Como Escrever um Conto, Segundo Anton Tchekhov
Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) foi um escritor e dramaturgo russo, considerado um dos maiores mestres do conto e uma figura central no realismo literário. Formado em medicina, exerceu a profissão ao longo da vida, mas destacou-se principalmente pela escrita, criando uma obra marcada pela precisão narrativa, profundidade psicológica e observação sutil da vida cotidiana.
Tchekhov iniciou sua carreira literária escrevendo contos humorísticos para jornais e revistas. Com o tempo, sua escrita amadureceu, resultando em obras que capturavam as contradições da sociedade russa da época. Ele foi pioneiro no uso do subtexto e da ambiguidade emocional, rejeitando tramas convencionais e desfechos moralizantes.
Além de contista, Tchekhov foi um dos grandes dramaturgos russos, com peças como “A Gaivota” (1896), “Tio Vânia” (1899), “As Três Irmãs” (1901) e “O Jardim das Cerejeiras” (1904), que revolucionaram o teatro ao explorar o não dito e os conflitos internos dos personagens.
Sua influência na literatura mundial é imensa, inspirando escritores como James Joyce, Katherine Mansfield, Raymond Carver e Ernest Hemingway. Seu estilo sutil e sua abordagem humanista continuam a moldar a literatura moderna, tornando-o um dos mais importantes escritores da história.
No Brasil, é possível encontrar a influência do mestre russo nas obras de João Antônio, Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e Clarice Lispector.
Anton Tchekhov, um dos maiores contistas da literatura mundial, tinha uma abordagem única para a escrita de contos. Suas histórias são conhecidas pela concisão, sutileza psicológica e um olhar atento à vida cotidiana. Ele deixou um legado de ensinamentos preciosos para quem busca aprimorar sua escrita. A seguir, alguns dos principais princípios que ele aplicava e recomendava:
1. Mostre, não diga
Tchekhov defendia que o escritor deveria manter-se objetivo, evitando julgamentos e opiniões pessoais sobre seus personagens. Em vez disso, o foco deve estar em descrever os fatos de forma clara e concisa, permitindo que o leitor tire suas próprias conclusões. Ele recomendava evitar explicações excessivas e deixar que as ações e os diálogos dos personagens revelassem suas emoções e personalidades.
2. Corte o desnecessário
Para Tchekhov, um conto deveria ser enxuto, e cada detalhe precisava ter uma função. Ele dizia que, se no primeiro ato há uma espingarda pendurada na parede, ela deve disparar até o final da história. Esse princípio ficou conhecido como "a arma de Tchekhov".
Tchekhov era defensor da economia de linguagem: cada palavra em um conto deve ter um propósito e contribuir para o desenvolvimento da narrativa. Evitar adjetivos desnecessários e frases longas é essencial para manter o ritmo da história.
3. Personagens humanos e realistas
Os personagens de Tchekhov são seres humanos com qualidades e defeitos, motivados por desejos e conflitos internos. Ao criar figuras complexas e multifacetadas, o autor tornava suas histórias mais ricas e interessantes. Seus personagens não eram heróis ou vilões absolutos, mas figuras comuns, cheias de contradições. Ele capturava nuances psicológicas com precisão, criando personagens complexos e ambíguos.
4. O final não precisa ser fechado
Tchekhov frequentemente evitava finais redondos e moralistas. Preferia encerrar seus contos de maneira aberta, deixando espaço para reflexão. Muitas de suas histórias terminam abruptamente, sugerindo que a vida continua além do texto. Ele rejeitava mensagens moralistas ou finais felizes, pois acreditava que a vida é complexa e cheia de nuances, e a literatura deveria refletir essa complexidade.
5. A vida como ela é
Ele rejeitava sentimentalismos e soluções fáceis. Seu realismo baseava-se na observação da vida cotidiana e do comportamento humano, muitas vezes mostrando a frustração, o tédio e as pequenas tragédias do dia a dia.
6. O subtexto é essencial
Tchekhov raramente dizia tudo de maneira direta. Confiava na inteligência do leitor para perceber o que estava nas entrelinhas. Muitas vezes, o verdadeiro conflito de um conto não está na superfície, mas nas pequenas nuances do comportamento dos personagens.
7. O tom importa
Seus contos variam entre a melancolia e o humor sutil. Ele conseguia equilibrar ironia e compaixão, tornando suas histórias ainda mais impactantes.
8. A sinceridade importa
O escritor russo acreditava que a sinceridade é fundamental para criar uma boa história. Ao escrever sobre o que realmente o comovia e interessava, o autor conseguia conectar-se mais profundamente com o leitor.
Para escrever como Tchekhov, é essencial cultivar a observação, confiar na simplicidade e evitar moralismos e sentimentalismos exagerados. O conto deve ser uma fatia da vida, sem artifícios desnecessários, mas cheio de significado e humanidade. Em resumo, para escrever um conto seguindo os princípios de Tchekhov, você precisa:
a) Observar a realidade: Preste atenção aos detalhes do mundo ao seu redor e use-os como inspiração para seus contos.
b) Construir personagens verossímeis: Crie personagens com personalidades complexas, motivados por desejos e conflitos reais.
c) Escrever com objetividade: Evite julgar seus personagens e apresente os fatos de forma clara e concisa.
d) Utilizar uma linguagem precisa e concisa: Escolha as palavras com cuidado e evite frases longas e complexas.
e) Construir uma atmosfera autêntica: Use detalhes para criar um ambiente verossímil e envolvente.
f) Ser sincero: Escreva sobre o que te interessa e o que te comove.
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Referência bibliográfica:
TCHEKHOV, Anton. Sem trama e sem final: 99 conselhos de escrita. Tradução de Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 2019.