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JOÃO E MARIA-PARTE II


 
Conto “HANS und GRETEL” - tradição oral, Alemanha, GRIMM, publicado em 1912.
1-Em CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, ano de 1977 -  “João e Maria” - “Agora eu era o herói / E o meu cavalo só falava inglês....................”  ---  Apenas o título, nomes de pessoas comuns e personagens populares...  - nada semelhante ao tradicional conto alemão.
2-Só para fazer graça  ---  HQ - “A cabeça é a ilha”, de André Dahmer - 1 quadrinho - Um político engravatado:  “As pessoas querem apenas um futuro melhor para os filhos.”  O outro:  “Podemos cobrar um imposto para isso.”  //  HQ - “Zits”, de Scott e Borgman - 2 quadrinhos - Filho montando sanduíche:  “Certo!  Manteiga, queijo suíço, manteiga de amendoim, presunto, mel, atum, mostarda, maionese, bife de porco, uma pitada de creme de alho!”  Pai assistindo:  “Depois me passa essa dieta!”  //   HQ - “Bichinhos de jardim”, de CLARA GOMES - 3 quadrinhos - Caracol:  “Você não sente a felicidade contagiante do fim do ano?”  Joaninha:  “Não!”  Caracol:  ‘Uma vontade de fazer um exercício de gratidão?”  Joaninha:  “Não!  Meu único exercício de fim de ano é comer!”
3-Agora, a sério...
Resumo de uma análise psicanalítica:
“Ah, o início é realista:  *a vida como ela é... - situação possível na vida real, pais preocupados, sem saber como cuidar dos DOIS filhos, discutem o futuro deles à noite e percebe-se claramente que pobreza e privação tornam o homem mais egoísta e insensível ao sofrimento alheio, capaz de maldades - os filhos entendem ansiosos que serão abandonados e morrerão de fome.  A mãe representa a fonte de alimentação e agora os abandona na floresta?!    Decepção profunda, ela agora egoísta, rejeitadora e pouco amorosa...  Tentam voltar para casa e nessa  primeira vez conseguem /João deixara cair pedrinhas para marcar o caminho de volta/, passivos, para garantir uma eterna dependência, como se nada tivesse acontecido e as frustrações continuam.  Na segunda, o menino perdera o pensamento claro e pássaros comem as migalhas de pão, que representa a ‘comida’ em geral.  A estória mostra ansiedades e tarefas de aprendizagem da criança pequena que precisa vencer e sublimar desejos incorporativos primários e, por conseguinte, destrutivos.  Se não se liberta destes, os pais ou a sociedade o forçarão a fazê-lo contra sua vontade - a mãe pára de amamentar o filho logo que chega o momento.  Experiências internas são sempre chegadas à mãe;  nesse estágio inicial da vida, o pai é figura  apagada e ineficaz, mãe é toda-poderosa, tanto nos aspectos benignos como ameaçadores.  Sem comida, J e M caem na regressão oral.  A casa de biscoitos de gengibre representa uma existência baseada nas mais primitivas satisfações - num anseio incontrolável, destroem o que lhes poderia dar abrigo e segurança, devorando teto e janela na pressa de comer alguém da casa e do lar, projetando os pais que os abandonaram:  botam a culpa no vento e continuam comendo...  Casinha, quadro atraente e tentador, devorar não importando perigos - voracidade oral, atração.  Seja sonho, fantasia ou imaginação, a casa é o lugar onde habitamos e pode simbolizar o corpo da mãe.  A casa de biscoitos, possível de devorarem, é o símbolo da mãe, que de fato alimenta a criança com seu corpo;  no inconsciente, a mãe está oferecendo o alimento que eles comem extasiados e descuidados.  Arrebatados pela voracidade e enganados pelos prazeres da gratificação oral, J e M “pensam estar no céu”.  Ceder a uma gula desenfreada traz a ameaça de destruição e o canibalismo toma a forma de bruxa, que é a personificação dos aspectos destrutivos da oralidade:  as crianças comendo a casa, representação simbólica da mãe, e a bruxa querendo comê-las.  Lidar com símbolos é mais seguro que lidar com a realidade.  Reversão da situação sobre a bruxa:  crianças têm pouca experiência, ainda aprendendo auto-controle, supostamente os mais velhos são mais capazes de controlar desejos instintivos;  assim, o castigo da bruxa é tão justificado quanto o resgate de J e M.  Estes reconhecem os perigos da voracidade oral descontrolada e da dependência - para sobreviver, devem planejar inteligentemente, trocando a subserviência pela ação harmônica com o ego:  substituir o dedo pelo osso e fazer a bruxa entrar no fogão.  Reconhecidos os perigos da fixação numa oralidade com propensões destrutivas, abre-se caminho para um estágio mais alto de desenvolvimento, descobrindo-se a mãe boa escondida na mãe malvada e destrutiva e as crianças herdam os tesouros, isto é, as jóias da bruxa, benéficas a todos, valiosas ao voltarem para casa,  e reencontram o pai bom.  Pássaros comeram as migalhas e impediram a segunda volta para casa, jogados numa grande aventura, também um pássaro os orienta para a casa de biscoitos de gengibre e outra ave sobre o caminho para casa.  Como tudo termina bem, conclui-se que o primeiro pássaro ‘ensinou’ a enfrentar os perigos do mundo e depois outros dois elementos da naureza dão a pista para a recompensa.  Inconscientemente, crianças ouvintes compreendem que a casa da bruxa e a casa dos pais são dois aspectos separados numa única experiência total.  Bruxa inicial é a figura da mãe gratificadora que os toma pela mão e dá leite, panquecas com açúcar, maçãs e nozes, depois os põe em lindas caminhas com lençóis brancos e limpos e eles pensam estar no céu;  só no outro dia, o rude despertar dos sonhos de bem-aventurança:  fingida bruxa malvada...  Sentimentos ambivalentes, frustrações e ansiedades do estágio edípico de desenvolvimento, desapontamentos prévios e raiva quando a mãe não gratifica integralmente desejos e necessidades da criança...  Imagina que a mãe a nutriu e criou mundo oral,  abençoadora só para enganá-la - tinha sido um embuste, como a estória da bruxa.  Assim, o lar paterno “próximo a uma grande floresta” e a casa nas profundezas da mesma são em nível inconsciente apenas dois aspectos do lar paterno:  gratificador e frustrante.  Desde os primeiros tempos cristãos a pomba branca simboliza poderes superiores benevolentes e João vira uma, pousada no texto do lar paterno dizendo adeus, e depois pousa na casa de biscoitos.  Caminho bloqueado por um “grande rio”, porém um pato branco os ajuda a atravessar.  Cruzar um rio na volta significa transição, nível mais elevado de existência (como no batismo);  antes, nunca houve separação entre eles.  A criança em idade escolar desenvolve a consciência de unicidade pessoal, individualidade, não mais partilhar tudo com os outros, viver sozinha até certo ponto, caminhar a passos longos por conta própria.  Simbolicamente, incapazes de atravessarem o rio juntos - João não vê jeito, Maria observa um pato branco e pede ajuda.  Ele senta nas costas do pato, impossível juntos, ela vai depois.  A experiência em casa da bruxa purgou-os das fixações orais;  atravessam o rio, amadurecem, resoluções mais maduras na vida.  Como dependentes e fardo pra os pais, porém esteio da família ao trazerem tesouros que são a recém-adquirida independência de pensamento e ação, autoconfiança oposta à dependência passiva quando foram abandonados na floresta.  As mulheres - madrasta e bruxa, numa e em outra versão do conto clássico, são as forças inimigas na estória, mas Maria reassegura que a figura feminina pode ser tanto salvadora como destruidora:  as crianças crescem num plano mais elevado de existência, psicológico e intelectualmente.  O conto finaliza com heróis voltando para casa e a felicidade, inexistente fora do lar - boa relação com os pais para uma adolescência correta, após vencer as dificuldades edípicas, dominar ansiedades e sublimar anseios que podem ser satisfeitos realisticamente, o pensamento mágico substituído pela ação inteligente.  Simbolismo nos tesouros que trazem para casa a compartilharem som os pais,  contribuição ao bem-estar emocional e social da família.  O lenhador continua pobre...  Embora a estória conte que as crianças trouxeram um monte de pérolas e pedras preciosas, não sugere modificação  na economia da família;  portanto, são jóias simbólicas, mudando  apenas as atitudes internas - crianças não mais serão expulsas-abandonadas-perdidas na floresta nem buscarão a miraculosa casinha de biscoitos de gengbre; também não temerão a bruxa porque provaram a si mesmos vencer com esperteza.  Neste conto, dois irmãos colaboram em auxílio mútuo e alcançam o sucesso devido aos esforços conjugados.  A cooperação entre eles substitui finalmente a dependência dos pais;  perigos existenciais personificados numa bruxa devoradora de crianças, forjada pela fantasiosa ansiedade de que se livram no ato de acender o fogão:  crescer e ganhar com a experiência.
 
 
NOTA DO AUTOR:
*A vida como ela é...” - crônica diária do excelente escritor NELSON RODRIGUES, um dos mlohores do século XX, no jornal carioca “Última Hora” entre 1950 e 1961.
FONTE:
“A psicanálise dos contos da fadas”, de BRUNO BETTELHEIM - Rio, Editora Paz e Terra, 1980.

                                                     F  I  M
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 05/08/2017
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 50 anos
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