Como escrever com excelência poética. Parte 01 - Clichês e Lugares-comuns
Há uma área da literatura muito complexa e interessante que tenho estudado com mais frequência e que pretendo, por meio de breves artigos, apresentar aos iniciados na arte poética de maneira simplificada. O estudo da Poética remonta a Aristóteles, que escreveu a obra “Poética”, na qual analisa a tragédia, a épica e os elementos que tornam uma obra literária eficaz. De lá para cá, o conceito evoluiu sob diversas abordagens modernas. Não pretendo aqui fazer um tratado sobre poética, mas apenas, com base nos estudos da arte de criar e compreender a poesia, investigar os princípios que regem a construção dos textos poéticos, especialmente no que diz respeito à forma, ao ritmo, ao estilo e ao significado.
Apenas para contextualizar, a Poética pode ser dividida em diferentes áreas de estudo:
a) Estrutura dos textos literários – análise da métrica, rima, ritmo e construção dos versos.
b) Gêneros literários – diferenciação entre poesia, épico, drama, lírica, entre outros.
c) Figuras de linguagem – uso de metáforas, aliterações, paradoxos etc.
d) Estética e efeitos do texto – como a linguagem literária provoca emoções e reflexões no leitor.
e) Teoria e crítica literária – reflexões sobre o valor e os significados da literatura.
No entanto, com base nos meus estudos até agora, pretendo apenas focar em breves dicas — que espero serem úteis, principalmente aos jovens poetas — sobre como alcançar a excelência poética aos olhos da crítica mais atualizada e como evitar certas práticas que podem comprometer a qualidade e a recepção do seu trabalho.
É importante lembrar que a "crítica mais atualizada" não se trata de um bloco monolítico. Há diferentes críticos e correntes com preferências e abordagens diversas. No entanto, tentarei mostrar alguns pontos geralmente considerados negativos e que devem ser evitados para que um poeta seja reconhecido como destaque.
Para não tornar a leitura longa e cansativa, resolvi dividir este trabalho em dez tópicos independentes, que publicarei separadamente e que poderão ser lidos fora de sequência, conforme o interesse do leitor. São eles:
1. Clichês e Lugares-comuns
2. Excesso de Ornamentação e Arcaísmo Forçado
3. Falta de Originalidade e Imitação Acrítica
4. Versificação Mecânica e Rimas Previsíveis
5. Temas Triviais e Superficialidade
6. Sentimentalismo Exacerbado e Melodrama
7. Obscuridade Desnecessária e Incompreensibilidade
8. Falta de Voz Própria e Autenticidade
9. Ignorar o Contexto Social e Político (quando relevante)
10. Desconhecimento da Tradição Poética Brasileira e Universal
Não pretendo esgotar o assunto, mas apenas apresentar algo introdutório. Talvez, algum dia, eu publique um livro tratando da matéria de forma mais completa. Espero, contudo, que este pequeno e modesto estudo sirva aos jovens poetas do Recanto das Letras.
1. Clichês e Lugares-comuns
Os dicionários costumam definir o termo como uma frase repetitiva e sem originalidade; um chavão, um lugar-comum. Entretanto, na poesia, há uma sutil diferença entre clichê e lugar-comum. Vamos, inicialmente, defini-los isoladamente e, depois, mostrar a diferença entre ambos.
a) Clichê
Clichê é uma expressão, imagem, ideia ou até mesmo uma situação que se tornou excessivamente utilizada e, consequentemente, perdeu sua força expressiva e originalidade. Clichês são como "fórmulas prontas" da linguagem, ou seja, pensamentos ou representações que, de tanto serem repetidos, tornam-se previsíveis, banais e sem impacto.
O clichê é mais específico do que o lugar-comum, pois refere-se primariamente a expressões, imagens ou metáforas desgastadas na linguagem. Trata-se de um problema de formulação. Além disso, clichês podem ser utilizados para construir lugares-comuns. Por exemplo, usar clichês como "o amor é fogo", "lágrimas como rio" e "coração partido" pode contribuir para a criação de um poema de amor sentimental e melodramático, caracterizando um lugar-comum temático.
b) Lugar-comum
Lugar-comum refere-se a temas, ideias, situações ou argumentos tão frequentemente explorados que se tornam previsíveis, banais e carentes de originalidade. Pode envolver não apenas a linguagem, mas também a abordagem temática e a perspectiva.
O lugar-comum é mais amplo do que o clichê, pois engloba temas, ideias e situações que perderam originalidade. Enquanto o clichê é um problema de formulação, o lugar-comum é um problema de conteúdo e perspectiva.
Características dos Clichês na Poesia
- Previsibilidade: Ao ler ou ouvir um clichê, o receptor antecipa o que virá a seguir. Não há surpresa ou novidade.
- Desgaste: O uso repetitivo esvaziou o significado original e a força da expressão. O que antes poderia ter sido impactante agora soa batido.
- Generalização excessiva: Clichês tendem a simplificar e generalizar ideias complexas, resultando em superficialidade.
- Falta de originalidade: Demonstram falta de esforço criativo na busca por formas novas e singulares de expressão.
Para ilustrar melhor, vejamos alguns temas comuns na poesia e os clichês associados a eles:
Amor
- "O amor é fogo que arde sem se ver." (Verso de Camões que, embora originalmente genial, tornou-se um clichê pelo excesso de repetição).
- "O amor é como uma rosa." (Comparação banal e óbvia).
- "Seu sorriso ilumina minha vida." (Expressão piegas e sem originalidade).
- "Coração partido em mil pedaços." (Imagem melodramática e desgastada).
- "Borboletas no estômago." (Metáfora popular, mas pouco inventiva em poesia).
- "Você é tudo para mim." (Declaração sentimental genérica).
Natureza
- "O sol beija a terra." (Personificação clichê e suave demais).
- "A lua prateada no céu." (Adjetivo óbvio e imagem convencional).
- "As lágrimas da chuva." (Outra personificação clichê e sentimental).
- "O rio corre para o mar." (Descrição trivial, sem carga poética).
- "O canto dos pássaros alegra a manhã." (Expressão agradável, mas banal).
- "Flores desabrocham na primavera." (Observação óbvia, sem elaboração).
Tempo
- "O tempo voa." (Expressão extremamente comum e pouco impactante).
- "As folhas caem no outono." (Descrição literal e pouco poética).
- "O rio do tempo." (Metáfora desgastada para o fluxo temporal).
- "O tempo cura todas as feridas." (Provérbio clichê e simplista).
- "Ontem, hoje e amanhã." (Sequência temporal óbvia, sem exploração poética).
Tristeza/Dor
- "Lágrimas como um rio." (Comparação exagerada e pouco original).
- "A dor que dilacera a alma." (Expressão melodramática e clichê).
- "Coração em prantos." (Personificação sentimental e desgastada).
- "Noites em claro de sofrimento." (Descrição genérica da dor).
- "O peso do mundo nos ombros." (Imagem clichê de opressão).
Características dos lugares-comuns na poesia
- Previsibilidade temática: O tema, a situação ou a ideia abordada já foi explorada inúmeras vezes de maneiras semelhantes.
- Falta de perspectiva original: O poeta não traz uma nova visão ou ângulo para o tema, repetindo abordagens já conhecidas.
- Superficialidade conceitual: Os lugares-comuns muitas vezes evitam aprofundamento e complexidade, limitando-se a ideias superficiais e fáceis.
- Conformidade com expectativas: A poesia baseada em lugares-comuns geralmente atende às expectativas mais óbvias do leitor, sem desafiá-las ou surpreendê-las.
Vejamos alguns exemplos de lugares-comuns na poesia:
- O "eu lírico" sofredor e incompreendido: O poeta que se coloca sempre como vítima, melancólico, incompreendido pelo mundo, sem nuances ou complexidade em sua dor. A figura do "poeta maldito" romantizada de forma genérica.
- A idealização ingênua da natureza: Descrição da natureza apenas como um cenário belo e harmonioso, ignorando suas forças brutais, ciclos de vida e morte e contradições.
- O poema amoroso excessivamente sentimental: Amor descrito apenas como felicidade constante, união perfeita e ausência de conflitos, sem explorar suas complexidades.
- Poemas patrióticos genéricos e ufanistas: Hinos à pátria que exaltam virtudes de forma vaga e grandiloquente, sem reflexão crítica sobre a realidade do país.
- Poemas sobre a infância como um paraíso perdido: Nostalgia da infância como um tempo idílico, ignorando suas dificuldades e ambiguidades.
- Poemas sobre a velhice como sinônimo exclusivo de sabedoria: Ignorar as dificuldades da velhice e apresentá-la apenas como um tempo de contemplação e serenidade.
Por que evitar clichês e lugares-comuns na poesia?
A crítica especializada valoriza a originalidade, a profundidade e a autenticidade na poesia. Clichês e lugares-comuns indicam:
- Falta de criatividade e esforço – O poeta parece não ter se dedicado a encontrar formas únicas e pessoais de expressão.
- Superficialidade – A poesia se torna rasa, sem aprofundamento ou complexidade.
- Previsibilidade – A leitura se torna entediante e sem surpresas.
- Ausência de voz própria – O poeta não demonstra um estilo individual e reconhecível.
É possível usar clichês e lugares-comuns de forma criativa?
Sim. Poetas habilidosos podem, em alguns casos, ressignificar clichês e lugares-comuns, dando-lhes um novo contexto, ironizando-os ou subvertendo expectativas. No entanto, isso exige um domínio consciente da linguagem e uma intenção clara de inovar, e não apenas de reproduzir expressões gastas por falta de inspiração.
Por fim, para se destacar na poesia, o ideal é evitar clichês e lugares-comuns, buscando sempre originalidade e profundidade, tanto na linguagem quanto nos temas abordados. A poesia marcante é aquela que nos surpreende, nos faz pensar e sentir de maneiras novas, e que demonstra uma voz poética autêntica e inconfundível.
Espero ter ajudado aqueles que desejam aprimorar sua escrita. Próximo ponto a ser trabalhado será: Excesso de Ornamentação e Arcaísmo Forçado. Bom trabalho!