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SUBINDO NOVAMENTE A MONTANHA... - PARTE II



Conto "O SENHOR", de MIGUEL TORGA - estruturação dos elentos em torno do eixo vida / morte.

MT (ele) - "A vida está acima ds desgraças e dos códigos".

NÚCLEO TEMÁTICO - luta entre vida e morte é a própria dilemática do conto: tema / funções / verbos. ----- NÍVEL DAS FUNÇÕES - vida x morte. ----- NÍVEL DAS AÇÕES - personagens agem sob um aspecto ora humano ora mítico-divino; ora em direção à vida ora em direção à morte.

DEUS (o Senhor) é o senhor da morte; o homem é o senhor da vida. A mediação se concretiza com o nascimento da criança. ----- Mãe = terra, personagem mediadora passiva / criança = produto, personagem mediadora ativa -- entre vida e morte. ----- Padre - sai do pláno mítico para o humano, mediador entre Deus e humanidade. ----- Padre e Filomena - significativos, apesar de constituirem elementos comuns a um grupo social. O homem (humanidade) ligado à natureza é o povo rude e campesino, que semeia como se semeasse a vida, e é a vida que ele precisa colher - enquanto semeiam, vivem.

Há nos personagens o apego à vida:

"Que tal ela está?" (terra = vida) --- "Boa! ----- "Bebam! Vocês bebam!" (sede de viver).

O homem-massa é puro, agreste, a quem só a escuridão (= morte) obriga a largar a terra-mãe (=vida). "Ao crepúsculo que descera e obrigara a largar a terra..." ----- "...lábios...sorviam com avidez (sede de viver) o renovo da vitalidade (bebem vinho, e é igual à vida; vinho, bebida do ato religioso da comunhão, sangue do Cristo vivo) que ficara enterrada (sema de terra = vida; nível semântico de "enterro" = morte / para eles terra é ao mesmo tempo vida e morte, mas predomina a vida, sob o peso das leivas". ----- Com o anoitecer (morte do dia), o camponês (grupo social) perde "a consciência da vida ativa", caindo num "abismo de nada", como se o sono fosse um prenúncio de morte. Somente um sino, em "toque imperioso", os arranca de um torpor, quando avisa que alguém irá morrer. O sino da morte os arranca deste "abismo (= morte), sem arado e sem alegria" (alegria = arado = vida = terra), mas também uma criança será arrancada do abismo uterino (= terra plantada), do nada (escuridão) para a luz (vida). Também a mulher-mãe "arranca" o prior de sua condição divina para condição humana: também colhe. ----- "Tinham acabado de semear a vida, mas a morte não morreria dentro de suas lembranças". "Hoje vós, amanhã nós", a eterna presença da morte. "Calados, começaram a engolir o pão (= vida - também pão = corpo vivo de Cristo na comunhão) ... numa pressa sem gosto" (como se esta comunhão fosse a última; interrogação e o ter que aceitar, esperar a morte que não se evita - o homem existe para morrer um dia). ----- Entre Deus (senhor da morte) e o Homem (senhor da vida), há a Igreja (instituição), consoladora, que promete o céu através da eucaristia e do perdão dos pecados: algo distante que contrasta com a rudeza do campesino, opondo crenças populares e tradições burguesas. E ainda na oposição povo/igreja (vida X morte), o padre, em sua formação cultural, torna-se mais perto de Deus e mais distante daquele povo. Mas é também povo (um elemento humano: pastor de ovelhas, "rebanho de gente à sua volta") e, como tal, concede vida a quem esperava a morte e traz à vida um novo ser. ----- O camponês faz parte da paisagem: ele é bruto, ignorante, desesperado, miserável, mas senhor da vida porque semeia e colhe. Não mata a semente. Ele sempre "renova a vitalidade enterrada" (terra, vita, vida), em seu caminho eternamente "comprido e duro", "caminho de suor", "de cansaço e lágrimas... de dor (= morte) e gratidão (= vida)". ----- "Homens, escaldados da poeira do dia, entoavam ... cobrindo de húmus" (agricultor homem = estrume = terra = vida / ele cobre, ele por cima, superior, macho, voz grossa e pastosa: o próprio ato sexual), "o cristalino canto das mulheres, que subia até mundos impossíveis..." ----- Homem: húmus, estrume, fertilizante, preparo da terra, o sementeiro, o esperma. -- Mulher: recebe a semente, fertiliza e produz; ela, a própria seiva, a terra. ----- Ambos: donos, senhores da vida. ----- "Malaquias apareceu ajoelhado na estrumeira (= húmus, vida), de mãos erguidas ... outra vida cilindrava a realidade desta" (a morte do corpo = vida para o cristão). ----- O homem é brutal e humano, mas sempre senhor da terra e da vida. Doador da vida é o homem, a humanidade, quando "rouba a criança á escuridão do nada" - o nada é a morte e a criança a mediadora entre vida/morte. ----- "Filomena, a cara pálida e branca, tinha agora uma paz de dia findo", de obrigação cumprida (mediadora passiva, extenuada), "os olhos cansados olhando o filho aos estremeções", "seu filho esperneava naquelas mãos poderosas" (primeiros movimentos de vida), "olhos (dela) fechando-se de sono", mas um sono somente de paz, e não de morte: o mesmo cansaço dos lavradores após semear (ato sexual de 'plantio') ou colher (dar a luz) - a humanidade vence a própria morte ao gerar uma vida. ----- Em TORGA, o regional é pretexto para chegar ao homem universal (não pátrias nem fronteiras). ----- A tradição popular, o folclore, mostra-nos na "montanha de TORGA" a procissão de extrema-unção, que corresponde à impotência da humanidade em impedir a morte: todos a interrogam, não entendem, porém se solidarizam com aqueles que vão partir. Mesmo sendo senhores de vida, na hora da procissão, unidos, os homens cantam e estão tranquilos, fazendo parte de Deus, integrando-se no solene mistério da criação humana (= vida) e da criação divina (= morte): aí se sentem também senhores da morte. ----- Deus é o opressor, "ao toque imperativo do sino", chamando e advertindo o homem sobre aexistência da morte. Quem, não submisso, não acompanha, é o senhor da vida, que "andou a esterroar" (sema de terra = trabalho = vida) "o dia todo!..." ----- Oposição: Perto da vidab está a rapariga que canta alto, "em agudas e aveludadas notas" X "Perto da morte está Filomena, "a voz quase sem tom". ----- A mulher é vida: "É a tua mulher, diz o padre, e a multidão subitamente acorda" (antes, eles na procissão da morte; e agora despertam para a vida). ----- Ela é colheita, terra: "É de parto..." ----- ESPAÇO - Fora do quarto, "a naturalidade da vida e o levedar (de levedo, fermento, vida) da procriação..." / Dentro do quarto, "um cheiron enjoativo e adocicado de cera (vela = morte) a arder e de sangue (= morte) quente" - mas quente, vivo. / Dentro do nada, útero escuro = morte, possível morte; dentro de Filomena-madre (= vida), "um filho dentro dela a pedir mundo" (colheita, vida). ----- Criança, mediadora: escuridão do útero = nada = possível morte X pedir mundo = exterior claro = possível vida. ----- "Sobre a caixa de roupa, a vela (= morte) se consome lentamente e os sacramentos (= Deus, senhor da morte) são inúteis. Vence avida! ----- Era previsível, portanto, a ideia da morte, "nos três dias de pesadelo em que Malaquias se resignara" ao destino inexorável, numa densa atmosfera mítica, a "mulher subindo ao céu embalada no coro" da procissão solidária e se esperava do padre (Deus = senhor da morte) a consumação da palavra terrível, mas final e consoladora. ----- Padre-deus sai do misticismo, 'depõe o sagrado viático, tira a estola, despe a capa religiosa", despe-se de padre (divino = morte) e veste-se de homem (humaniza-se = vida), aproxima-se da mulher (mãe/vida/matriz) e a ajuda - um homem como outro qualquer, o padre seráb também e então senhor da vida. ----- "Parvo", espantado com a nova realidade, ante o padre não divinizado como antes (- morte e + vida), Malaquias olha, mudo, e obedece às ordens de "acender o lume" (luz, fogo = vida) como o prior mandou". ----- O sacristão, menos divino que o prior, junta-se ao povo, fala-lhes de sementeiras (= vida) enquanto o padre arranca com "garra possante" a criança para a vida. ----- Como a morte, é também a vida um mistério, que merece respeito (diferente da morte, mistério que merece temor). "Calai-vos!" O homem, que esperava a morte, se cala à espera de um milagre; respeito de humanidade, compreensão, amor fraterno. ----- "Além de carregar o moinho (terra, vida) e o macho" (vocábulo que lembra vida), o moleiro, sempre em contato com a terra (= vida), não sabia mais nada, não era senhor da morte: era senhor da vida. O homem natural sempre em contato com a terra e a colheita. ----- O médico, que pela cultura estaria mais perto de Deus que do campesino (como o padre está), é mostrado também doente, a quem a presença da morte poderá também surgir. Médico não é terra (não é vida) e sim algo superior e superior é Deus, é morte. ----- O padre, não morte, sai do divino (= morte) para o humano (= vida). E como ele era padre, não conhecia o corpo de uma mulher, não conhecia a semente da vida. Agora ele é menos padre e mais humanidade e "pela primeira vez uma onda de calor alterou-lhe o coração sereno e solidário" (humanizado). ----- O homem-divino se identifica com o que ele é: "da igreja, no cimo do povo (deus...), saía o padre com gente à sua volta ... sacramento da eucaristia (... da morte)"; "o homem de cabeção (veste sagrada), o moleiro o concebia inatingível". ----- O homem-humano se identifica com o que ele faz; "o padre de mangas arregaçadas (senhor...) ... o moleiro foi acender o lume (... da vida) como senhor mandou". ----- "Pronto, já cá está!" - a exclamação de triunfo do prior tirava-lhe a inatingibilidade.

GREIMAS - "Personagens são seres, mas actantes; não o que são, mas o que fazem."

VIDA - SENHOR É O HOMEM - povo camponês, prior (depois).
X
MORTE - SENHOR É DEUS - prior (antes)

Ao centro, MEDIADORAS - mãe = terra (agente passivo) e criança = produto (agente ativo).

MIGUEL TORGA - Odes: "À Terra - Terra, minha aliada na criação! ... te rasgob de magia e te lanço nos braços a colheita que hás de parir depois... Poesia desfeita, fruto futuro de nós dois. Terra, minha mulher! Terra, minha canção ... ao gosto da vida!"

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INDICO a leitura de "Miguel Torga, a obra e o homem", livro de José de Melo, Lisboa, Arcádia Ed., 19... (espec. p.162/173).

FONTE:

Prova num tempo antigo, final do semestre, nov./72, criar e não copiar da Internet.

F I M



 
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 06/10/2018
Reeditado em 06/10/2018
Código do texto: T6468955
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 52 anos
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