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INÊS DE CASTRO - FINAL


Na estrofe introdutória das "Trovas", evidenciado o intuito moralista-ético-didático. "Senhoras, e algum senhor... se estas trovas quereis ler" - o relevo da temática do Amor será partlhado e mesmo suplantado pelo da temática do conflito entre duasrazões éticas: a que se inclina ao bem pessoal e a que nos fala à compaixão, condenando essa "morte tam sem rezam" - "é de fraco coraçam... culpa nam sendo rezam"; aquela que se inclina ao bem coletivo, e que nos fala à razão fria; explicitada na fala do cavaleiro: "Com sua morte escusa - muitas mortes, muitos danos". Apesar da simpatia sobre INÊS-personagem, GARCIA tende à segunda dessas razões, colocando ao mesmo tempo em jogo um terceiro aspecto, o de que o amor apaixonado entra em conflito com a ordem estabelecida e traz desgraça àquela que se submeteu a tal amor, daí inicial advertência (?) às "senhoras", intuito de preservá-las do mesmo erro e tristes consequências -- em CAMÕES, não há esse conteúdo ético, visto porque não está em jogo a opção entre duas atitudes ou razões diferentes: 'amar-ou-não-amar' / 'matar-ou-não-matar'; escolha impossível pois de antemão submetida a forças superiores ao homem: o Amor e o Destino.

Em CAMÕES, a importância do Amor como tema suplanta tudo, até a da própria INÊS, que será transformada em símbolo do Amor (completada a transfiguração século mais tarde, em JORGE DE LIMA): o Amor em CAMÕES é personagem e força condutora da ação; por outro lado, no Amor de INÊS DE CASTRO encontramos a mesma característica antitética (herança petrarquiana) de toda a lírica camoniana. "Amor é fogo que arde sem se ver" etc. Amor ao mesmo tempo "puro", "Tu, só tu, puro Amor", e "fero", "Se dizem, fero amor, que a sede tua..."; é o Amor que quer suas "aras banhar em sangue humano", "áspero e tirano", mas que pode também proporcionar tantas "memórias de alegria"; enfim, o Amor é ao mesmo tempo força fatal que leva à morte, "Tu, só tu, puro amor... deste causa à molesta morte sua", e que possibilita e dignifica a vida. "Ali co amor intrínseco e vontade... da mãe triste". Assim, depreende-se um verdade definitiva e suprema: Amor como fatalidade, Amor-Destino, interior e superior ao Homem. Duas formas de grafar o vocábulo "amor", com maiúsciula ou minúscula, representando ora o amor individual e circunstancial ora aquele que submete, independente da vontade humana - neste sentido, nas "Trovas" e em "Os Lusíadas", o Amor se apresentará intimamente ligado a sofrimento, profundo e inevitável. "...foi-m' o príncipe olhar, / por seu nojo e minha fim" - "Tu, só tu, puro amor... em sangue humano" -- em CAMÕES, esse aspecto mais avulta; por isso mesmo para o episódio, o poeta selecionou os elmentos mais importantes para sua caracterização: mistificação do Amor como tal, ou seja, fatos imediatamente ligados à morte de INÊS e os sequintes -- em GARCIA, o relato conciso da vida anterior, concluindo o poema com observação de caráter moralista. "...este é o galardam / que meu amores me deram" -- CAMÕES encerra o episódio com bela e expressiva metáfora, que resume o significado profundo do episódio. "As filhas do Mondego... vede que fresca fonte rega as flores, / que lágrimas são a Água e o nome Amores', estabelecendo a correlação definitiva;

FONTE / água - lágrimas
nome - Amores
LÁGRIMAS - AMORES

Uma das caracteríticas do herói trágico é o confronto com as forças do Destino, adverso normalmente, no qual ele fatalmente irá sucumbir - também a presença do "pathos", paixão que o submete e conduz, à qual de certa forma inevitavelmente destinado e se subordinarão sua vida e sua morte. Todavia, apesar da submissão ao Destino, é nesse mesmo confronto que o herói trágico encontra grandeza e dignidade, e através dele realiza sua condição humana. Por tudo isso, INÊS DE CASTRO é uma heroína trágica e simultaneamente sujeito lírico (o tema do amor suscita poemas e tragédias). ----- Em GARCIA, as forças inevitáveis do Destino se fazem sentir. "...foi-m' o príncipe olhar, / por seu nojo e minha fim" -- CAMÕES, entretanto, explorará esse aspecto mais profundamente, fazendo dele o núcleo do poema-episódio. --Nas "Trovas", "Morte tam sem Rezam", e não é fornecida uma exlicação para essa morte. "Triste de mim... me mataram cruelmente" -- em CAMÕES, as exigências do Destino e do Amor como fatal motivo. "Se dizem, fero Amor... em sangue humano" e "Queria perdoar-lhe o Rei benino... mas o pertinaz povo e seu destino / (que desta sorte o quis) lhe não perdoam" - justamente por essa submissão a um Destino superior que INÊS poderá ser elevada às categorias de MITO e de SÍMBOLO.

INÊS em CAMÕES e maior do que si própria - ela é a encarnação viva do Amor e de seus caminhos; já nas primeiras estrofes do episódio, o tratamento "tu" é aplicado alternadamente a INÊS e ao amor-personagem, expressando a identificação da personagem e de sua sorte. "Tu, só tu, puro amor..." "Estavas, linda Inês..."Que tudo enfim, puro amor, desprezas..." ----- Em GARCIA, o poema termina com a morte da personagem central -- em CAMÕES, prologamento em 3 estrofes, onde o poeta fala da repercussão da história no tempo e no espaço, de sua validade umiversal e significado profundo: os vales do Mondego haviam presenciado a ventura e a desventura de INÊS, guardando de amas o sentdo e "por muito grande espaço" os repetirão; a fonte lá ficou, testemunha de uma verdade geral e eterna, e esse mesmo Mondego continua "de (seus) fermosos olhos nunca enxuitos". ----- O próprio tempo verbal, presente de narrativa, durante a ação propriamente dita e pretérito perfeito dessa ação, serve para marcar a transição de umab realidade circunstancial e outra global.

Em JORGE DE LIMA, finalmente, INÊS inteiramente SÍMBOLO e quando se diz INÊS, quer-se dizer simplesmente Amor, simbologia consciente, e poeta insiste em esclarecer que a persoagem-pessoa passou a ser símbolo. "Eras ontem, Rainha, hoje és ritual, Que destino de gentesupra-real." E mais ainda, símbolo que mostra a obra de arte com seu eterno valor. "Estavas, linda Inês, repercutida / nesse mar, nessa estátua, nesse poema, / e tão justa e tão plena e coincidida, / que eras a alma da vida curta; e estrema / quando se esvai na terra a curta vida."

Como e por que o MITO de INÊS... o eterno MITO?

O poeta JORGE DE LIMA responde:
"Tu te reflais na vaga desse tema, / eterna vaga, vaga em movimento, / agitada e tranquila como o vento.".
E ainda:
"Pajens, vive de novo A SEMPRE INÊS".

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FONTE:

Salvei o que pude em resumo De CLÁUDIA N. MATOS, Fac. Letras - UFRJ. Quatro páginas datilografadas, apostila amarelada bem velhinha, abril/72, possível distribuição em algum seminário.

F I M
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 06/10/2018
Reeditado em 06/10/2018
Código do texto: T6468959
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 52 anos
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Rubemar Alves