jantares de luxo nas embaixadas, para pensar nesta questão e por meio de correspondência oficial determinar o bom tratamento, para não ter que decretar o princípio da reciprocidade e criar um mal estar ainda maior? Seja Zapatero se reelegendo, seja o ultra-conservador Mariano Rajoy, o caçador de imigrantes ilegais com cara de Adolf Hitler, que vencer as próximas eleições, terão imenso carinho no tema, pois eles também precisam e muito de nossos produtos e não estão lá bem das pernas; só para não esquecer...!

Se nós começarmos a aplicar os mesmos moldes para analisar quem chega ao Brasil vindo da Europa o caldo vai ferver; grande parte de quem chega é a escória daquele continente.

Carlos Henrique Mascarenhas Pires

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